Inspirado pela clássica obra de Cervantes, mas imerso em nossa brasilidade, o espetáculo canta a saga do herói Queixada pelo interior do Nordeste e coloca pela primeira vez um ator preto como Dom Quixote.
Lá — ou em lugar nenhum, como sugere o título —, ele inicia uma batalha a fim de transformar seu próprio mundo em um espaço menos triste e ainda encontrar a musa Dulcineia (Dani Fontan) que nunca conheceu.
A alma de Dom Quixote, tão utópica e idealista na literatura, vai mexer com os desejos dos espectadores, segundo o diretor. “‘E aí, você continua acreditando no sonho mesmo quando tudo parece ser do contra?’ Você é ou não é um sonhador?’ Esses são questionamentos que estão dentro de todos nós”, diz Farjalla, que coloca Cláudia Ohana no papel de um inquieto diabo. “Ela representa o feminino libertador. Desmembrei a personagem do Sancho, que na obra do Ruy era o diabo, para trazer uma dualidade ainda maior para a história. Essa personagem atua num lugar de consciência para o Dom Quixote. E é também uma homenagem a ela, musa do Ruy dentro e fora da ficção”, explica Farjalla.
Claudia Ohana não trabalhava com Ruy desde 1989 e confessa que está vivendo uma experiência singular no palco. “É incrível voltar a trabalhar em um texto dele – já faz anos, desde o filme ‘Kuarup’. E ter as músicas do Zeca Baleiro, que eu também adoro, é demais. Eu queria trabalhar com o Farjalla já há algum tempo. Tem me trazido muita alegria o processo dele nos ensaios. Fazemos tudo em grupo. É a primeira vez que estou em cena o tempo todo, que toco instrumento, mudo de personagem. Está sendo bastante especial e transformador”, diz ela.
Interpretado por Lucas Leto, o herói Queixada enfrenta um caminho de pedras neste universo árido e já chega rompendo barreiras. “Fazer o primeiro Dom Quixote preto me pegou de surpresa e ao mesmo tempo em estado de alerta. Serve para todo mundo pensar que a sociedade está mudando, mas não estamos nem perto do que seria ideal num contexto racial. Agora, a gente vê um grande clássico como o Dom Quixote, que os artistas pretos nunca conseguiam acessar, sendo vivido por mim. É uma responsabilidade grande porque ele é icônico e agora vai ser interpretado por um jovem ator preto de Salvador. A cada ensaio tenho certeza que esse espetáculo vai surpreender quem for assistir e vai emocionar muito”, diz o ator.
A montagem, idealizada por Simone Kontraluz, marca a estreia de Farjalla no teatro musical. Nesta adaptação de Ruy Guerra, esse Dom Quixote Queixada representa a singularidade de cada um de nós nessa eterna busca para amenizar a dureza do cotidiano e transcender ao caos.
Os contadores dessa história são materializados no palco como uma trupe de saltimbancos, com 10 atores que cantam e tocam instrumentos se desdobrando em vários personagens, para num grande e fabuloso cordel, narrarem as aventuras e desventuras do protagonista e seu fiel escudeiro, Sancho Pança (Danilo Moura). Eles são incansáveis na tentativa de tornar a fantasia possível de se acreditar.
Idealização: Simone Kontraluz
Texto: Ruy Guerra
Direção e encenação: Jorge Farjalla
Assistente de direção: Andrea Dantas
Músicas: Ruy Guerra e Zeca Baleiro
Direção Musical: Lui Coimbra
Elenco: Lucas Leto, Danilo Moura, Claudia Ohana, Dani Fontan, Jana Figarella, André Rosa, Daniel Carneiro, Du Machado, Paloma Ronai, Caio Menck
Cenário: João Uchoa
Figurinos e adereços: Jorge Farjalla
Assistente de figurino: Joana Seibel
Desenho de luz: Samuel Betz e Eduardo Dantas
Preparação Vocal: Suely Mesquita
Preparação corporal: Jorge Farjalla
Som: Gabriel D’angelo
Caracterização: Joana Seibel
Ilustrações: Pally Siqueira
Design gráfico e mídias sociais: Christoffer Pesce
Fotos: Simone Kontraluz
Direção de Produção: Valéria Macedo
Realização: Graviola Produções
Curadoria: Simone Kontraluz
Classificação: 12 anos.