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  • Glenn Greenwald: É triste ver uma presidente ser destituída

    Da Redação em 16 de Março de 2017    Informar erro
    O norte-americano Glenn Greenwald é jornalista, escritor e advogado especialista em Direito Constitucional. Residente no Rio de Janeiro há 11 anos, ficou conhecido mundialmente em 2013 quando publicou no jornal britânico The Guardian a existência de programas secretos de vigilância dos Estados Unidos a partir de informações do ex-agente de seu país Edward Snowden, hoje exilado na Rússia. As revelações chocaram o mundo e mostraram que ninguém escapa do monitoramento dos órgãos secretos dos EUA, em especial da NSA (sigla do nome, em inglês, da Agência de Segurança Nacional). Inclusive o governo brasileiro e a então presidenta Dilma Rousseff. Sua coragem lhe valeu o Prêmio Pulitzer de jornalismo em 2014 e, no mesmo ano, o Prêmio Esso de Reportagem no Brasil.

    Glenn Greenwald recentemente deixou o cargo de correspondente do The Guardian para coordenar a versão brasileira do jornal The Intercept - uma plataforma digital com o objetivo de produzir jornalismo destemido e combativo. Em aula magna proferida na Faculdade de Jornalismo Hélio Alonso e em entrevista ao Bafafá, Greenwald critica o impeachment de Dilma Rousseff e a campanha de difamação promovida pela grande imprensa. "É muito triste ver a democracia ser atacada e uma presidente eleita ser destituída sem justificativa", assinala. Ele faz ainda um resumo das revelações do ex-espião Edward Snowden. "Ele teve muita coragem ao defender os valores democráticos dos EUA. Ele defendeu a privacidade para todas as pessoas no mundo, não apenas para os americanos".

    A imprensa no Brasil é democrática?

    Todos dizem que apoiam a liberdade de imprensa. No entanto, o Brasil ocupa a posição 104 de países que menos respeitam a liberdade de imprensa no mundo segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras. Por dois motivos: o primeiro por causa de assassinatos de jornalistas independentes e segundo pelo fato de os grupos de comunicação no país serem dominados por quatro ou cinco famílias. Em 2016, estas empresas provocaram e agitaram manifestações para destruir o governo eleito. Segundo a organização Repórteres sem Fronteiras isso não foi um comportamento jornalístico, foi um comportamento político. Todas as empresas de mídia dominantes se uniram com esse objetivo. Isso ameaça a liberdade de imprensa e a democracia. Eu nunca vi antes a mídia de um país conspirar abertamente contra um governo eleito. É muito triste ver a democracia ser atacada e uma presidente eleita ser destituída sem justificativa.

    Você é criticado por criticar a mídia brasileira?

    Quando comecei a questionar esse comportamento passei a ser criticado. Inclusive alguns veículos chegam a defender a minha expulsão alegando que eu sou contra o Estado e o país.

    A TV Globo foi o capitão do golpe?

    Ficou muito claro que a TV Globo encorajou os protestos incitando as pessoas irem para as ruas para lutar contra o governo eleito e fingindo que estava apenas reportando os fatos. A principal fonte do impeachment foi a TV Globo.

    O golpe do impeachment teve participação dos EUA?

    Como jornalista eu prezo as evidências. Ainda não tenho provas disso. O que eu posso falar é que o governo dos Estados Unidos está muito feliz com o desfecho do impeachment, pois sempre tem preferência por governos de direita aos de esquerda. Todo mundo fala que a democracia é importante e que defende a democracia. Mas, a verdade é que muitos governos não se importam com isso. O governo dos Estados Unidos fala que defende a democracia, mas é aliado de países que não são democráticos como Kuwait e Bahrein e durante muito tempo de governos autoritários na América Latina. Eles não vão se importar se o Temer é legítimo ou não. Infelizmente, o povo brasileiro não deve ter esperanças de que opinião internacional salve a sua democracia.

    Você é visto como um esquerdista por criticar o golpe?

    Existe sempre a tentativa de enquadrar as pessoas. No Brasil, as pessoas querem saber de que lado você está. Para mim o impeachment está acima disso. Eu conheço muitas pessoas que não votaram nem em Lula nem na Dilma, mas que estão contra o impeachment. Acho que esta solução não tem nada a ver do que você pensa do PT. Ou acreditamos na democracia ou não acreditamos. Democracia não é uma questão de ideologia, se você é de esquerda ou de direita. A verdade é que os que apoiaram o impeachment perderam quatro eleições consecutivas e decidiram tomar o poder fora do sistema democrático. Eu não denunciei o impeachment porque amo o PT, mas porque estava defendendo a democracia. Se eles queriam o poder que disputassem a eleição.

    O que achou da denúncia do Ministério Público contra o Lula?

    Acho que os procuradores se precipitaram pois, ao que tudo indica, eles não têm provas das denúncias.

    Como você descobriu que os EUA espionavam o governo Dilma?

    Os documentos do Snowden a que tive acesso mostraram que os Estados Unidos estavam espionando o governo brasileiro.

    Snowden é apontado pelos EUA como um traidor. O que acha disso?

    Você não tem obrigação com seu governo, tem obrigação com seu país. Muitas vezes o inimigo do país é seu próprio governo. Neste caso, você está defendendo o seu país. Os EUA criaram um sistema sem limites de espionagem só para ter mais poder. Esta espionagem atinge civis, diplomatas, empresas. O Snowden é uma pessoa que, aos 29 anos, divulgou documentos para defender a democracia de seu país. Ele teve muita coragem ao defender os valores democráticos dos EUA. Ele defendeu a privacidade para todas as pessoas no mundo, não apenas para os americanos. Não existe a menor possibilidade de ele ser perdoado pelos EUA.

    Como ele fez contato com você?

    Eu já trabalhava com jornalismo investigativo quando ele me procurou. Num primeiro momento desconfiei, mas pedi que ele mostrasse um aperitivo do que possuía. Um dia estava em casa com meus cachorros em volta e ele mandou 20 documentos, um deles revelando como a NSA estava invadindo as comunicações. Eu não conseguia respirar (riso). A partir dali, segui para Nova Iorque para falar com meu editor e em seguida para Hong Kong onde fui me encontrar com Snowden. Parecia um filme, sendo que a qualquer minuto podíamos ser presos. Divulguei parte dos documentos o mais rápido possível.

    Você tem recebido ataques por suas posições?

    Quando fiz as denúncias do Snowden, o governo americano tentou me intimidar a ponto de eu nem visitar minha família nos EUA. No caso do Brasil, não ligo, pois se você é ameaçado pela CIA, não pode temer a mídia brasileira. Claro, que nos protegemos no dia a dia, mudamos a nossa rotina.

    A internet para as mídias faz a diferença?

    Sim, a internet é uma tecnologia recente que está fazendo a diferença. Isso está mudando o jornalismo e as oportunidades. Antes, para você ter visibilidade, precisava trabalhar para grandes veículos como o The New York Times, NBC News e Rede Globo. Hoje você pode criar um blog e ter audiência maior que muitos jornais. O fato de termos câmeras em nossos celulares permite gravarmos vídeos a qualquer minuto e obter grande visibilidade com eles. Hoje, todos são jornalistas e não é preciso trabalhar para grandes empresas de mídia e submetido a suas regras. Não temos mais limites e não dependemos mais dessas organizações.

    Setembro de 2016


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