Espetáculo de dança contemporânea estreia dia 8 de outubro no Sesc Copacabana e transforma mobilidade urbana, desigualdade e acessibilidade em movimento. Todas as apresentações terão Libras e audiodescrição
Quais corpos enfrentam mais obstáculos para circular pela cidade? E para quem, afinal, os espaços urbanos são pensados? Essas questões saem das ruas e chegam ao palco em “Paragem”, espetáculo inédito de dança contemporânea idealizado por Júlia Fernandez e Luna Leal, que estreia nesta quinta-feira, 8 de outubro, no Multiuso do Sesc Copacabana.
Em temporada até 18 de outubro, a montagem transforma o cotidiano dos deslocamentos urbanos em matéria coreográfica, aproximando dança, cidade e cidadania. A mobilidade aparece não apenas como a possibilidade de ir de um ponto a outro, mas como um direito diretamente relacionado ao acesso ao trabalho, à educação, à saúde, à cultura e ao lazer.
Ao longo de sete cenas, experiências comuns à rotina das cidades — caminhar, esperar, embarcar, atravessar e chegar — ajudam a construir uma narrativa sobre longos deslocamentos, barreiras físicas e sociais e desigualdades no acesso aos diferentes territórios.
“Paragem” é um desdobramento do projeto Central Deriva, concebido originalmente para realizar apresentações em plataformas de trem do estado do Rio de Janeiro. A experiência nos transportes públicos, os passageiros, os sons e os estados de espera e suspensão observados nesses espaços serviram como matéria para a criação das cenas e coreografias.
“Queremos recriar os estados, remontando histórias cotidianas que deslizam entre memória e esquecimento. A proposta é enfatizar os estados de suspensão no meio da correria do dia a dia, aquele devaneio que surpreende e te pega no meio da passagem”, explica Júlia Fernandez.
Segundo a artista, a pesquisa procura se aproximar das performances cotidianas para evidenciar a dança que já acontece nos deslocamentos. “A dança contemporânea funciona como intermediária da expressão, comunicando ao espectador sem necessariamente a urgência de uma fala.”
Para Luna Leal, o espetáculo também propõe um olhar sobre as diferentes maneiras como os corpos experimentam a cidade.
“Espero que ‘Paragem’ chegue ao público como uma experiência de encontro e reconhecimento. A cidade é atravessada por todos nós, mas cada corpo experimenta seus deslocamentos de uma maneira diferente. O espetáculo nasce desse olhar para os corpos que circulam, esperam, atravessam, disputam espaço e, por vezes, precisam parar.”
A montagem coloca em discussão ainda como as desigualdades sociais interferem na circulação pela cidade, no tempo gasto nos deslocamentos e nas barreiras enfrentadas por diferentes pessoas.
“Tudo o que foi experimentado e construído para ‘Central Deriva’ agora ganha outros contornos, aberturas e caminhos. São novas formas de ver o mesmo. Desejo que o espectador seja atravessado pelas questões levantadas, que acesse memórias, texturas, cheiros e sonhos. ‘Paragem’ é um convite para sonhar”, completa Luna.
Acessibilidade dentro e fora do palco
Todas as apresentações contarão com intérprete de Libras e audiodescrição, além de ações de mobilização e sensibilização voltadas especialmente às pessoas com deficiência.
O projeto prevê também transporte para esse público, buscando enfrentar uma contradição diretamente relacionada ao tema do espetáculo: tornar uma atividade cultural acessível dentro do teatro não resolve o problema se as barreiras para chegar até ela continuam excluindo parte da população.
A formação da equipe acompanha essa proposta, reunindo profissionais diversos, com predominância de mulheres e participação de pessoas com e sem deficiência.
“Paragem” foi contemplado no Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar e tem produção da eLabore.Kom.
Ficha técnica
Realização: Sesc Rio
Idealização: Plataforma Central Deriva
Direção artística, coreografia e bailarinas: Júlia Fernandez e Luna Leal
Cenografia: Sara Fagundes
Figurino: Alice Cruz
Iluminação: Wladimir Alves
Trilha sonora: Lucas Torres
Intérprete de Libras: Árvore Vicente
Classificação indicativa: 14 anos
Acessibilidade: apresentações com Libras e audiodescrição
Bilheteria: terça a sexta, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 13h às 19h.