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  • Ruy Garcia Marques, reitor da UERJ: "Vamos sair dessa"

    Da Redação em 09 de Março de 2017    Informar erro
    Os números da UERJ são impressionantes. A instituição, fundada em 1950, congrega cerca de 50 mil pessoas nos diversos campus no estado e na unidade principal no Maracanã. São 32 cursos de graduação que se desdobram em diferentes habilitações, licenciaturas e bacharelados. Apontada como a 5ª maior universidade do país e a 11ª da América Latina, ela atravessa a pior crise de sua história: salários, serviços terceirizados e até bolsas não estão sendo pagos por falta de repasses do Estado. Por conta das dificuldades, o ano letivo sequer começou.

    Em entrevista exclusiva ao Bafafá, o reitor da UERJ Ruy Garcia Marques faz uma radiografia da situação da universidade. Ele explica que apenas para manutenção precisa de R$ 90 milhões por ano e que em 2016 recebeu apenas R$ 15 milhões. “A minha utopia é regularizar o custeio e fazer investimentos”, segreda o professor e médico. E pede paciência: “Eu diria para os alunos que nem começaram que não percam o ânimo e a oportunidade de estudar numa excelente universidade. Que tenham paciência, nós vamos sair dessa”.

    Qual é a real situação da UERJ? 

    A UERJ está vivendo a maior crise em 66 anos de história. Isso devido à dificuldade do governo do Estado e do próprio país. Desde final de 2014 começamos a sentir uma diminuição do financiamento da educação superior e das verbas para pesquisas. Não temos recebido os recursos para a manutenção. Preciso de pelo menos R$ 90 milhões anuais, o equivalente a R$ 7,5 milhões mensais, para pagamento das empresas terceirizadas. Em todo o ano de 2016 eu recebi apenas R$ 15 milhões.

    Qual é orçamento da instituição?

    O orçamento da UERJ é em torno de R$ 1 bilhão por ano. Os recursos vêm do tesouro estadual e dos nossos próprios meios oriundos de serviços de tecnologia de ponta, como exames de DNA. Todos os exames de DNA forense são realizados aqui. Hoje, apenas 5% do nosso orçamento vêm desta fonte. Se conseguíssemos dobrar isso seria ótimo. Outra possibilidade de recursos é por meio de incrementos de convênios nacionais e internacionais.

    O certo seria receber os repasses dos cofres do Estado sem atraso?

    Sim, precisa receber seu orçamento em 12 parcelas sem atraso. Estamos preparando um processo para exigir na justiça que sejam repassados os recursos nesta condição. Eu não pago nada, eu emito uma programação de desembolso (PD) e o estado paga.

    Tem alguma perspectiva de entrada de recursos?

    O secretário de Ciência e Tecnologia, Paulo Duque, que gere a UERJ, me informou que já conversou com os fornecedores e eles aceitaram renegociar os contratos. E que no prazo de uma semana (até 15/03) as empresas estariam de volta à UERJ. No dia 17/03, em nova reunião do Fórum, iremos decidir sobre o retorno às aulas. No entanto, é indispensável o pagamento dos cotistas bolsistas, mais do que até o próprio salário.

    A UERJ corre algum risco de fechar? 

    Eu usei essa expressão numa entrevista anterior no sentido figurado. É impossível que o Estado permita o fechamento da 5ª maior universidade do país e a 11ª da América Latina. Não acredito em fechamento.

    Existe alguma possibilidade de "federalização"?

    Também não acredito. Se olharmos as universidades federais veremos que elas também estão em crise. O governador Pezão garantiu que não existe nenhum estudo visando a federalização da UERJ.

    Como a reitoria está agindo para contornar os problemas?

    Temos tido reuniões com o governador para encontrar soluções. A interlocução sempre existiu, por meio do secretário, ou diretamente.

    E o corpo docente e os servidores, como estão sobrevivendo?

    Eles perderam até a capacidade de pedir empréstimos bancários. Temos gente que está com o aluguel e até uma simples conta de luz atrasados. Falando em luz, nós só estamos com luz na UERJ por uma liminar da justiça, senão a Light já teria cortado.

    Quando começam as aulas?

    Nós havíamos programado para iniciar no dia 17 de janeiro. Em função dos atrasos no pagamento das empresas que prestam serviços à Universidade tivemos que adiar. Não podemos abrir sem o restaurante universitário, sem manutenção dos elevadores e outros serviços como limpeza e segurança. As empresas terceirizadas diminuíram o pessoal o que dificulta voltar a funcionar normalmente. Temos ainda atrasos significativos no pagamento de salários de professores e servidores que não receberam integralmente o mês de janeiro. Para o salário de fevereiro ainda não tem nem calendário. Nem se fala mais no 13º de 2016. Cerca de 7.500 alunos cotistas que dependem de bolsas de R$ 400 para vir estudar também estão sem receber. Nós temos que recompor essa infraestrutura básica para pelo menos pagar a bolsa dos alunos cotistas e assim retornar às aulas. Temos realizado reuniões semanais do Fórum de Diretores de Unidades, que inclui o Campus no Maracanã e mais 13 unidades da UERJ. Avaliamos conjuntamente a situação do complexo para decidir quando voltar. Para isso, temos que ser responsáveis e ter condições mínimas de trabalho.

    E as pesquisas como estão?

    A Fundação de Amparo à Pesquisa não perdeu a capacidade de financiamento de pesquisas. Os nossos pesquisadores continuam tendo projetos aprovados apesar do dinheiro não cair na conta.  

    Fale sobre os números da UERJ

    A universidade tem crescido muito. Temos 28 mil alunos presenciais, 7 mil alunos de ensino a distância, 4.500 em pós-graduação mestrado e doutorado, 2.000 em pós-graduação lato sensus, 2.600 professores e 5.800 técnicos administrativos. E somos a universidade que mais tem projetos de extensão em todo o país. Se somar tudo é uma comunidade de 50 mil pessoas, maior que a maioria dos municípios do Estado do Rio de Janeiro.

    E as matrículas dos alunos? Tudo certo? 

    Está sendo feita normalmente até o final de março para quem passou no vestibular de 2016. Para os alunos concluintes estamos emitindo também os diplomas. Na verdade, a única atividade que não estamos realizando é a acadêmica. Estamos funcionando administrativamente. É importante manter a universidade viva.

    Qual mensagem que o senhor teria para os docentes, estudantes e a sociedade do Rio de Janeiro?

    Sou um apaixonado pela UERJ. Devo a ela toda a minha formação, entrei aqui com 18 anos no curso de medicina, me tornei médico do hospital Pedro Ernesto, depois professor de cirurgia geral e cheguei ao posto máximo da universidade que é a reitoria. Fico triste de chegar num momento tão difícil para o estado do Rio de Janeiro. Eu não tenho dúvida da grande universidade que é a UERJ. Temos dois ministros do STF que dão aula semanalmente. Eu diria para os alunos que nem começaram que não percam o ânimo e a oportunidade de estudar numa excelente universidade. Que tenham paciência, nós vamos sair dessa. Sou uma pessoa otimista e tenho certeza que isso vai passar.

    O senhor tem alguma utopia?

    A minha utopia é regularizar o custeio e fazer investimentos. Eu digo que a universidade no fundo não é gratuita, é financiada pelo povo do estado do Rio de Janeiro. Não é trivial nem barato manter uma universidade de excelência como a UERJ.

    Entrevista concedida ao editor do Bafafá, Ricardo Rabelo.
    Março 2017


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