Encontro gratuito no YouTube reúne autora Mariana Filgueiras e pesquisadoras da UFF para discutir representação na ficção brasileira.
Se as trabalhadoras domésticas ocupam um papel central na vida de milhões de brasileiros desde o século XIX, por que permanecem praticamente invisíveis na literatura nacional? Essa é a questão que orienta o livro “Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea”, da jornalista e pesquisadora Mariana Filgueiras, com lançamento no dia 16 de abril.
Originado de uma tese de doutorado premiada com o Prêmio Capes de Tese 2025, o estudo analisa a presença — ou ausência — dessas personagens na ficção brasileira ao longo de mais de 150 anos. O levantamento identifica 37 trabalhadoras domésticas em contos e romances publicados entre 1859 e 2024 e revela um padrão recorrente: retratos estereotipados, personagens sem nome, frequentemente associadas à violência ou utilizadas como figuras secundárias nas narrativas.
Segundo a autora, a mudança nesse cenário é recente. Apenas a partir de 2015 surgem obras que passam a dar maior densidade a essas personagens, seja como narradoras, seja com participação mais relevante nas tramas. O protagonismo efetivo, no entanto, aparece somente em 2018, com a publicação de obras que colocam trabalhadoras domésticas no centro das histórias.
Mariana Filgueiras associa essa virada a transformações sociais decorrentes de políticas públicas que ampliaram o acesso à educação e à mobilidade social. Com isso, novas vozes passaram a escrever suas próprias histórias, muitas vezes inspiradas em trajetórias familiares.
O livro também analisa romances contemporâneos que representam esse novo momento da literatura brasileira, nos quais as personagens ganham subjetividade, conflitos próprios e maior complexidade narrativa. Ao mesmo tempo, a autora alerta para outro risco: a substituição de estereótipos negativos por representações idealizadas, que igualmente limitam a construção dessas figuras.
O título “Quirinas” faz referência à personagem Mãe Quirina, do conto “Babá” (1904), de Lima Barreto — uma das raras exceções históricas em que a trabalhadora doméstica é tratada com profundidade na literatura brasileira.
No Brasil, cerca de 7 milhões de pessoas atuam no trabalho doméstico, segundo o IBGE. Trata-se da maior categoria profissional do país, composta majoritariamente por mulheres negras e de baixa renda, ainda marcada por precarização e desigualdades estruturais. Nesse contexto, o livro propõe uma revisão crítica do papel dessas mulheres na produção cultural e literária nacional.
O lançamento será realizado em formato online, com um bate-papo entre a autora e pesquisadoras convidadas, transmitido pelo canal “Estudos da Literatura”, da UFF, às 18h. A obra também está disponível para download gratuito no site da editora Pangeia.
Sobre o livro:
- Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea (Editora Pangeia/EdUff)
- Livro contemplado pelo edital Coleção Ensaios Egressos 2025.2 - POSLIT/UFF - Capes
Disponível para download gratuito no site da editora Pangeia:
https://editorapangeia.com.br/pt_br/product/quirinas-a-trabalhadora-domestica-como-protagonista-na-literatura-brasileira-contemporanea-mariana-filgueiras/