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  • Wilson Meireles: “Faço jazz brasileiro, samba-jazz”

    Da Redação em 19 de Março de 2018    Informar erro
    Wilson Meireles de Azevedo é considerado um dos precursores do samba-jazz brasileiro. Com 50 anos de carreira, o artista já tocou com grandes nomes, entre eles, Gilberto Gil, Alceu Valença, Paulo Moura, Tim Maia e Elis Regina. Entre os locais, em Montreux, a meca do jazz mundial, no City Hall em Nova Iorque, no Olimpia em Paris e no Festival de Nice. Recentemente vem se dedicando a apresentações solo em formato de trio.
     
    Aos 71 anos, Wilson Meireles fala com exclusividade ao Bafafá sobre os primórdios da carreira, suas influências musicais e projetos. Um deles é gravar um disco autoral com jovens músicos. O artista se apresenta ainda em bares da cidade, com destaque para o Fuska Bar, no Humaitá, onde toca às sextas-feiras. “Tenho um repertório fixo, mas que muda de acordo com os tributos que faço. O gostoso do jazz é a jam. É o cara chegar, escolher uma música e improvisar”, conta. Questionando se tem uma utopia, não titubeia: “Gostaria muito tocar no exterior em lugares tradicionais, sem banda, só na improvisação”, segreda. 
     
    Como foram sua infância e sua juventude?
    Nasci e fui criado no bairro Senador Camará. Só saí de lá com uns 28 anos. Minha relação com a música é coisa de família, tinha um tio baterista (e por isso sou baterista), outro saxofonista e outro baixista. Meu tio mais velho, o Nailton, foi servente do Getúlio Vargas. Meu pai tocava trompete, mas não era profissional. Todos eram funcionários públicos. Nas horas vagas e nas festas de família, eles tocavam lá em casa. Eu, que tinha 12 anos, via aquilo tudo e queria tocar também (riso). Nos intervalos, eu ia lá e usava os instrumentos. Outro tio, o Francisco, tocava bateria também e quando ele envelheceu eu pedi a bateria dele de presente (riso). Ele aceitou. Só que o pedal era absurdamente duro, pesado. Acabou que fiquei depois conhecido como o baterista que tinha o pedal e mão direita mais RÁPIDA do Rio. Nunca tive dúvida que esse era o instrumento que eu queria tocar. Comecei a praticar em casa sozinho até que com 14 anos fui convidado para tocar num conjunto de rock chamado Os Piratas. Mas toquei também num grupo de samba chamado Os Desvaneios. Com 18 anos fui servir o exército e tive que dar uma parada. Além disso, acabei engravidando minha namorada e tive que ir trabalhar. Arrumei serviço de contínuo no banco Aliança que depois foi comprado pelo banco Itaú. À noite tocava em bailes e festas. Fui galgando posições até ser mandado embora por pagar um cheque sem fundos (riso).
     
    E a influência do jazz, como aconteceu?
    Quem me influenciou muito foi o baterista americano Art Blakey que veio fazer um show no Brasil. Eu toco parecido com ele (riso). Outro que me influenciou foi o Luiz Carlos Batera da banda Black Rio, além do Edison Machado com uma batida “agressiva”. No bairro Saúde tinha um sebo que estava liquidando discos de jazz que acabei comprando quase de graça. Um deles era o Return to Forever e Midi, do Chick Corea. Esses discos me marcaram. Gostei tanto que comecei a assimilar aquela música. Um dia, o Oberdan Magalhães, da banda Black Rio, me ouviu tocar, me comparou ao baterista nova-iorquino Lenny Wheit e me convidou para gravar com Marcos Resende & Index um disco promocional de uma empresa, hoje tido como uma raridade no mercado e que fazia parte da série MPBC (Música Popular Brasileira Contemporânea), com a intenção de mostrar a música instrumental através de compositores, instrumentistas e arranjadores nacionais. Com esse disco fiquei conhecido e fui sendo chamado para tocar jazz, inclusive o João Donato. Um dia, o produtor do Erasmo Carlos, o Liminha, me convidou para gravar com o Gilberto Gil. Acabei indo tocar no Festival de Jazz de Cascais, em Lisboa, abrindo o show do saxofonista americano Dexter Gordon, considerado um dos pioneiros do bebop. Acabei morando lá algum tempo (riso). Quando voltei fiquei um mês ensaiando com o Hermeto Paschoal para um show. Antes dele acontecer o Alceu Valença me chamou para uma turnê de 35 shows e como estava apertado de dinheiro acabei aceitando. Apesar de ter sido financeiramente muito bom, até hoje carrego o arrependimento de não ter feito o show com o Hermeto. E como ter deixado de montar o cavalo branco (riso). 
     
    Você se considera um jazzista?
    Faço jazz brasileiro, samba-jazz. Este estilo é filho da bossa nova e do jazz. O João Gilberto e o Tom Jobim tinham uma harmonia diferente, mais apurada. A escovinha da bateria veio do jazz, quase todos os bateristas adotaram ela. A bossa nova é um samba leve que teve influências do jazz.
     
    Quais lugares você já tocou?
    Toquei três vezes em Montreux, a meca do jazz mundial. No City Hall em Nova Iorque, no Olimpia em Paris, no Festival de Nice.
     
    Quando você resolveu fazer carreira solo?
    Quando fiquei desempregado (riso). A chegada da bateria eletrônica derrubou muito o mercado de trabalho. Os músicos não precisavam mais de bateristas. Isso foi prejudicial. Comecei então a fazer shows em formato de trio, quartetos e até quintetos.
     
    Como está sendo a experiência de tocar em bares?
    É um pouco mais difícil por conta da sonorização. A contribuição espontânea depende muito do lugar. O Fuska Bar, onde toco todas às sextas, é uma experiência de tocar para a vizinhança e os amigos. Não parece trabalho.
     
    Como é tocar com músicos menos conhecidos?
    Adoro, estou sempre chamando jovens músicos para tocar comigo.
     
    Você tem repertório fixo ou improvisa?
    Sim, tenho um repertório fixo, mas que muda de acordo com os tributos que faço. O gostoso do jazz é a jam. É o cara chegar, escolher uma música e improvisar.
     
    Você dá aulas também?
    Faço musicalização para bebês semanalmente. Dou também aulas particulares de bateria.
     
    Como você está vendo o momento político brasileiro?
    Um caos total. O Lula teve que fazer alianças com pessoas estranhas. A política tem disso. Duvido até que vai ter eleições, essa intervenção federal é meio caminho para não ter, infelizmente.
     
    Tem alguma utopia?
    Gostaria muito tocar no exterior em lugares tradicionais, sem banda, só na improvisação.
     
    Tem projetos?
    Gravar um disco autoral, com convidados. 
     
    Março de 2018, entrevista concedida a Ricardo Rabelo e Henrique Chveidel

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