MAIS COISAS >> Entrevistas

  • Silvio Tendler: “O capitalismo sequestrou as democracias”

    Da Redação em 25 de Outubro de 2017    Informar erro
    O cineasta Silvio Tendler é o mais respeitado documentarista do Brasil. Conhecido como "o cineasta dos vencidos" ou "o cineasta dos sonhos interrompidos" por seus filmes abordarem personalidades como Jango, JK e Carlos Marighella, produziu e dirigiu mais de 70 filmes, entre curtas, médias e longa-metragens.
     
    Professor da cadeira Cinema e História da PUC Rio, está lançando seu novo trabalho, o longa intitulado “Dedo na Ferida”, que acaba de ganhar o prêmio de melhor filme pelo júri popular no Festival do Rio. Fruto de parceria com o Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro e a Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros, o documentário mostra a influência do capital na política e a força do sistema financeiro na economia. Entre os depoimentos, Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia; Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil; Paulo Nogueira Batista Jr, vice-presidente do banco dos Brics e o cineasta franco-grego Constantin Costa-Gavras.
     
    Em entrevista exclusiva ao Bafafá, Silvio Tendler faz uma radiografia da conjuntura econômica e política internacional e detona a força do capitalismo. “Acho que vamos conseguir derrotar toda essa escalada da direita do poder”, fuzila o cineasta. Para ele, o mundo passa por ciclos que se alternam. “Não podemos ser catastrofistas. Estamos juntando os caquinhos e criando antídotos a esse mundo perverso”, garante. Sobre utopias, desabafa: “Você constrói uma utopia que gera uma barbárie que gera uma nova utopia. E assim caminha a humanidade”.
     
    As democracias sucumbiram ao capitalismo?
    Sim, o capitalismo sequestrou as democracias. Esse processo iniciado pelo Reagan e a Thatcher com a globalização sórdida que eles promoveram quebrou no mundo inteiro o estado de bem estar social. Privatizaram, sobretudo na Inglaterra, os sistemas públicos e espraiaram isso pelo mundo. O conservadorismo venceu na Europa através da troika e impuseram isso também aos países periféricos de políticas econômicas centralizadoras. Com isso, o mundo virou essa tragédia que nós estamos vendo.
     
    Hoje, o neoliberalismo voltou com toda força?
    Eu acho que agora é pior. Se bobear nós vamos ficar com saudades do neoliberalismo (riso). Está havendo uma expansão da direita brava. Esses dias, a extrema direita ganhou a eleição na Áustria e teve uma baita performance na Alemanha. E o que a gente está vivendo no Brasil não é diferente. Estamos vivendo um momento muito complicado no mundo.
     
    Como você explica esse fenômeno?
    A história é dialética. Ela é tese, antítese e síntese. Nós estamos num momento de antítese agora. Nos anos 90 a esquerda foi derrotada com o final do bloco soviético e ascendeu a globalização que não conseguiu atender as demandas do mundo. Nos anos 2000, a esquerda ganhou força e agora nos anos 10 a direita ocupa espaço novamente. No entanto, não podemos baixar a guarda e devemos continuar lutando.
     
    O mercado vai ditar os processos democráticos no mundo?
    A gente está lutando para que não. Como disse o jovem e brilhante economista da Unicamp, Guilherme Melo, o jogo ainda não está jogado. Pode ser que a gente perca, mas pode ser que ganhe. Só não podemos contar com a falta de habilidade deles, mas sim com a nossa habilidade. Precisamos derrotar esse “catastrofismo” que está se expondo na economia e no sistema político. A vantagem da esquerda é ter em mãos o movimento popular. Vai depender muito das pessoas acordarem e da juventude participar disso.
     
    A acumulação de riquezas não tem fim?
    Durante muito tempo aceitamos a balela do discurso da diminuição do Estado e agora enfrentamos a consequência disso. Está na hora da gente se reorganizar para defender uma administração pública coerente e condizente com as necessidades das nações.
     
    A esquerda consegue se reerguer?
    Não podemos ser catastrofistas. Estamos juntando os caquinhos e criando antídotos a esse mundo perverso e “globalitário”. Acredito que vamos conseguir derrotar toda essa escalada da direita do poder. É até bom que a direita ocupe seus espaços para que a sociedade perceba com eles são muito piores do que a esquerda. Quem apoiou o impeachment da presidente Dilma hoje está podendo observar de camarote a burrada que fez (riso). O Aécio que era uma promessa da renovação política se entregou a esse jogo de uma forma muito triste e voraz. Inclusive, rompeu uma tradição dos derrotados em eleições ligarem para os vencedores parabenizando-os pela vitória. Ao contrário, foi o primeiro a acusar o partido de Dilma de ser uma organização criminosa. Ele está vendo agora o preço que essa ruptura representa para ele.
     
    Qual foi o objetivo principal do seu filme “Dedo na Ferida”?
    Foi botar o dedo na ferida (riso). Falar da questão do domínio do sistema financeiro na economia global. Eu mostrei o problema do Brasil que tem o maior endividamento com os bancos no mundo que chega a 45% do PIB. Nenhum outro país no mundo tem um PIB empenhado para pagar a dívida com o sistema financeiro. Foi muito prazeroso realizar as entrevistas do filme já que elas permitiram conviver com gente que pensa e discute as mazelas do mundo. E revelou o quanto estamos comprometidos com o sistema financeiro. O Costa Gavras riu quando falei que queria entrevistá-lo sobre economia. Ele é um cara muito antenado, que já fez dois filmes sobre a questão financeira. É nascido na Grécia, conhece a questão grega. É uma pessoa da velha guarda que tem uma cabeça humanista muito interessante.
     
    E ganhar o Festival do Rio no júri popular? Feliz?
    É como disse Glauber Rocha no “Deus e o Diabo na Terra do Sol”: Mais fortes são os poderes do povo (riso). Foi escolhido pelo público que pagou para ver os filmes do festival. E, sobretudo, rompeu com o preconceito de que o público não gosta desse tipo de cinema. Entre tantos filmes abrangentes e de qualidade. Prova que o documentário tem lugar no cinema e que cinema política tem o seu lugar.
     
    E como está vendo o governo Temer?
    Vou divergir um pouco dos companheiros de esquerda. Em política ele é campeão. Não perdeu ainda nenhuma disputa (riso). Mesmo com 3% de aprovação popular, ele está conseguindo driblar tudo e se manter no poder. Mas, em política não existe gesto definitivo e último. Dá para reverter essas medidas que ele adotou. O PMDB nunca chegou ao poder pelo voto, sempre pega carona com outros partidos. Deu um golpe na Dilma e agora está pagando o preço desse desastre de governo.
     
    Acha que Moro vai tirar o Lula do páreo?
    Isso é um enigma. Se a democracia realmente ficar ameaçada com a saída do Lula do páreo, o judiciário não vai ter coragem de referendar isso. A Lava Jato reabilitou a figura do Lula.
     
    Você acha que as utopias morreram?
    Nunca. A utopia é uma coisa que nasce para não ser realizada (riso). Na minha opinião ela vem conjugada com a barbárie. Elas se alternam. Você constrói uma utopia que gera uma barbárie que gera uma nova utopia. E assim caminha a humanidade.
     
    Tem algum agradecimento para seu novo filme?
    Quero fazer um agradecimento especial às parcerias que fizemos. Principalmente ao sindicato dos engenheiros – SENGE – que topou investir no filme. É um sindicato antenado com a atualidade e que sempre produz cultura, seminários, debates. É a sociedade civil assumindo um papel histórico de produzir bens culturais e reflexões. Eu agradeço muito a ele e a sua diretoria. Não posso deixar de sinalizar o canal Curta que também ajudou em mídia para o lançamento do filme. Essas parcerias são fundamentais e necessárias.
     
    Entrevista concedida ao editor do Bafafá, Ricardo Rabelo. 
    Outubro de 2017
     

    ATENÇÃO
    Não somos responsáveis por alterações na programação.
    Recomendamos que confirmem os eventos através dos links ou telefones divulgados.
    Apenas organizamos e compartilhamos a informação.




    • COMENTE AQUI

      O QUE ANDAM FALANDO DISSO:


      • Comentário do post MARIA MEIRELES:
        Muito bom


CURTA O BAFAFÁ!

DIVULGAÇÃO










#AGENDABAFAFA