As bailarinas Laura Samy e Alice Poppe encontram-se novamente no espetáculo Cravo, híbrido de dança e cinema, partindo de influências que vão da fotografia a clássicos da sétima arte.
Cravo foi originalmente pensado para ser filmado (e não executado e documentado, como de praxe), beneficiando-se conscientemente de recursos cinematográficos como o uso do corte, do foco, dos planos e quadros.
A proposta une a trilha sonora do pianista Sacha Amback à iluminação de Paulo César Medeiros, alinhadas à direção de fotografia de Fabrício Mota. O filme tem direção do cineasta Cavi Borges.
A pesquisa de movimento e a sua relação com o espaço dão as tônica nas trajetórias dessas duas artistas. Algo construído em experimentações cujos resultados contaram com o olhar de grandes nomes, como Angel Vianna (com quem Poppe trabalhou anos a fio), João Saldanha (com quem ambas trabalharam) e, no caso de Samy, o diretor teatral Enrique Diaz.
Cada novo trabalho parte de uma premissa aberta também a outras linguagens artísticas. O cinema, por exemplo. Cravo tem na sua gênese influências e sugestões oriundas de clássicos da sétima arte, assim como dos diretores que lhe deram vida.
Alguns exemplos são “Martha”(1973), do alemão Fassbinder (1945-1982) e “Repulsa ao sexo” (1965), de Roman Polanski, entre outros. Uma inspiração ligada ao cinema, mas que abarca também a fotografia, é a do norte-americano Man Ray (1890-1976), que revolucionou a relação da câmera com o objeto retratado.
Outra referência a se considerar é a do dramaturgo irlandês Samuel Becket (1906-1989), cuja peça “Dias felizes” também pautou a proposta do espetáculo.
Elencadas as referências, é hora de dar vida às propostas surgidas a partir delas. Os ensaios têm início, e Cravo começa a ganhar forma. O roteiro é dividido em oito movimentos – ou quadros.
O primeiro é o prólogo, seguido pelas demais cenas, uma vez que o resultado é uma obra audiovisual. Quatro deles são recorrentes. São os refrões, como denominados pelas artistas. No caso deles, outra referência faz-se presente: a da ópera. À trilha musical insere-se a “Cavalgada das Valquírias”, como ficou conhecido o tema que fecha o segundo ato e abre o terceiro da ópera “Die Valkure”, de Wagner.
Nesses refrões, as bailarinas seguem um determinado trajeto, vindo do fundo ao proscênio, ao mesmo tempo em que executam movimentos marcados, não se repetindo nos demais refrões. As demais cenas são compostas por solos e duos.
No caso desses últimos, o público tem diante dos olhos quadros nos quais os gestos conversam, provocando também contradições entre eles. Com a entrada da trilha e da iluminação, o resultado é algo vívido e visceral.
Da década de 1990 para cá, ganhou força o conceito de teatro-dança, impulsionado por propostas como as trazidas pela coreógrafa alemã Pina Bausch (1940-2009). A relação público-plateia mudou, e as regras sanitárias vigentes podem fomentar a consolidação de um cinema-dança.
O fato é que a criatividade continua sendo a mola propulsora para o fazer artístico. É cedo para apontar um conceito no qual a dança estará inserida. Uma coisa é certa: os bailarinos vão continuar a dançar, criar e propor suas idéias. E isso vale para Laura Samy e Alice Poppe. A junção desses dois talentos só pode resultar em algo instigante.
Criação, direção e interpretação: Alice Poppe e Laura Samy
Direção de vídeo: Cavi Borges
Direção de Fotografia: Fabrício Mota
Direção musical: Sacha Amback
Iluminação: Paulo César Medeiros
Fotografia e programação visual: Renato Mangolin
Duração: 30 minutos
Classificação etária: 14 anos