Como Nelson Rodrigues contaria, com suas tintas trágicas, as relações hipócritas e disfuncionais da sociedade carioca cem anos após o seu nascimento?
Esse foi o exercício de Antologia do Remorso, coletânea de contos de Flávia Prosdocimi. Inspiradas em seu universo e baseadas em situações reais, as histórias apresentadas extrapolam os limites da realidade, dando aos personagens contornos hiperbólicos e sublinhando a dramaticidade de relações contemporâneas hipócritas e disfuncionais.
O lançamento do livro será no próximo mês de fevereiro, em pleno clima carnavalesco, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em São Paulo.
O fato do livro ter sido escrito em 2012 e lançado agora tem explicação. Antes de virarem livro, cinco dos doze contos que compõem a antologia foram encenados no ano de 2015, em uma peça homônima que ficou em cartaz por um ano no Sesc Tijuca, bairro da Zona Norte carioca, tão presente na obra de Nelson Rodrigues.
Depois desta transposição teatral, a antologia foi relegada a uma pasta esquecida nos arquivos virtuais da autora. Agora, em 2024, os textos ganharão uma nova montagem em Belo Horizonte, com estreia prevista para o mês de maio.
Mas foi em 2020, em meio à crise sanitária e à quarentena causada pela pandemia de Coronavírus, que Flávia decidiu organizar seus escritos e se deparou com estas já quase esquecidas páginas.
“Foi um reencontro incômodo e perturbador”, diz a autora, que se autoexilou na Itália em 2019. “Os contos presentes nesse livro falam, todos, de opressões. Escritos em uma época na qual o Brasil progredia a passos largos, o tom jocoso de algumas histórias flertava com a certeza de que certos comportamentos estavam fadados a pertencer ao passado. O Brasil, naquele momento, era o país do futuro, da inclusão social, da irreverência, da liberdade”, lembra Flávia.
Porém, ao revisitar a antologia, ela percebeu que os textos continuavam atuais. “As fortes tintas trágicas que sublinhavam seu caráter ficcional, comparadas ao distópico Brasil de 2020/21, com seus personagens obsessivos e caricatos, não pareciam assim tão vibrantes, tão absolutamente inventadas. A transposição para o século XXI do olhar ácido com que Nelson Rodrigues enxergou a sociedade brasileira da metade do século XX acabou se revelando um triste presságio da intolerância que vimos emergir nas ruas e nas redes sociais”, observa a autora.
Como na obra de Nelson Rodrigues, Flávia utilizou fragmentos da realidade, criando finais trágicos (ou tragicômicos) para questões e tabus que, infelizmente, insistem em ser cada dia mais recorrentes. “Espero que este espelho distópico da realidade nos ajude a enxergar nossas falhas e corrigir nossa trajetória em direção a um futuro mais inclusivo e livre de preconceitos. Espero, sinceramente, que ao revisitar estes textos daqui a 10 anos, eu encontre um livro datado, fora de moda, com temas superados e questões absolutamente circunscritas ao passado. Espero, de verdade, que a gente consiga voltar a caminhar com a cabeça erguida, em direção ao futuro”.
Lançamento no Rio de Janeiro dia 07/02.