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  • Joel Nascimento: "Chorão, mas não preso ao estilo"

    Da Redação em 23 de Agosto de 2016

    Nascido em 1937, carioca da Vila da Penha, Joel Nascimento é o maior bandolinista vivo da atualidade no Brasil. A vocação pela música começou aos 10 anos através do cavaquinho e posteriormente do piano. Aos 22 anos, em decorrência de problemas auditivos, abandonou os instrumentos e foi trabalhar como radiologista da polícia. No ano de 1968 retornou à música já tocando bandolim em rodas antológicas com a nata do choro.  

    Com 19 discos gravados e tendo tocado com Paco de Lucia, John McLaughin, Raphael Rabello e Artur Moreira Lima, Joel falou com exclusividade ao Bafafá. O artista conta os primórdios da carreira, a vocação pela música e sua evolução profissional e não se incomoda em abordar a surdez: “Sou surdo dos dois ouvidos, se eu tirar os aparelhos eu não escuto nada”. Questionado se é apenas um músico de choro, ele reage: “Sou um chorão, mas acima de tudo um músico. Tem chorão que é radical, não escuta outra música. Eu não fiquei preso ao estilo”, assegura Joel Nascimento. E faz um apelo: “Meu sonho é publicar minha biografia que está pronta, mas precisa de patrocinador”. Está dado o recado do mestre!

    Como foram a sua infância e juventude?

    Nasci na Penha, tive uma infância normal ao lado do meu pais e meu irmão Joyr. Naquela época o leite e o pão eram entregues na porta de casa. Meu pai tinha uma oficina mecânica no bairro e aos 10 anos ganhei um cavaquinho. Aos 14 anos iniciei os estudos de piano no curso Dionéia, em Brás de Pina. De tanto treinar, até 10 horas por dia, tive um derrame no punho. Com quatro anos de piano parecia ter 12 do instrumento. Larguei porque tinha um professor “meio barro, meio tijolo” que ficava me alisando, nessa época existia muito preconceito. Ai disse para minha mãe que não voltava mais lá (riso). Depois fui estudar acordeom na academia Mascarenhas.

    Como foi perder a audição?

    Foi aos 22 anos. Perdi a audição do ouvido direito por uma doença hereditária. Foi quando resolvi parar com a música e fazer o curso de radiologia. Neste período casei com a mulher que está comigo até hoje. Sou surdo dos dois ouvidos, se eu tirar os aparelhos eu não escuto nada. Com eles consigo tocar, mas é difícil.

    Quando descobriu a vocação pela música?

    Meu despertar para a música veio aos 10 anos, através do filme A Noite Sonhamos que mostrava a vida de Chopin. Fiquei alucinado com o piano, as polonaises e os noturnos que faziam a trilha sonora do filme. Pedi a meus pais para estudar piano que passou a ser o meu instrumento predileto. Tocava cavaquinho às vezes no Sovaco, mas o instrumento ficava mesmo guardado e com a corda enferrujada. Um dia toquei para Dr. Oraci, amigo do Jacob do Bandolim, e ele ficou maravilhado me convidando para uma roda de choro com bambas como César Farias, pai do Paulinho da Viola, Dino, Jorginho e outras feras. E ainda me deu um bandolim instrumento que toco até hoje. Não demorou para eu estar gravando com João Nogueira que ficou encantado com meu estilo. Tive a honra de tocar e gravar com a nata do choro.

    Conta como era o Sovaco de Cobra, quando começou a frequentar?

    Começou no final dos anos 60 no Bar Santa Terezinha na Penha. Eu aparecia lá com cavaquinho e meu irmão com violão e juntava outros músicos para tocar choro. Foi ficando famoso quando gravei com João Nogueira e as músicas tocavam no rádio. O lugar foi o último grande reduto do choro no Rio de Janeiro.

    Conta a história da “Suíte Retratos” do Radamés!

    Eu fui o primeiro bandolinista, após Jacob, a tocar a peça resultante de um pedido meu feito a Radamés, em 1973, da partitura original. Neste mesmo ano toquei com o maestro ao piano que ficou agradecido e admirado com a minha performance dizendo que eu tocava colorido e os outros em preto e branco. Mais tarde, em 1979, eu pedi ao mestre para transcrever a parte de orquestra para o conjunto de choro que resultou numa forma camerística jamais concebida a este grupo instrumental. O chorão não apreciava a obra devido ter orquestra de cordas. Só passou a admirá-la após a minha gravação da transcrição. Radamés dizia que eu ressuscitei a obra devido ter ficado no anonimato até a minha intervenção.
     Me orgulho muito desta trajetória que me levou a ter uma relação divina com Radamés. O mestre me dedicou um concerto para bandolim e orquestra, um trio para dois violões e bandolim, a nova versão de Retratos e mais alguns arranjos feitos para mim. Devo dizer que tenho em mãos um depoimento gravado pela viúva do mestre sobre estes acontecimentos. Este grupo formado por mim para tocar a transcrição de Retratos mais tarde ganhou o nome de Camerata Carioca. Todo mundo já gravou essa música: Rafael Rabello Yamandú Costa.  

    Qual é a história do bandolim na música brasileira?

    Foi inventado no século XVII na Itália numa região de Nápoles de grande influência árabe sendo um instrumento semelhante ao alaúde. Mozart, Beethoven e Stravinsky escreveram para bandolim. O instrumento apareceu no Brasil pouco antes do século XIX por Lupércio Miranda e posteriormente Jacob do Bandolim nos anos 30. Este último é o cara que se tornou referência para todos os bandolinistas ao criar a escola brasileira de bandolim e seu estilo de tocar.

    Qual é teu estilo, 100% choro?

    Sou um chorão, mas acima de tudo um músico. Tem chorão que é radical, não escuta outra música. Eu não fiquei preso ao estilo.

    Por que o choro não ficou conhecido no exterior?

    Hoje é conhecido em vários países com Itália, França e Portugal onde tem inclusive rodas. O americano não aprecia muito o choro porque tem uma batida de samba que por sua vez não venceu na Europa. O Brasil não tem uma cantora de renome mundial com exceção de Carmem Miranda que era mais um show.

    Quem bebeu mais um do outro: o samba do choro ou choro do samba?

    Primeiro vem o choro. É clássico, está muito na frente. A batida do samba ficou mais evidente com o pandeiro, apesar de Jacob do Bandolim ter gravado com o pandeiro quase inaudível.

    E o banjo?

    Ele entrou através do samba. É um instrumento alto para caramba (riso). Na verdade, ele faz o papel do cavaquinho.

    Por que a bossa nova estagnou?

    A bossa nova é mais trabalhada, tinha um lado de “society”. Mas, não tinha maconha, cocaína (riso). Cansei de ir à casa da Nara para tocar. A bossa nova não era samba de terreiro, era samba fechado. Sou da opinião de que a maior evolução do samba foi a bossa nova. Eu adoro bossa nova enquanto chorão em geral odeia (riso). Para mim os dois mestres da música popular brasileira são Pixinguinha e Tom Jobim.

    Como está vendo a atual safra musical no Brasil?

    O músico não tem trabalho. Para viver de música passa fome, vai tocar na Lapa por 10 reais.

    Você vive da música?

    Eu me aposentei como polícia e tenho uma aposentadoria boa que dá para me manter com a esposa. Fui oito vezes ao Japão, participei de festivais na França, Suíça, até na Córsega onde toquei com Paco de Lúcia e Rafael Rabello.

    Algum destaque na MPB?

    Não compro discos, mas também não acompanho. Não sei dizer.  

    Tem alguma utopia?

    Meu sonho é fazer minha biografia. Estava arranjando patrocínio da Petrobras, mas com a crise não vingou. Está prontinha para publicar. Você conhece alguém no SESC? Preciso de patrocínio em troca de shows!

    Agosto 2016. 
    Entrevista concedida ao editor do Bafafá Ricardo Rabelo com participação de Licínio Machado Rogério.





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