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  • Apolônio de Carvalho: “A minha geração sofreu muitas derrotas”

    Agenda Bafafá em 01 de Junho de 2016    Informar erro
    Apolônio de Carvalho: “A minha geração sofreu muitas derrotas”

    Apolônio de Carvalho é um dos poucos políticos de esquerda remanescentes da década de 30. Natural de Corumbá, no Mato Grosso, conclui a Escola Militar em 1930 no Rio de Janeiro sendo expulso do exército seis anos depois pela ditadura Vargas. Ao ficar um ano e meio preso, mantém contato com lideranças comunistas e acaba se filiando ao PCB, partido onde permaneceria 30 anos. Ao aderir à legenda, é recrutado para lutar na Guerra Civil Espanhola contra a ditadura Franco e posteriormente, na Segunda Guerra, na resistência francesa contra a ocupação alemã. Sua coragem fez dele um herói sendo agraciado na França com a Legião de Honra e o posto de coronel. Em 1967, rompe com o partidão e adere à luta armada fundando o PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) do qual foi o primeiro secretário geral. Acaba preso em 1970, sendo libertado em troca do Embaixador alemão Von Hollenben, seqüestrado por um grupo de esquerda. Depois disso, vai para o exílio na Argélia, seguindo em seguida para a França. Em 79, com a anistia, retorna ao Brasil e ajuda a fundar o Partido dos Trabalhadores.
    Aos 92 anos e com uma lucidez impressionante, Apolônio de Carvalho concedeu uma entrevista para o livro “Do ABC ao Poder”, que vai contar a história do PT. Bafafá estava lá e reproduz trechos do depoimento.

    Como o Sr. avalia os acontecimentos que marcaram a sua geração?
    A minha geração sofreu muitas derrotas. Em 1935 na Intentona, em 47 com a cassação do registro do PCB e em 50 ao apelar para a luta armada contra o governo Dutra e querer uma solução armada para o governo do Getúlio, que se suicidava quando conclamávamos o povo a sua deposição. Sofremos também em 1964 com o golpe e em 68 com o AI 5. Nós fomos derrotados várias vezes mas tivemos duas vitórias: em 1945 com a derrota do nazismo e em outubro do ano passado com a chegada de Lula ao governo.

    De que forma o Sr. foi parar como voluntário das brigadas internacionais na Guerra Civil Espanhola?
    Quando sai da prisão, em junho de 1937. Ela foi uma grande universidade política, onde conheci o partido comunista ao qual me filiei. Fui então recrutado para ir para a Espanha com outros militares que tinham sido cassados já que poderíamos ajudar pois o golpe de Franco tinha o controle de 85% das Forças Armadas.

    O que a história omitiu ao longo de sua existência?
    Tudo que era essencial. A história oficial é profundamente mentirosa. A esquerda tem história, seus altos e baixos. O problema é que ela não tem memória.

    Getúlio Vargas era um estadista ou um criminoso?
    Um pouco de cada um. De um lado transformou um país iminentemente agrário em industrial em ritmo crescente e ao mesmo tempo era um terrível opressor que temia a presença das forças capazes de mostrar a realidade de seu governo, suas intenções. Que ele foi um estadista foi, que mudou o país. Mas tinha um lado negativo profundamente cruel e dissolvente. Acho que todos os dirigentes têm contradições históricas.

    Se Olga Benário tivesse se casado com Luís Carlos Prestes, poderia ter evitado a extradição?
    Juridicamente sim. Quando ocorre um casamento, o estrangeiro passa ter os mesmos direitos que o brasileiro. Mas como os dois viviam na clandestinidade, isso não foi possível.

    Qual é a receita para chegar aos 92 anos com tanta lucidez política?  A primeira coisa é não aceitar que o que há de ruim continue indefinidamente e acreditar num mundo melhor. Ter confiança que mesmo nas situações piores há uma saída para algo melhor.

    Qual a é avaliação que faz do projeto político do PT?
    Nós estamos vivendo numa era nova e a origem disso é a trajetória do PT. Para conhecer melhor o partido é preciso ter em conta duas coisas: as condições de seu surgimento na vida nacional, pois ele não nasce por acaso, nasce na segunda metade dos anos 70 em meio a duas crises que marcam profundamente a vida do país. Uma é a crise geral do regime militar, outra é a crise geral da antiga esquerda tradicional. Esta tinha como cultura as insurreições isoladas como a de 1935. Surge então a necessidade de fazer um salto de qualidade com a existência de um partido. Mas era preciso um projeto político, uma doutrina. O PT não era marxista, não adotou o marxismo. O Lula disse há pouco que nunca foi de esquerda. Acho que ai ele descarrilou, gosto muito dele, mas acho que ai deu uma escorregada. A luta dos sindicatos contra a ditadura era uma luta de esquerda. A luta dos sindicatos contra a dureza, a frieza, a avareza e a impetuosidade dos capitalistas sempre foi de esquerda. Quando se criou o PT, em 10 de fevereiro de 1980, o primeiro manifesto do partido propõe a luta comum por uma sociedade sem exploradores, sem explorados. Como o PT não tem uma cultura marxista, não falava ainda em socialismo. Apenas em outubro de 81, ele decide incluir como bandeira a busca do socialismo. Hoje, nós precisamos dar um espaço especial para as relações entre democracia e socialismo. A democracia é uma conquista do povo, da presença dele nos governos. No PT, em três filiados, dois não participam da vida política. Mas como querer que os desempregados participem da vida política? Os 50 milhões de miseráveis? Como querer que atuem fortalecendo a cidadania no país? E quem está na informalidade, que não tem direitos iguais aos demais cidadãos? É preciso reduzir a exclusão social e ampliar o quadro da soberania, a base de uma democracia sempre mais ampla, com a presença do povo, voltada para os interesses do país.   

    O Sr. não vê uma contradição entre a política externa e a interna do governo brasileiro? Eu separaria o externo e o interno. Acho que o interno não tem nada que abaixar a cabeça e mudar. O governo está olhando a realidade coisa que a esquerda nunca quis fazer, está criando condições para mudar essa realidade de maneira sustentável, permanente. O governo vai baixar os juros. Isso é um elemento pontual. Os juros chegaram a 26% e este governo já reduziu para menos de 20%. Acho que estamos procurando olhar a realidade e abrir o caminho para um avanço sólido, seguro, no início do que eu chamo a aplicação de um modelo novo. No plano exterior, o Brasil é hoje um país olhado com respeito, não partidário das decisões do G7, G8.

    Qual é o quadro que faz da hegemonia mundial dos EUA?
    No momento em que os Estados Unidos, com o Sr. Bush, abrem caminho para um novo império mundial avassalador, intolerante, uma vez que é baseado na força, no poder atômico, a gente pode dizer que a nova ordem mundial é particularmente incerta.
     

    O que destaca nos acontecimentos do século XX?
    O século XX foi um verdadeiro cemitério de impérios mundiais: o império otomano, no final da 1ª Guerra, que vinha do final da Idade Média, o império austro-húngaro, que tinha forte influência na Europa, o mundo novo de mil anos que o nazismo trazia para a sociedade, o império japonês e seus generais com sua prepotência, vaidade, por se sentirem donos de um continente tão rico como a Ásia. E o império soviético, que durou 74 anos. O século passado mostrou que a sociedade chegou a um nível de visão dos interesses populares, democráticos e nacionais, na busca de horizontes mais próximos do respeito e dos direitos humanos. Por isso, o império mundial americano é anacrônico, está contra a marcha da história.



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