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  • A origem curiosa das palavras: Baderna

    Márcio Bueno em 27 de Junho de 2021    Informar erro
    A origem da palavra, que só existe no português do Brasil com esses sentidos, é o nome da bailarina clássica italiana Marietta Baderna, que em 1849 se auto-exilou no Brasil, onde conquistaria uma legião de fanáticos e aguerridos admiradores.
     
    Nascida em 5/7/1828, Marietta era considerada uma das maiores bailarinas da Europa já na adolescência, arrebatando as platéias dos principais teatros da Itália e da Inglaterra.
     
    Na época, seu país estava dividido e uma parte sob a dominação da Áustria. Jovem ainda, era simpática e até contribuía financeiramente para as conspirações patrióticas e pela unificação.
     
    Com a derrota do movimento revolucionário que varreu a Europa em 1848, a chamada "Primavera dos Povos", e para fugir às represálias, ela e o pai, médico e músico que tinha participado das revoltas, se auto-exilam no Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro no começo de agosto de 1849.
     
    Marietta veio com uma companhia lírica para apresentações no Teatro Imperial de São Pedro de Alcântara, situado no local em que depois foi erguido o Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes.
     
    E começa arrasando. Após a primeira apresentação, um crítico do Correio Mercantil não se contém: "Marietta é uma fada (...), um portento, uma deusa, um anjo e ainda estou dizendo pouco. Paremos por aqui."
     
    O entusiasmo cresce. Pouco tempo depois, o mesmo articulista volta ao assunto, chegando a antecipar a criação de vários neologismos baseados no nome da dançarina. 
     
    Depois de vibrarem no teatro toda noite, os jovens, depois conhecidos como baderneiros, esperavam a bailarina à saída para carregá-la em triunfo pelas ruas do Rio em um cortejo de tílburis, sacudindo a cidade.
     
    A adoração cresceu à medida que se descobriu que Marietta, além de exibir um talento excepcional, era uma rebelde, que enfrentava os inescrupulosos empresários do teatro contra as injustiças, defendendo colegas menos consagrados.
     
    Uma transgressora, que, entre outros comportamentos libertários, vivia maritalmente com um artista sem ser casada; e que, além de tudo, passou a alternar a dança clássica com as danças afro-brasileiras, como o batuque e o lundu, com a "desavergonhada" umbigada, que os africanos chamavam de semba, palavra que está possivelmente na origem do termo 'samba'.
     
    Chegava a participar dessas danças na praça da Carioca, com os próprios escravos. Um escândalo para a sociedade escravagista e hipocritamente sexofóbica, como diz seu biógrafo, o jornalista italiano Silvério Corvisieri.
     
    Enfim, tratava-se de uma Leila Diniz com mais de um século de antecedência. À medida que crescia a adoração por essa verdadeira divindade pagã, começou a haver reação dos conservadores, que a viam como um péssimo exemplo para a juventude.
     
    Nas óperas, a dança era deixada para o final, ou então não renovavam seu contrato. Os jovens radicalizavam. Para protestar contra a direção dos teatros, boicotavam os espetáculos, ou faziam a pateada [ato de bater os pés no chão], interrompendo espetáculos no meio e fazendo manifestações ainda mais radicais.
     
    Em meio aos ataques, Marietta e os fãs revoltados eram defendidos por figuras como o escritor José de Alencar e o respeitado poeta e editor Francisco de Paula Brito.
     
    Com as dificuldades que enfrentava e com a verdadeira campanha moralista desencadeada contra ela pelo Jornal do Commercio, Marietta começa a se deixar levar pelo álcool. Passa um tempo desaparecida, em 1863 viaja para a França, apresentando-se no Grand Théatre de Bordeaux, volta e é contratada para a temporada 1864-1865, o seu canto do cisne. 
     
    Pesquisas recentes constataram que Marietta se tornou professora de dança no Rio de Janeiro e morreu em 1892, aos 64 anos de idade. Seu corpo foi enterrado no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, Zona Norte da cidade. Descendentes dela e do maestro Gioachino Giannini, com quem viveu maritalmente, residem na cidade de Curitiba. (MB)
     
    Nos dicionários a palavra é apresentada como bagunça, confusão; bando, corja; ou então grupo de rapazes alegres e barulhentos. 
     
    *Extraído do livro A Origem Curiosas das Palavras, do jornalista Márcio Bueno. Publicado pela editora José Olympio, teve seis edições esgotadas, pode ser encontrado no site Estante Virtual

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      • Comentário do post Marilia Giannini Rydlewski:
        Marietta Baderna foi para a Europa com os filhos em 1861, ficou viúva do seu companheiro o maestro Goacchino Giannini (Joaquim Giannini) em 15 de agosto de 1860. O tempo que Marietta passa desaparecida, estava vivendo maritalmente com o maestro Giannini e tendo filhos, de 1856 a 1860

      • Comentário do post Marilia Giannini Rydlewski:
        Confirmo que Marietta Baderna (Giannini) foi enterrada no cemitério São Francisco Xavier RJ - Cajú

      • Comentário do post Marilia Giannini Rydlewski:
        O livro do Marcio Bueno eu conheço desde 2013. Marcio se tornou um grande amigo da família

      • Comentário do post Marilia Giannini Rydlewski:
        Sou uma das trineta da Baderna "Marietta Baderna"- obrigada por relembra-la, quanto ao livro do Marcio Bueno "A Origem Curiosa das Palavras" tenho desde 2013, muito bom, hoje sou amiga do escritor
        Comentário do post Bafafá:
        Muito legal, confere que ela foi enterrada no Caju?


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