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  • Antônio Pedro: “A existência é antes de tudo gostar das pessoas e ser alegre”

    Da Redação em 26 de Novembro de 2018    Informar erro
    Carioca de Ipanema, o ator Antônio Pedro Borges de Oliveira, ou simplesmente Antônio Pedro, descobriu a vocação pelo teatro ainda na adolescência e nunca mais parou. Atuou em dezenas de peças, filmes e novelas e foi secretário municipal de cultura do Rio de Janeiro e de Volta Redonda nos anos 80.
     
    Além de ator é também diretor, roteirista, produtor e humorista. Aos 78 anos, morando na Ilha de Gigóia desde 2016, Antônio Pedro recebeu o Bafafá e falou sobre vários temas: juventude, início de carreira, censura e utopias. “Acho que a existência é antes de tudo gostar das pessoas, ser alegre”. 
     
    Como foram a sua infância e juventude?
    Eu nasci em 1940 em Ipanema que até então era um subúrbio carioca da Zona Sul. Morava na descida da Rua Saint Roman onde tudo em volta era mato. Jogávamos futebol na rua, andávamos de carrinho de rolimã e fazíamos fogueiras de São João. Como Ipanema não tinha muitos atrativos além de cinemas, a minha adolescência foi em Copacabana, na Rua Constante Ramos, onde tínhamos uma turma que brigava com as outras (riso). Aprendi boxe na rua. As turmas bravas eram a do Lido e da Miguel Lemos (riso). Era testosterona pura, falta do que fazer. Em pleno verão vestíamos casaco de couro e imitávamos o Marlon Brando (riso). Tinha festas todos os sábados e junto com elas, sempre porrada. Nos bailes de formatura também. Na escola naval, os alunos iam fardados e a gente provocava eles (riso).
     
    Como foi o começo de carreira?
    Desde criança eu desenhava. Quando adolescente passei a frequentar o Instituto Municipal de Belas Artes. Fiz também vestibular para filosofia, mas só fiquei um ano. Em 1960, uma amiga, a atriz Camila Amado, me levou aos ensaios da peça, “Um Elefante no Caos”, com o Millôr Fernandes. Assistia os ensaios e dava palpites (riso). O João Bethencourt, que era diretor, me convidou para fazer figuração. Eu interpretava um PM sem fala. Acabou que fiz de tudo um pouco: contrarregra, sonoplastia e iluminação. Antes mesmo de a peça estrear, o Fábio Sabag, que dirigia o programa da TV Tupi chamado “Teatrinho Trol”, voltado para o público infantil, me chamou para interpretar o Pedrinho. Aí vi que tinha o dom da coisa, era fácil para mim (riso). O programa acabou virando peça também e como o Sabag tinha outras coisas na TV Tupi me convidou para vários programas.
     
    E você acabou indo morar em Paris?
    Sim, no final de 1961 fui morar na França. Mamãe achou que eu estava desregrado e bebendo demais e me mandou logo para Paris! (riso). Fiz contato com o produtor de teatro Léo Lapara que dirigia uma grande companhia. Fiquei dois anos trabalhando no teatro fazendo de tudo. Morei atrás da gare de Montparnasse e depois numa chambre de bonne (antigos quartos de empregada) num prédio em Port Royal, perto de Saint Michel. Acabou que no total fiquei cinco anos na França sem sequer vir ao Brasil. Saí com Juscelino e voltei com Castelo Branco (riso).
     
    Foi uma boa escola para você?
    Claro, saí completo. Parei de beber e a minha primeira maconha foi lá (riso). Voltei pro Brasil em maio de 65. Percebi que se não voltasse não retornaria mais (riso). Peguei carona num cargueiro do Loyd Brasileiro.
     
    E como foi a readaptação?
    Tinha um apartamentinho na Rua Bulhões de Carvalho e fui trabalhar com teatro fazendo um pouco de tudo: sonoplastia, iluminação e TV com o Sabag. Nunca estudei teatro, fui autodidata. Arte não se estuda, se faz. Em 1967 fui ser assistente de direção da peça “Onde canta o sabiá”, de Paulo Afonso Grisolli com a Marília Pêra e o Gracindo Junior. Depois me juntei ao Cláudio Marzo e a Beth Farias e fundamos a Cia Teatro Carioca de Arte. Alugávamos o teatro e bancávamos toda a produção pagando os custos (quando dava) com a bilheteria. Acabou que em 1968 fui para São Paulo encenar a peça “Roda Viva” e acabei ficando cinco anos por lá. Ganhei muito dinheiro e bebia champagne todos os dias (riso). Sempre fui perdulário (riso).
     
    E como foi encarar a censura?
    Era um inferno. Deixavam você ensaiar e tinha que fazer uma apresentação só para ela autorizar ou não o espetáculo. Cortavam tudo, tinha que negociar um “puta que pariu” por um “merda” (riso). Os caras não entendiam nada de teatro.
     
    Continua fazendo TV?
    Sou contratado pela TV Globo. Faço especiais e séries, entre elas, os “Detetives do Prédio Azul”, que também tem uma versão em filme. Fiz também o filme “Quase Memória”, do Ruy Guerra. Confesso que eu gosto mesmo é de ficar aqui na Ilha da Gigóia (riso).
     
    Você atuou em todos os filmes do Hugo Carvana?
    Sim, praticamente todos. Só não fiz o “Vai Trabalhar Vagabundo 1” em 1972 porque estava em São Paulo, mas fiz parte de todos a partir do “Vai Trabalhar Vagabundo 2”. Os personagens, os textos e a direção eram ótimos.
     
    Como faz para decorar os textos?
    Ainda decoro! (riso) mas, quando dá, improviso. Cada um tem um macete, eu escrevo a minha parte num caderno que fica no bolso.
     
    Está fazendo teatro ainda?
    O teatro querendo ou não exige uma atuação atlética. Quando o sujeito vai ficando velho, começa a enferrujar. Como eu não quero fazer muito esforço, prefiro ficar aqui na minha ilha (riso).
     
    E o programa Saideira, está gostando de fazer?
    Fizemos a segunda temporada. Esse programa é ótimo!
     
    Como é morar na Ilha da Gigóia?
    Minha mulher queria morar numa casa. Estou aqui há um ano e meio. É quase uma aldeia, você anda a pé, mas estou a 10 minutos do Leblon.
     
    Como está vendo a prisão do Lula?
    Escroto, um golpe combinado. É uma jogada imperial para entregar a Petrobras, o Banco do Brasil. Me aflige ver ele preso condenado por corrupção e lavagem de dinheiro de um apartamento que não é dele. Somos um país colonial com uma elite que está pouco se ligando com o país.
     
    Tem alguma utopia?
    A utopia do comuna é pouco utópica, pois sabemos que as contradições existem. Teve uma época que eu acreditei que podíamos mudar tudo. O processo histórico e a luta de classe continuam. O padrão ocidental, considerado o mais avançado, o da democracia burguesa, determina o que é justo ou não. Pergunta isso para o Yanomami. Acho que a existência antes de tudo é gostar das pessoas, ser alegre. Não tem nada mais alegre do que uma roda de samba (riso).  
     
    Entrevista concedida aos editores do Bafafá, Ricardo Rabelo e Rogeria Paiva. 
    Novembro de 2018.
     

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