A exposição composta de 33 retratos de Clarice Lispector, pintados pela artista visual gaúcha Graça Craidy reverencia a escritora e deseja ser um instrumento de popularização da sua obra literária. “Clarice merece ser uma figura pop, pois mantém-se atual e, sobretudo, necessária, porque trata das questões da alma humana”, diz Graça.
A série “Clarices”, de inspiração expressionista, apresenta as várias facetas da autora, daí o nome da exposição no plural. A artista retrata a Clarice jornalista e escritora com a máquina de escrever no colo e o cigarro na boca, a mulher dividida entre o casamento com um diplomata e a vida autônoma, quando vivia no exterior, a mãe de dois filhos, a amiga de toda a vida de suas irmãs Elisa e Tania, a imigrante ucraniana filha de judeus perseguidos, a militante política na Passeata dos Cem Mil, a tutora do cão Ulisses.
“Acho que a exposição cumpre o objetivo de trazer para mais perto das pessoas, em uma galeria pública, aquela que com seus estranhamentos e epifanias é a maior escritora brasileira modernista, traduzida em muitos países. Embora Clarice Lispector tenha partido há mais de 45 anos, sua prosa se faz muito importante neste momento histórico de vazio existencial e da valorização equivocada do aparente e do fútil”, defende Graça, que já expôs na Itália, onde também fez cursos de pintura em Florença e Roma. Como artista ativista - "artivista" -, ela também criou contundentes coleções que denunciam o feminicídio e a violência contra as mulheres.
As obras produzidas pela gaúcha – natural de Ijuí e radicada em Porto Alegre – na exposição no CCC são em acrílica, aquarela e pastel oleoso sobre papel, a maioria no formato 100X70 cm. Para incentivar a leitura dos escritos da homenageada, a montagem abriga alguns livros dispostos em formato de móbile, para que sejam manuseados. Também são exibidos na montagem trechos curtos do romance A Hora da Estrela, com o retrato inventado pela artista da personagem Macabéa, e do conto Mineirinho, com a imagem em releitura do corpo assassinado do criminoso crivado de tiros.
“Clarices” foi mostrada pela primeira vez no Espaço Cultural Correios, em Porto Alegre, entre 29 de outubro e 17 de dezembro passado, com grande aceitação do público. A exposição integrou a programação da 68ª Feira do Livro da Capital. Muitas das milhares de pessoas que apreciaram a mostra fizeram questão de registrar sua emoção no livro de visitas. A professora Cátia Castilho Simon, doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com a tese “Nos labirintos da realidade, um diálogo de Clarice Lispector com Machado de Assis” - publicada e premiada -, escreveu: “Graça, querida, que emoção estar com tantas Clarices em potência máxima. Obrigado por mantê-la viva para nós”.
O sucesso na capital gaúcha provocou o convite do Centro Cultural Correios para a montagem no Rio, cidade a que Clarice chegou aos 14 anos de idade, em 1935, tendo morado em São Cristóvão, Tijuca, Catete, Glória, Botafogo e, mais marcadamente, no Leme, em dois endereços. Ela, que também transitou pelas artes plásticas, faleceu em 9 de dezembro de 1977, aos 57 anos, e foi sepultada no Cemitério Comunal Israelita, no Caju.