Depois de dar vida no teatro ao lendário Volta Seca, remanescente do bando de Lampião, Alan Pellegrino mira agora em temas sociais como o do trabalho escravo. O ator e dramaturgo é novamente dirigido por Joelson Gusson, com quem criou a companhia Dragão Voador, repetindo, assim, a parceria de espetáculos como “Hotel Brasil” (2017) e o supracitado “Volta Seca” (2018).
A trama é ambientada nos dias de hoje, com referências ao novo coronavírus e à pandemia, o que não impede a narrativa de ir e voltar no tempo. Em uma dessas voltas, somos levados ao ano de 1996, quando um grupo de mães passa a marcar presença na Praça da Sé, Centro de São Paulo.
Em comum, a busca pelos filhos desaparecidos. Esse grupo ficou conhecido como Mães da Sé numa referência às Mães de Maio (Madres de la Plaza de Mayo), unidas por encontrar os corpos dos filhos, vítimas do regime militar na Argentina. Em paralelo à trajetória de Guará, acompanhamos a busca de sua mãe por seu paradeiro.
E Alan personifica todos esses personagens, sendo ele próprio um deles. Ele usa de seu corpo e sua voz para colorir cada um com tinta própria.
Da mesma forma que o narrador se desdobra em outros, o mesmo pode ser dito sobre a narrativa, que abre-se dando lugar a outros lugares de fala. À linha do tempo de Guará são costuradas falas como a do rapper Criolo ou a de um pequeno trabalhador rural,assombrado por um sonho recorrente. Tais recursos narrativos juntam-se num caleidoscópio em nada colorido. As tintas são, no caso, ocres em razão dos temas levantados pelo enredo.
“Nave mãe” é também uma canção de Vital Farias, lançada no LP “Taperoá”, de 1980. A canção também mistura-se à narrativa do espetáculo. E traduz o vínculo do ator com sua mãe, de quem foi afastado na mesma década em razão de ela ir trabalhar no exterior. “Essa origem da qual faço parte e da qual fui em busca me revelou um passado não tão distante, que me fez refletir sobre quem sou”, reflete o ator fazendo em seguida um alerta: “Eu não me deixei ser escravizado no passado e, se hoje escrevo sobre isso, é para fazer com que essa mensagem ganhe um novo significado para o futuro”.
Nesses tempos em que a vida virou moeda num jogo macabro onde o negacionismo dá as cartas, com indivíduos reduzidos a meras estatísticas, o futuro é agora.
Ficha técnica:
Idealização, dramaturgia e performance: Alan Pellegrino
Direção: Joelson Gusson e Alan Pellegrino
Fotos: Carol Nunes
Filmagem: Ubuntú Produtora
Produção: Riquixá Invenções Artísticas
Realização: Dragão Voador
Temporada: 18 a 29 de abril
Duração: 35 minutos
Classificação: 12 anos