Esse homem é meu!, montagem da Temprana Cia é inspirada na comédia brasileira de costumes, que tem em Arthur Azevedo (1855-1908) e Martins Pena (1815-1848) seus principais representantes.
O texto, de Jean Cândido Brasileiro e Helena Hamam, bebe também em fontes como o vaudeville, o kitsch (especialmente o dos filmes de Almodóvar) e o terror de Álex de La Iglesias. Tais influências são evidenciadas na direção e nos figurinos de João Corrêa.
A história se passa nos fins dos anos 50, onde três irmãs solteironas dividem uma casa na bucólica (e fictícia) Vila Serena. Deolinda, Glorinda e Lucinda ainda têm esperanças de encontrar seus respectivos pretendentes. Deolinda é durona; Glorinda, a carola do clã, e Lucinda, uma manicure que sonha cantar na Rádio Nacional.
A tranquilidade do lar é abalada pela chegada da prima Celeste, que leva consigo o convite para seu casamento.
Elas não contavam que Celeste fosse acompanhada de seu noivo, Custódio, um advogado de futuro promissor na capital. E esse reencontro familiar suscita uma série de imprevistos e quiproquós que viram a vida de todos pelo avesso.
A trama acaba por revelar nas três irmãs uma característica em comum: a perfídia. Mas o que as leva a agir de tal forma? A chegada da prima Celeste salienta as gritantes diferenças entre a vida no interior e a da capital.
Em razão do modo de vida “jeca” daquelas mulheres – que ainda têm no rádio sua principal fonte de entretenimento --, Celeste acaba por ter um comportamento pernóstico, o que ofende (e muito) as primas.
E o troco vem com um plano, arquitetado de forma a fazer troça da visitante “deslumbrada”. Acontece que os rumos saem de controle, e o tal plano tem consequências inesperadas – e tragicômicas.
A Temprana é formada por atores egressos da Universidade do Rio de Janeiro (UniRio) e da escola de teatro Martins Pena. E a montagem de “Esse homem é meu!” tem por embrião uma pesquisa sobre o melodrama, levada aos demais pelos atores vindos da universidade.
Essa linguagem fica evidenciada já na primeira cena, na qual Lucinda passa roupa ao som da rádio-novela “Esse homem é meu”, num exemplo claro de metalinguagem. A estética vintage é evidenciada pelo visagismo de Christina Gall, maquiadora atuante no Brasil e no exterior.
As influências da estética Kitsch, presente nos primeiros filmes do espanhol Pedro Almodóvar estão presentes nas cores vibrantes do cenário e nos figurinos criados pelo diretor João Corrêa, que se inspirou em nomes da década de 50, como Chanel e Dior.
A plateia não fica dispersa em momento algum – e as temporadas no Rio e em Niterói mostraram isso. O teatro está com ocupação restrita a 90 lugares (40% da capacidade do teatro), de acordo com as normas sanitárias vigentes.
Um espetáculo de Jean Cândido Brasileiro e João Corrêa
Elenco: Fabíola Romano, Fernanda Esteves, Helena Hamam, Jean Cândido Brasileiro e Renata Benicá
Texto: Jean Cândido Brasileiro
Fotografia: Ronaldo Junger
Gênero: comédia
Duração: 90 minutos