Baseado em Nastácia Filíppovna – heroína do clássico “O Idiota”, de Fiódor Dostoiévski – Nastácia une o teatro a outras linguagens artísticas (como instalação e videoarte) para contar a história de uma das mais instigantes personagens femininas da literatura universal.
Com direção de Miwa Yanagizawa e dramaturgia de Pedro Brício, a peça se passa no apartamento de Nastácia, na noite do seu aniversário. Ela deve anunciar seu casamento com Gánia, união articulada pelo oligarca Totski, homem que a transformou em concubina desde a adolescência e a submete a um verdadeiro leilão naquela noite.
A festa não acontece de maneira cronológica. “O passado irrompe de repente e toma conta da cena. A força do que aconteceu antes da festa está ali. A potência do drama dos personagens é o que nos arrebata, por ser tão vertiginoso, por se transformar de uma hora para outra diante dos nossos olhos”, conclui.
Concebido entre 1867 e 1869, “O Idiota” está longe de ser anacrônico. Segundo o Datafolha, no ano passado 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil; e 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. Para a diretora do espetáculo Miwa Yanagizawa, a arte é um espaço em que o artista pode, como mediador, reumanizar estatísticas devastadoras como essas.
“Às vezes, os números são terríveis, eles nos espantam sem tocar. São séculos de opressão e crueldade contra as mulheres e, muitas vezes, acho que não nos vemos responsáveis pela manutenção de tais tragédias humanas. Tomamos distância como se elas pertencessem a outro universo, como coisas que acontecem somente fora de nossas casas. Lemos números e seguimos nossas vidas repetindo gestos que alimentam a irracionalidade e a negligência com os outros, mas, sem perceber, estamos colaborando com o crescente e alarmante número da violência contra a mulher”, analisa.
Instalação artística
Além dos figurinos e da direção de arte, Ronaldo Fraga assina a instalação artística que fica em exibição no Teatro III com entrada franca. Durante o espetáculo, a instalação é o cenário que abriga a trama. É uma forma de amplificar a crítica presente em “Nastácia” e dialogar ainda com outros fortes temas abordados em “O Idiota”, como a descrição dos rostos dos personagens.
O Príncipe Míchkin (o homem positivamente belo retratado por Dostoiévski) diz que, ultimamente, se fixa muito nos rostos. “Ele é o único que consegue ver as pessoas além da aparência”. A questão da beleza é muito presente no romance: o contraste da beleza enquanto matéria e a beleza dos valores de amor e compaixão.
A narrativa dos retratos de Dostoiévski também foi inspiração para o cineasta Cao Guimarães, autor da videoarte que integra a instalação. Em sua primeira incursão no teatro, ele diz que o trabalho foi realizado por meio de imagens e sons que se relacionam direta e indiretamente com “Nastácia” e “O Idiota”. Mas o principal objetivo, segundo ele, é ampliar a crítica e a reflexão em torno de um comportamento costumaz e perverso: a objetificação da mulher.
FICHA TÉCNICA:
Dramaturgia: Pedro Brício
Tradução: Paulo Bezerra
Direção: Miwa Yanagizawa
Elenco: Flávia Pyramo, Julio Adrião e Odilon Esteves
Direção de arte (Instalação artística e Figurinos): Ronaldo Fraga
Videoarte: Cao Guimarães