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  • Noca da Portela: “A minha principal inspiração é o amor”

    Da Redação em 08 de Março de 2017    Informar erro
    Natural de Leopoldina, Minas Gerais, Noca da Portela chegou ao Rio de Janeiro aos cinco anos de idade e nunca mais saiu. Filho de professor de violão, criado no Catete, conseguiu ter um samba enredo campeão com apenas 14 anos de idade. De uma família de 10 filhos, só restou ele. Seu currículo é invejável: 62 anos de carreira, 480 músicas gravadas, inclusive por artistas como Maria Bethânia, Elza Soares, Seu Jorge, ex-secretário estadual de Cultura, sete sambas vencedores na disputa de quadra da Portela, seis estandartes de ouro, 32 vezes campeão do samba do bloco Barbas e oito vezes no Simpatia.

    Aos 84 anos, o artista é de uma vitalidade impressionante. Noca está lançando o novo CD Homenagens com 15 sambas inéditos e nunca gravados. Entre as músicas, composições autorais e parcerias com Dona Ivone Lara, Nelson Cavaquinho e o intelectual Arnaldo Niskier, entre outros.

    Entrevistado pelo Bafafá no café do Museu da República, o depoimento foi várias vezes foi interrompido por admiradores que queriam apertar sua mão. “Está vendo? Ser popular é assim”, brinca o compositor. Sobre a expulsão da Velha Guarda da Portela é taxativo: “Meu maior prêmio foi integrar a Velha Guarda da Portela e minha maior decepção foi ter sido expulso dela”. E completa: “Monarco errou de não ligar antes de me expulsar”.

    Fale sobre seu novo CD

    Foi o Mauro Diniz, filho de Monarco, que deu a ideia de gravar um disco com 15 sambas antigos e inéditos. Como produtor ele achou que era hora de fazer algo de novo e me desafiou a tirar do baú letras que nunca tinha gravado. Com Nelson Cavaquinho tomamos um porre na Praça Tiradentes e compusemos há 45 anos “Coração Vadio”, um samba maravilhoso que resgatei recentemente. Com Dona Ivone Lara compus “Basta Papai” quando ela fez aniversário de 54 anos num almoço em sua casa em Inhaúma nos anos 70. Tem ainda o samba “Maravilhado” que fiz quando visitei a cidade de Salvador pela primeira vez e participei de uma roda com sambistas locais como Batatinha, Riachão e Tião Motorista. A partideira Tia Surica foi homenageada com “Cabidela”, em louvor á galinha à cabidela que ela prepara como ninguém. O repertório passeia ainda por São Paulo com a música “Terra Boa”, Minas Gerais com “Êh, êh, êh Minas Gerais” e o Rio de Janeiro com a música “Exaltação ao Rio”.

    Como estão os shows pelo país?

    Graças a Deus, estou com agenda lotada com shows em todo o país. Nada mal para um senhor que chegou aos 84 sem bengala (riso). Só peço a Deus que me dê saúde, né? Ele vai me dar porque ele é meu camarada (riso).

    Qual é o segredo para compor?

    Honestamente não sei explicar. Não tem escola que ensine. Isso nasce dentro da pessoa. Nós estamos fazendo esta entrevista no Catete onde compus o meu primeiro samba enredo aos 14 anos para a extinta escola de samba Irmãos Unidos do Catete. Meu pai era violonista, compositor e professor de violão no bairro. Ele era conhecido como Sabiá apesar de nunca ter gravado nada (riso). Ele devia cantar bem, pois ninguém teria esse apelido à toa (riso). Quando ganhei esse samba enredo passei a acreditar que era compositor. Era uma escola famosa, do grupo especial, e chegava junto com a Mangueira, com a Estácio e a Vizinha Faladeira.

    E a principal inspiração?

    Primeiramente o amor, se não tiver ele você não faz nem uma rima (riso). Ele está nas palavras, nos sentimentos. A mulher sempre é a musa (riso). Fui casado 58 anos e minha patroa faleceu há quatro. Eu fiz uma música para ela que é um sucesso nacional, chama “É preciso muito amor”. Essa música vai fazer 40 anos.

    Você compôs quase 500 sambas. Cita os três que você mais gosta?

    Primeiro, essa que acabei de citar. Outra é “Mil Reis” em parceria com o Candeia. A terceira é “Minha Portela Querida”, o primeiro sucesso que tive no início de carreira.

    Em relação à Portela, você foi expulso da Velha Guarda. Ficou chateado?

    Mais da metade da minha vida foi dedicada à Portela. Ela é minha segunda família, quase meu segundo mundo. Tudo o que aconteceu na minha carreira eu tenho que agradecer também a minha Portela.

    Em relação ao incidente, o Monarco te chamou de mau perdedor?

    Acho que ele está enganado. Ele não pensou antes de dar essa declaração. Eu não gostei da maneira como a escolha foi conduzida. Preferiram dar espaço para uns jovens que vieram da Beija Flor ao invés de reconhecer o meu valor na agremiação. Como a escola vinha embalada para a disputa, o antigo e saudoso presidente Falcon tinha indicado que meu samba, em parceria com o Diogo Nogueira, iria para a avenida. Já que tinha chegado na final eu acho que merecia ter sido escolhido até por consideração da direção da escola. Estou com 84 anos e talvez nunca mais possa ter a oportunidade de ter um samba vencedor na Sapucaí. Como vencedor sete vezes do samba da escola na quadra, apenas queria receber flores em vida. Os meninos que venceram estão com trinta, quarenta anos e podiam esperar. Queria apenas só um pouco de consideração com a minha história na escola.

    Tem algum recado para dar ao Monarco?

    Monarco é meu amigo, parceiro e irmão. Nós temos que somar. O samba fica enfraquecido se virarmos inimigos. Na hora que ele ligar vou atendê-lo com o maior prazer. Acho que ele errou de não ligar antes de me expulsar da Velha Guarda. Desde outubro que não nos falamos. Meu maior prêmio foi integrar a Velha Guarda da Portela e minha maior decepção foi ter sido expulso dela.

    Ficou feliz com título da Portela?

    Maravilhoso, fique realmente muito feliz. Só estaria mais feliz mesmo se tivesse sido o meu samba (riso).

    Como você está vendo o governo Temer?

    Todo mundo sabe que fui do partidão, sou um cara de esquerda. Acho o socialismo uma das grandes saídas para o mundo. Quanto ao Temer, ele pegou o bonde andando, não foi o povo que o colocou na presidência. Estou sentido que ele vai fazer um monte de coisas ruins para o povão apesar de ter a faca e o queijo na mão com maioria na Câmara e no Senado. Estou esperando ainda os resultados.

    E o Lula, volta em 2018?

    Para mim o Lula é o maior político que este país já teve. Ele fez uma mudança radical no Brasil que tinha três divisões: o rico, o mais ou menos e o miserável. Ele conseguiu manter apenas o rico e o mais ou menos (riso). Ele dividiu renda e faz uma porção de coisas boas para o povo, tanto que saiu com mais de 80% de aprovação.

    Você tem alguma utopia?

    Nunca tive, não tenho intimidade com isso.

    Qual é a mensagem que gostaria de mandar para seus fãs?

    Primeiramente quero agradecer o carinho comigo e desejar dias melhores, felicidade, saúde e emprego. A vida exige termos um emprego, ninguém pode viver sem ele, morar, comer, ter filhos.

    Onde é possível comprar o CD?  

    Como é uma produção independente, só está a venda na Livraria Arlequim, no Paço Imperial da Praça XV. Uma livraria lindíssima com um riquíssimo acervo de música.

    Entrevista concedida ao editor do Bafafá, Ricardo Rabelo - Março 2017


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      • Comentário do post KARIN SANT'ANNA:
        Grande Noca da Portela. Um dos maiores e mais humildes nomes da nata de nosso samba!!! Quem não lembra na passeata das Diretas Já, ele em cima dos carros alegóricos puxando o povão e cantando: - Não me venha com indiretas, que eu não aguento não, a moçada esta inquieta, querendo um solução, e o meu povão!! Não aguenta a dieta que assola seu coração, se segura meu irmão, a moçada ta inquieta, a meta é a eleição. Ta na hora minha gente de votar pra presidente, como era antigamente, o nosso povo é que escolhia o dirigente!!! Nada tão atual não é mesmo???? Valeu Noca sempre da Portela!!!!! "Amu tu"!!!!!!


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