“Quem amamos quando amamos?” é a pergunta detonadora de Encerramento do Amor, dirigido por Diego Bresani, que desde abril está em circulação nacional e chega ao Rio para curta temporada no Espaço Tápias.
A peça do premiado dramaturgo francês Pascal Rambert traz uma conversa composta por dois monólogos que marcam o término de um relacionamento amoroso, “todo relacionamento longo tem suas camadas e complexidades, isso é evocado na nossa obra, mas fugindo aos clichês dos espetáculos que falam de relacionamentos”, ressalta o diretor. O formato do texto propõe um exercício de escuta e de fala.
A montagem que o público carioca vai assistir é a versão brasiliense da obra Clôture de l'Amour, de Pascal Rambert. O desejo de montar uma versão brasiliense da obra veio da atriz Ada Luana, que via na ousadia do texto não somente um dos maiores desafios que enfrentaria como intérprete, mas também a potencialidade das relações humanas.
A adaptação do texto para o Brasil trouxe desafios para além da tradução. “É um texto extremamente francês no sentido da palavra, na paixão que eles têm pela palavra, pela retórica. O que nos seduziu no texto foi justamente isso. São muitas páginas de texto sem nenhuma pontuação. Nosso desafio foi esse, pontuar e trabalhar o texto como a grande partitura que ele é. Descobrindo como ir criando cada pontuação durante o espetáculo”, explica Bresani.
A pesquisa do diretor e elenco se debruçou sobre o verbo e a escuta como elementos estruturantes na construção da narrativa e condução da expressividade no palco. O formato contemporâneo proposto pela encenação do texto francês – uma discussão que precede o fim de um relacionamento onde apenas uma pessoa fala ininterruptamente, em dois rounds separados por um breve número de sapateado – remete o espetáculo à uma intensa paisagem sonora.
A distância entre os corpos no palco, a limpeza e simplicidade do figurino e da cenografia, e a iluminação fria, reforçam e conduzem o foco da experiência cênica ao trabalho dos atores, ao ato de falar e de ouvir.
Dentro de uma grande sala, uma mulher e um homem se falam. É ele que começa a conversa. Ela escuta, atenta, e lhe responde com um segundo monólogo. Eles evocam sua separação, falam do antes e do agora. Pascal Rambert não traz uma resposta pronta à questão: “Quem amamos quando amamos?”
Ele circula pelas possibilidades. Ele não nega os clichês dos quais se utilizam, pelo menos uma vez, aqueles que se separam, que procuram uma razão para o desamor, que revivem suas memórias, as embelezando antes de destruir tudo com algumas frases assassinas.
O rio ininterrupto de palavras, as questões-respostas que se ligam, a respiração contida em uma espécie de maratona entre o medo e a libertação: é aqui, no coração deste momento doloroso, que Pascal Rambert nos coloca.
Na brutalidade de um verbo onipresente, no rigor inacreditável de uma escrita fria e mortal se manifesta um combate impiedoso. Ele ataca e Ela deve lutar contra o desaparecimento que ele quer lhe impor. Eles têm armas iguais, mas não as utilizam da mesma maneira.
Há o masculino e o feminino. Há dois olhares, dois silêncios, dois discursos para dizer a violência de um amor que morre.
Texto: Pascal Rambert
Tradução: Marcus Vinícius Borja
Elenco: Ada Luana, João Campos e Taís Felippe
Iluminação: Diego Bresani
Fotografia: Henri dos Anjos
Capacidade de público: 80 pessoas
Duração do espetáculo: 100 minutos
Classificação etária: 16 anos
O estacionamento rotativo ao lado do prédio oferece desconto para frequentadores do Espaço Tápias.