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  • Ferreira Gullar: Eu me filiei ao PCB no dia do golpe de 64

    Agenda Bafafá em 11 de Maio de 2016    Informar erro
    José Ribamar Ferreira, o Ferreira Gullar, adotou o Rio de Janeiro deixando sua terra natal, São Luiz do Maranhão, para tentar a vida na Cidade Maravilhosa. Apesar das dificuldades iniciais – chegou a morar em vagas e pensões – estava certo de que tinha encontrado o local ideal para viver e produzir, o que veio a ser, uma das mais importantes carreiras da poesia brasileira. Idealizador do movimento neo-concreto, garante que o estilo partia da concepção da arte como uma coisa construída e de uma poesia não discursiva,  mas outras formas, principalmente a intuitiva, ao invés de querer transformar a poesia em mera construção racional.

    Jornalista por vocação - passou pelas principais redações do Rio de Janeiro – Gullar filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro no dia do golpe de 64 e fundou o “Grupo Opinião” em 1965, que encenava peças teatrais críticas à ditadura militar. Em 1971, decidiu partir para o exílio – de onde só retornaria em 1977 - depois de receber informações de que poderia ser preso a qualquer momento. Conheceu a União Soviética, Chile, Peru e a Argentina. Durante esse período, colaborou com o semanário "O Pasquim", com o pseudônimo  de Frederico Marques e chega a dar aulas particulares de português para sobreviver.

    Nesta entrevista exclusiva ao Bafafá, Ferreira Gullar, que foi indicado ano passado ao Prêmio Nobel de Literatura, faz uma análise do quadro político e cultural contemporâneo no país e tece duras críticas ao movimento armado que se opôs ao regime militar: “Os que inventaram a luta armada eram meia dúzia de cretinos que não sabiam atirar com atiradeira”, vocifera.

    Confere que quando menino chegou a fugir da escola?

    Quando eu tinha 15 anos estava na Escola Técnica de São Luiz e às vezes eu e um colega fugíamos para ir ao cinema, apesar de freqüentar normalmente as aulas. Eu não era rebelde, era normal. Só matava aulas que não eram importantes, como educação física que eu não gostava.

    Você foi também locutor, tinha boa voz?

    Meu primeiro emprego foi aos 18 anos na Rádio Timbira como locutor. Naquela época os locutores tinham uma entonação especial, uma voz colocada. De algum modo isso ficou como padrão e essa impostação me irritava. Acabei criando problemas lá e saí.

    Como foi sua passagem pelo jornalismo?

    Eu trabalho em jornal desde que eu vim para o Rio em 1953, quase sempre como redator, copidesque. Fora isso fazia colaborações como crítico de arte, cronista, articulista. Fui jornalista profissional mais de 30 anos na Manchete, Diário Carioca, Jornal do Brasil, Diário de Notícias e Estado de São Paulo.

    A vocação pelas letras veio cedo?

    Aos treze, quatorze anos eu já fazia alguns poemas. De repente comecei a me interessar, passei a perceber que era capaz, que tinha capacidade de fazer. No início era esporádico, eu nunca pensei em ser escritor, seguir uma carreira. A partir de determinado momento passei a descobrir que a poesia era uma coisa mais séria e que exigia de mim uma entrega maior. A partir dos 20 anos de idade a coisa mudou de caráter, passou a ser uma coisa fundamental para mim na vida mesmo.

    Você chegou ao Rio de Janeiro com 21 anos. Como foi a adaptação à Cidade Maravilhosa?

    O Rio de Janeiro daquela época era mais fácil, mais tranquilo, menos violento e não tive dificuldade em me adaptar. Como em São Luís, apesar de morar com os meus pais, eu andava muito na rua, estava acostumado a uma vida sem muito luxo, uma vida em que tudo valia. Aqui eu morei em vagas, pensões de terceira categoria e sobrevivi por conta própria. Para mim não era nenhum sacrifício, eu considerava normal até pelo caráter de aventura. Como não pensava em fazer carreira, ficar rico, as dificuldades não me assustavam. Se não desse, nada tudo bem. Eu conhecia o Rio de Janeiro por fotografia e quando cheguei, achei a cidade bonita e me senti bem dentro dela, sobretudo onde morava, na Lapa, perto do mar, pois ainda não tinha o aterro e o mar batia perto da Glória, da Praça Paris. Eu vivia por ali, tinha um emprego que não me exigia e aproveitava as horas vagas vagabundeando. Nunca fui de beber, mas ficava com os amigos no final da tarde no Vermelhinho em frente a ABI, que era um ponto de encontro de intelectuais, de artistas. A Escola de Belas Artes era ao lado e os professores e alunos iam lá tomar uns chopes assim como funcionários públicos – a maioria dos intelectuais eram funcionários públicos que trabalhavam naquela região – então a gente vivia por ali e quando ficava mais tarde os que eram casados voltavam para casa e eu me juntava com outros e seguia para a Lapa, rodando pela noite. Isso durou muitos anos, mesmo depois que eu arrumei um emprego melhor, quando tinha uma vida mais regular. Depois passei a freqüentar a Zona Sul, aluguei um quarto em Copacabana e em seguida me casei.

    O que difere o neoconcretismo do concretismo?

    Basicamente que o concretismo é um movimento em que preponderava uma visão racional da criação artística, a idéia de que a obra de arte não devia partir da intuição, do sentimento, da emoção mas de uma visão objetiva, arquitetônica, construtiva. Como o discurso foi eliminado, essa poesia era construída espacialmente, por relações visuais, de fonética, formando uma figura geométrica na página. Essa visão conduziu o movimento a uma objetividade que eliminava praticamente a complexidade da expressão estética, ficava uma coisa mais visual, mais um jogo áudio-visual, que propunha uma reflexão, uma coisa mais complexa, mais profunda que eliminava praticamente a reflexão. O movimento neo-concreto, embora partisse dessa concepção da arte como uma coisa construída e de uma poesia não discursiva, não usava o discurso-verso, mas outras formas. Buscava mais uma coisa intuitiva, ao invés de querer transformar a poesia em mera construção racional, buscava uma coisa mais misteriosa, a intuição, o sensual, a sensorialidade, o espaço aberto, o silêncio. O movimento neo-concreto, do qual eu fui um teórico que aprofundou essa questão que estava policiando o trabalho de meus companheiros, se tornou um movimento internacional reconhecido por sua novidade, suas inovações tanto no plano prático das obras como no plano teórico. Trazia uma inquietação e ao mesmo tempo uma visão mais rica, mais audaciosa. Foram os artistas do grupo neo-concreto  e não os concretos que realizaram as obras mais inovadoras. No plano da poesia eu fiz o Livro Poema, depois o Poema Objeto, depois o Poema Enterrado que era uma sala no fundo do chão, uma coisa absolutamente inusitada, jamais alguém imaginou fazer um poema que fosse um quarto subterrâneo. No plano das artes plásticas, as experiências da Ligia Clark e do Hélio Oiticica desbordaram dos limites tradicionais da expressão pictórica, escultórica, para criar uma coisa nova na linguagem moderna da arte.

    Por que o Brasil não valoriza a poesia?

    Isso é uma coisa muito relativa. Em todas as partes do mundo, a poesia tem um público reduzido. A poesia, sobretudo numa sociedade massificada como a nossa, em que prepondera o “divertissement”, o entretenimento através da mídia eletrônica, não tem disposição, não tem como concorrer com isso. A própria pintura, a gravura, a escultura, também são colocadas num plano marginal diante dessas novas formas de expressão. O ser humano não quer apenas divertimento, parte das pessoas deseja uma expressão mais profunda, mais rica, tem necessidade de coisas mais complexas que lidam com as questões fundamentais da existência. Não adianta você se entreter e fazer de conta que não vai morrer nunca e que todos os problemas estão resolvidos. A pessoa sabe que esse problema existe, que os problemas sociais existem, sabem das suas aspirações, suas frustrações, isso não se espelha no entretenimento midiático, da indústria cultural. Então, as pessoas que têm isso mais profundo em si, buscam outras formas de expressão. Fora isso, o que a poesia diz, o que a obra de arte diz, cala muito fundo nas pessoas e tem um poder transformador muito maior do que a arte de massa que é em geral uma diluição, onde tudo é uma redundância muito grande, uma falsificação como as novelas. É interessante se divertir mas as questões são escamoteadas e falsificadas, num mundo do faz de conta. Um livro do Drummond, você lê mas não joga fora. Você guarda pois ali na sua leitura há coisas que dizem respeito a você, a sua vida, a uma coisa mais profunda, que te ajudaram a ver o mundo de maneira diferente. Mas um best seller, você joga fora, você lê e acabou, não tem nada, foi só para passar o tempo. Em muitos países se fazem tiragens desses livros no período de férias para as pessoas lerem e depois jogarem fora. Não tem nada a ver com Stendhal, nem com Valerie, com Mallarmé.

    Você acha que há uma “preguiça intelectual” no país?

    É muito difícil definir coisas de maneira tão vasta. No Brasil existem pessoas que são altamente ativas na discussão dos problemas, pensando, discutindo em institutos de pesquisa, nas universidades. A maioria das pessoas não está nisso. Mas não é só no Brasil é, em tudo quanto é canto. O mundo não é constituído por pessoas iguais, elas são iguais em direitos e não em qualidade. Nem todo mundo é um Oscar Niemeyer, um Manoel Bandeira, um Bethoven e é até bom não ter Bethovens demais (risos). É assim mesmo, as pessoas não estão a fim de ficar se perturbando com os problemas.

    Gosta de pintar, segue algum estilo?

    Não, é apenas para me ocupar, não tenho preocupação. Faço pelo prazer de fazer, me entretenho com isso. Às vezes passo meses sem pintar e às vezes passo meses pintando ou desenhando. Sou um pintor de domingo, como se dizia antigamente. Não acho que tenha valor artístico, faço para mim. Tem gente que gosta, eu dou de presente para os amigos. Num aniversário ao invés de comprar um troço igual que tem em todas as lojas, eu levo uma coisa que não tem em loja nenhuma.

    Como foi sua experiência no Partido Comunista Brasileiro?

    Eu me filiei ao PCB no dia do golpe de 64. Eu queria participar da resistência a um regime que se empunha ao país pela força, destituindo um presidente eleito. Não podia concordar com isso, nem eu nem muita gente. No dia seguinte ao golpe nos unimos e começamos a brigar contra ele, para acabar com ele. Eu pertencia ao CPC da UNE e criamos um teatro com peças e shows contra o regime, mobilizando a intelectualidade. O teatro Opinião, em Copacabana, virou o centro de resistência da intelectualidade contra o regime. Até que chegou um ponto, no final de 1970, em que eu fui identificado pela ditadura como membro da direção estadual do PCB e me aconselharam a sair do país pois corria o risco de ser assassinado, de ser torturado até a morte. Fui então para o exílio, onde permaneci quase sete anos.

    Como viu a resistência ao regime militar?

    O esquerdismo, a chamada doença infantil do comunismo, era o maior aliado da direita que está sempre na função de pôr abaixo um governo de esquerda. E os companheiros de esquerda resolveram fazer aquilo que a direita precisava como argumento para dar o golpe.Veja no Chile: Allende procurava se manter, dizia que tinha sido eleito pelo povo. Tinha que fazer as mudanças dentro da legalidade e não com a pressa que foi. Ele fez uma reforma do ensino que acabou com a religião, num país cujo partido mais importante era o democrata-cristão. Aqui no Brasil foi a mesma coisa. Tem gente que queria tocar fogo no Teatro Municipal que é um patrimônio da cultura brasileira. Era uma porção de idiotices, gente babaca. Alguns que fizeram essas merdas são considerados heróis e o PCB como bundão, que não tinha coragem de fazer as coisas. Os que inventaram a luta armada eram meia dúzia de cretinos que não sabiam atirar com atiradeira. Gente que nunca tinha pego em arma, lutando contra umas forças armadas aparelhadas, com 350 mil soldados. E ainda seqüestraram embaixador, o que provocou o fechamento de teatros, a prisão de artistas, para depois irem para o exterior. Estava claro que isso não ia dar certo.

    Como analisa a derrocada do comunismo no mundo?

    Eu acho que foi uma experiência importante que mudou a história da civilização e que fracassou, não chegou aos seus objetivos finais. O que não significa que o capitalismo se tornou bom agora. O ideal socialista vai ficar como ideal mas não tem mais a capacidade mobilizadora, incendiária das imaginações que envolveram muitas gerações desde meados do século XIX. Não existe mais imaginar que você vai pregar a revolução socialista no mundo e mobilizar a juventude como aconteceu antes. Não é por aí! Tem que arrumar outra forma de lutar. O capitalismo é um regime injusto, desigual, criador de concentração de renda mas que tem uma porção de coisas positivas, é indiscutível negar isso. É um regime altamente criativo, dinâmico mas injusto. Tem que preservar dele o que tem de produtivo e inserir a justiça social também. Não sei se é possível domesticar o capitalismo. A sociedade humana inventou a idéia de justiça, isso não nasceu no mato. Se inventou, é porque quer que isso exista no mundo. Se nós somos injustos e inventamos a justiça apenas queremos a justiça. Nem todos têm a noção disso, nem todos compreendem que isso é urgente. O mundo pós-socialismo não é igual ao mundo pré-socialismo.

    Qual é futuro de Cuba sem Fidel Castro?

    Não tenho a menor idéia, já é difícil com ele. Mas sem ele vai ser muito mais difícil. Se a União Soviética e todo o sistema do socialismo real foram derrocados, uma ilha do tamanho de Cuba nas proximidades da maior potência capitalista do mundo, não tem como sobreviver. Quando havia o mundo socialista, ele garantia a existência de Cuba de várias maneiras, comprando os produtos, armando o país e dando prestígio ao próprio Fidel. Agora a situação é bastante difícil do ponto de vista econômico, político, geopolítico.

    Gostou de ter sido indicado por intelectuais brasileiros, portugueses e americanos ao Prêmio Nobel de Literatura?

    Foi uma coisa gratificante ser indicado para um prêmio tão significativo, eu nunca sonhei com isso. Tanto que, quando esses amigos levantaram essa questão, eu pedi a eles que não fizessem, que desistissem, mas não adiantou. Isso mostra a importância que essas pessoas atribuem ao meu trabalho, a minha obra de poeta. A indicação prestigiou o meu trabalho diante da opinião pública.

    Está gostando do governo Lula?

    Eu acho que ele está numa situação bastante difícil, pois ele passou vinte anos dizendo coisas que não eram possíveis de serem feitas. Na hora que ele assume o governo ele tem que fazer aquilo que não pode fazer. É melhor que ele esteja nessa posição do que se tivesse posto em prática as coisas que propunha antes, que eram inviáveis. Uma coisa é ser justa do ponto de vista do que as pessoas merecem e outra é ser viável no momento. É claro que o salário mínimo de R$ 260,00 é ridículo mas tem que se compreender que não se pode agravar o déficit da Previdência Social senão daqui a pouco nem o cara que está recebendo uma minguada aposentadoria vai receber nada. Tem que pensar nas coisas. Esta é a diferença entre ser pedra e ser vidraça. O Lula bem que gostaria de dobrar o salário mínimo mas não pode fazer isso senão pode criar uma crise grave. Ele não é louco, a não ser que queira jogar o governo dele no fogo. Eu espero que ele vença as dificuldades pois o Brasil não pode entrar numa crise grave pois a situação das pessoas assalariadas pode sofrer uma piora inacreditável. Não é o dono do banco que paga a crise, não é o dono da indústria, eles sempre têm reservas, se viram. Mas e aquele que está quase com fome? Como é que fica se entra numa crise como entrou a Argentina, com povo tentando incendiar até o Congresso Nacional? Isso é uma tragédia. Felizmente o Brasil, como dizia Gabriel Garcia Márquez, é um grande sensato país, que tem um mínimo de sensatez, apesar da violência, da corrupção. O grande problema é desbordar das normas constitucionais, caindo numa aventura imprevisível. A ditadura, como a gente viu, não conduz a nada de bom, conduz à censura à imprensa, à posse do aparelho do Estado para os apaniguados dos chefes do governo. Agora existe corrupção, mas pelo menos se sabe. Durante a ditadura houve muita corrupção mas ninguém podia abrir a boca. Então, qualquer coisa que ameace o regime democrático é altamente negativo. 

    O que mais admira no Brasil?

    O povo com sua riqueza, a sua capacidade de enfrentar as dificuldades. O verdadeiro herói nacional é o povo brasileiro. Cada um em cada momento, enfrentando as dificuldades mais terríveis, tendo suas casas destruídas por enchentes. Gente que morre nessas tragédias que no fundo são conseqüência da miséria e da pobreza. E apesar de tudo tem alegria, é criativo.

    O que mais abomina?

    A hipocrisia nacional, o país em que todo mundo é de esquerda, moderno, avançado.

    Julho de 2004

    Entrevista concedida a Ricardo Rabelo


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