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  • Beth Carvalho: A Jovem Guarda foi um atraso cultural

    Agenda Bafafá em 30 de Abril de 2019    Informar erro
    Elisabeth Santos Leal de Carvalho, Beth Carvalho, é apontada como a maior sambista do Brasil. Criada na Zona Sul do Rio de Janeiro, de família de classe média, Beth começou a carreira influenciada pela Bossa Nova. Em 1965, gravou o seu primeiro compacto simples, com a música Por quem morreu de amor, de Menescal e Bôscoli. No ano seguinte, participou do show A Hora e a Vez do Samba, ao lado de Nelson Sargento e Noca da Portela. O sucesso maior só viria nos festivais, principalmente a partir de 68, quando participou do FIC (Festival Internacional da Canção), interpretando Andança. Apesar de obter o terceiro lugar, ficou conhecida em todo o país. A partir de 73, passou a lançar um disco por ano, estourando nas paradas. A artista é também responsável por lançar dezenas de sambistas, entre eles Zeca Pagodinho. “O Zeca me chamou mais atenção do que todos. Ele tinha um negócio a mais”, assegura.

    Militante engajada, filiada ao PDT, ficou enormemente sentida com a morte recente de Leonel Brizola, apontado por ela como um estadista. Nesta entrevista exclusiva ao Bafafá, Beth Carvalho abre seu coração e aborda, com extrema sinceridade, sua infância, sua carreira, a indústria fonográfica e o que mais gosta na vida: o samba. Quando questionada sobre a música Coisinha do pai ter acordado um robô em Marte, Beth brinca: “Nunca podia pensar que eu fosse virar uma cantora interplanetária”.

    Como foram a sua infância e juventude?
    Tive uma infância ótima, morei na Urca, Catete, Botafogo, Icaraí, Laranjeiras, Ipanema, Leblon e estudei em colégios fantásticos. Um deles foi o externato Cristo Redentor, na Urca, depois no Andrews, em Botafogo e, por último, no Brasileiro de Almeida em Ipanema. Tive bicicletas, patins, violão, piano, já que meu pai – João Francisco Leal de Carvalho - tinha uma situação financeira bem legal, trabalhava na Alfândega como conferente. Não era uma vida de rico, mas uma vida boa. A minha juventude, em Ipanema, foi a mesma coisa até que veio o golpe de 64 quando meu pai foi cassado pelas idéias, apesar de não pertencer a nenhum movimento. Conseguiram achar uma colaboração que ele tinha dado ao partido comunista, um selo que ele comprou para ajudar. Isso foi usado como prova que ele tinha uma relação com o partido. Foi ameaçado de ser preso e teve que se esconder. Era bacharel em direito, mas não pôde advogar. Teve um final de vida meio duro. Com mais de 60 anos fez um curso de fisioterapia e passou a tratar de pessoas idosas. Por conta disso, minha única irmã Vânia, publicitária, começou a segurar as despesas da casa, apesar do baque financeiro. Mas eu já dava aulas de violão – cheguei a ter 40 alunos – e ganhava meu dinheirinho, o que dava para meus lanches e meu cinema. Depois, acabei convidada para gravar um disco e comecei a ganhar dinheiro com a minha carreira. Infelizmente, minha mãe faleceu, minha irmã se casou e me mudei para outro apartamento com meu pai. Quando me casei, aluguei um apartamento para ele perto de mim. Depois ele adoeceu e voltou a morar conosco até o fim de sua vida. Ele foi meu maior fã. Meus pais fizeram minha cabeça no sentido político e social.

     
    O samba veio naturalmente ou você estudou para isso?
     
    Naturalmente, acho que isso é uma coisa que todo brasileiro tem. O samba é a música mais importante do mundo (risos), junta tudo, tem um ritmo espetacular, tem uma melodia riquíssima, uma poesia fantástica. O samba é a crônica do dia-a-dia do povo, é revolucionário, fala tudo, denuncia tudo. Você pode saber a história do Brasil através do samba. E ao mesmo tempo ele é uma terapia. Se você está triste e vai para um samba você fica feliz, se está feliz fica mais ainda. Namorar com samba é muito melhor, beber com samba também. O sambista te ensina a viver. Eu aprendi com ele como é que se vive. Eu vim da classe média e rompi com ela, pois a maioria de seus valores é muito pobre. Tinha paixão pelos negros, uma atração pela negritude, tinha ela dentro de mim. A gente só tem a doçura por causa do negro. Tive o privilégio de conhecer Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho. Isso foi aumentando ao longo do tempo. Desde pequena eu era atraída pelo samba, não podia ver um surdo, um tamborim, um pandeiro que eu ia atrás. Minha mãe gostava de carnaval e a gente frequentava tudo o que acontecia. Chegava a aprender 70 a 80 músicas de carnaval por ano, tinha um caderno e disputava com minha irmã quem sabia mais. Eu ia para a avenida Rio Branco ver a Mangueira com oito anos de idade. Mamãe alugava um caixote para eu ficar mais alta (riso), não tinha arquibancada. Fui barrada várias vezes no Cordão do Bola Preta e hoje eu sou madrinha do bloco (riso). Na época, só maiores de 21 anos podiam entrar nos bailes do Bola. Só consegui entrar depois de anos, foi uma vitória! Agora, ninguém das minhas amizades fazia isso, só eu e minha mãe. Eu era uma exceção, tá entendendo? Você imagina o contraste, uma aluna do Andrews frequentando samba? Não era comum. Assim que começou ensaio em quadras, ia para a Mangueira com uma turma muito mais velha (Albino Pinheiro, Ferdy Carneiro, Sabino Barroso, Milton Temer), fundadores da Banda de Ipanema.
     
     
    Verdade que a Banda de Ipanema nasceu em Ubá, Minas Gerais?
     
    O Ferdy Carneiro criou essa banda em Ubá. Cheguei a ir lá, pois era amiga das gêmeas Selma e Célia que me disseram que o carnaval de lá era muito bom. Os homens saíam vestidos de terno branco, chapéu de malandro ou de mulher. E não entrava mulher, sabia? E a de Ipanema também. As mulheres seguravam a corda (risos), era machista para caramba! Era uma novidade em Ipanema, pois pela primeira vez tinha uma coisa popular em Ipanema, que era um bairro elitista.
     
     
    Como foi a experiência em festivais?
     
    Os festivais eram tudo naquela época. Em 1967, eu participei do Festival Universitário na TV Tupi, quando cantei Meu tamborim, obtendo o 3º lugar. Nesse mesmo ano, cantei o samba Berenice no “Brasil canta no Rio”, o festival da TV Excelsior, também tirando o 3º lugar. Em 68, participei do FIC interpretando Andança, e mais uma vez obtive o 3º lugar. Só que a partir daí fiquei conhecida em todo o Brasil, foi aquele boom. Os festivais eram tudo, o Brasil parava. Toda uma geração da música brasileira foi lançada em festivais: Elis Regina, Chico Buarque, Nara Leão, Edu Lobo, Francis Hime, Dori Caymmi, Nana Caymmi.
     
     
    Você introduziu o banjo com afinação de cavaquinho e o tan-tan?
     
    Eu sempre fui das andanças. Quando já estava famosa, em 77, o Alcir Portela me convidou para assistir uma roda de samba do Cacique de Ramos com o grupo Fundo de Quintal, com Jorge Aragão, Almir Guineto. Foi quando eu ouvi um samba novo tocado com repique de mão, banjo e tan-tan, que eu nunca tinha visto no samba. Fiquei encantada e passei a ir todas as quartas-feiras. No ano seguinte, resolvi gravar o disco Beth Carvalho, pé no chão, introduzindo estes instrumentos, que não eram tocados com barqueta como é o tamborim, como é o surdo, era na mão, tinha mais batuque, era mais primitivo. O Almir Guineto é que criou esse banjo afinado em cavaquinho. Aí eu falei para o Rildo Hora, que era meu produtor na época, que eu tinha um som novo para lançar. Ele chegou a questionar dizendo que o estilo era bom na roda, mas chegando em um estúdio os caras tremeriam. Então falei: eu garanto, aposto. Marcamos então um ensaio, botamos a rapaziada para tocar. O Rildo então reconheceu e disse: “Beth, você tem toda razão, é um novo som, é do cacete, vamos nessa”. Depois disso, arrumei gravadora para eles. Continuei indo ao Cacique e ainda lancei o Arlindo Cruz, o Sombrinha, o Beto Sem Braço e alguns anos depois o Zeca Pagodinho, que ia lá com uma sacola de supermercado com um cavaquinho dentro, chinelo de dedo. O Zeca me chamou mais atenção do que todos. Todos eram geniais, mas ele tinha um negócio a mais, tanto que foi o único que chamei a gravar comigo, cantando a música Camarão que dorme a onda leva (riso). Ele era um grande partideiro, versava muito bem junto com o Almir Guineto.
     
     
    O samba superou o preconceito?
     
    Evoluiu, melhorou muito, mas não terminou o preconceito. Você quer ver uma coisa: porque o samba não é considerado MPB? Isso para mim é a maior clareza de quanto preconceito ainda existe. Há uma separação entre os dois. Porque o samba não é considerado MPB, apesar dele ser o mais popular brasileiro dos ritmos? A mídia quer nivelar a MPB acima do samba, que vem do morro, do subúrbio.
     
     
    O que acha dos desfiles de carnaval na Sapucaí?
     
    Mudou muito, não é o que tem que ser! Não sou saudosista, é uma questão de valores, ficou tudo muito igual. Quando começou, a escola de samba era basicamente composta por compo-sitores, a bateria, as baianas, mestre-sala e porta-bandeira. Os compositores precisam ser mais respeitados do que são. Eles são pouco divulgados na mídia. As madrinhas de bateria de escolas eu acho que tinham que ser da própria escola. Eu que sempre tive uma relação com o samba, jamais quis puxar um samba-enredo na avenida porque o lugar é deles (os intérpretes). Eles é que ralam o ano inteiro, cantando todo fim de semana. Não sou eu que vou tirar o lugar do cara para cantar por ser a Beth Carvalho. O desfile é lindo plasticamente, não posso negar, me emociono até hoje. Mas tem um bocado de coisas que estão erradas.
     
     
    E os blocos de carnaval, revigoraram a folia de rua?
     
    Com certeza, é um movimento muito bom, que eu dou a maior força, tendo inclusive gravado um samba do Simpatia é Quase Amor e do Bloco de Segunda. Tenho um inclusive um bloco, o Concentra mas não sai e sou madrinha de vários, entre eles o Barbas e o Bola Preta, que tem 80 anos. É uma honra eu ser a substituta de Elizeth Cardoso que era a madrinha. Esses blocos, o Carmelitas, o Meu bem volto já, eu procuro também participar, dentro do possível. Acho importantíssimo que a juventude, os bairros curtam aquilo que curti na minha infância. Pena que não tenha mais bailes de salão com músicas novas.
     
     
    Você acha que a Ditadura atrapalhou?
     
    Acho, já que de 64 a 78 não aconteceu nada com a exceção do Caetano com aquele ótimo frevo Chuva, suor e cerveja. Eu fiz uma pesquisa de marchinha de carnaval e constatei que elas pararam em 64. Fui uma das que contribuiu para mudar isso com os meus sucessos Vou festejar, Coisinha do pai, a chuva cai, firme e forte etc, que estimularam outros cantores a cantar músicas de carnaval. Eu trouxe de volta essa história.
     
     
    Você acha que o samba ainda pode criar mais um estilo musical, como foi o chorinho, a bossa nova?
     
    Já criou, não tem o samba-reggae, samba-rock, sambalanço? Tudo no fundo é samba (riso).
     
     
    Até o pagode?
     
    Isso eu vou morrer explicando (riso), vou explicar pela centésima vez: eu trouxe essa palavra para mídia. Em 79, eu fiz um disco chamado Beth Carvalho no pagode, porque eu estava apaixonada pelo Cacique de Ramos que tocava pagode. Nesse disco, na contra-capa, eu explico: pagode, para aqueles que não sabem é a reunião dos sambistas, onde se canta samba, se bebe uma cervejinha, se bate um papo. É também a forma íntima do sambista chamar o samba. Em vez de falar “canta um samba aí, meu compadre, se fala canta um pagode aí, meu compadre”. Eu não criei essa palavra, o Paulinho da Viola já tinha gravado um samba, muito antes de eu fazer este disco, que dizia “domingo, lá na casa do Vavá, teve um tremendo pagode você nem pode imaginar”, se referindo à festa. Samba é pagode, pagode é samba. Assim como na época da Bossa Nova, geladeira ganhou esse nome, a palavra pagode se deteriorou, ela se deformou, virou um gênero musical, que usa o ritmo do samba, os instrumentos, mas que não é samba. Aí é que deu a confusão. Eu sempre me orgulhei de ser pagodeira e sou até hoje. Fizeram uma confusão proposital para deteriorar o samba. São cinco multinacionais que mandam no mundo musical, elas não querem que o samba tenha a força que tem pois assim fica mais fácil dominá-lo. Eles querem arrumar um jeito de acabar com aquela cultura. Eu classifico esse pagode a que você se refere como a “jovem guarda de tan-tan”. A jovem guarda é um movimento que veio para aparentar que o jovem era rebelde. Não era nada disso, era alienado. Pelo contrário: quando estava acontecendo uma efervescência no Teatro Opinião, as pessoas cantando Zé Ketti, Cartola, João do Vale, a jovem guarda era uma cópia tupiniquim dos Beatles. A jovem guarda foi um atraso cultural, que se reflete até hoje, pois a maioria dos diretores artísticos das gravadoras são oriundos dela.
     
     
    A numeração dos CDs foi a solução para ter um controle do que foi vendido pelas gravadoras?
     
    Todos os produtos são numerados, porque que o disco nunca foi? É uma das grandes soluções, porque você tem um controle do quanto você vende, quanto não vende. Nós não tínhamos essa referência. As coisas têm que ser claras entre artista e gravadora. É bom para eles também, pois eles também têm mais controle sobre os produtos. O Brasil acabou sendo o primeiro país do mundo a numerar disco. Só que agora, nesse momento, essa numeração tem que continuar, mas em outro suporte técnico já que o CD vai para o brejo e o DVD está tomando conta. Lobão e eu começamos a campanha da numeração, conseguimos mais de mil assinaturas de outros artistas e ganhamos. Hoje é lei numerar.
     
     
    Te emocionou ouvir a música “Coisinha do pai” acordar um robô em Marte?
     
    Foi a coisa mais inusitada que eu já vi na minha vida. Não podia esperar isso nunca, que eu fosse virar uma cantora interplanetária (risos). Eu estava em casa, tinha acabado de fazer uma cirurgia quando me ligou uma jornalista de O Globo avisando. Eu disse: espera aí, como é que é? Foi quando me contou que a brasileira Jaqueline Lyra, engenheira da Nasa, tinha me prestado essa homenagem. Então consegui o telefone dela e liguei. Ela ficou gaga, não conseguia falar de emoção (risos), ela nunca imaginou na vida falar comigo. Agradeci então a homenagem que achei linda. Depois, amadurecendo mais esta história, eu vi mais uma vez o que é o samba na alma de um brasileiro. Ela estava há 15 anos nos Estados Unidos e de que ela se lembrou? Do samba. Por acaso foi comigo, que ótimo (risos). Posteriormente, ela veio ao Brasil, nós fizemos uma coletiva e ela aproveitou para me dar uma caneca com a foto do robô e eu retribuí com uma camisa da Mangueira.
     
     
    Tem algum projeto?
     
    Sim, meu primeiro DVD ainda este ano. Ele vai ser com músicas conhecidas, os grandes hits, e talvez eu coloque duas ou três inéditas. Vou ter convidados também. Será um show gravado. Fora isso, faço muitos shows pelo Brasil, principalmente em São Paulo que tem o maior mercado. Faço entre 10 e 12 espetáculos por mês.
     
     
    O que está achando do governo Lula?
     
    Acho que se esperava muito mais desse governo, está todo mundo um pouco triste. Na área cultural não vejo nada, a reforma agrária até agora não aconteceu, o desemprego é imenso. Não sei onde isso vai parar, é lastimável pois todos nós votamos nele, né?
     
     
    Qual movimento social você acha mais importante no Brasil?
     
    O MST. Esse é o mais sério, mais importante movimento dos trabalhadores no país. Eu acho uma coisa comovente. Eles são a esperança do Brasil. São pessoas sérias, do povo, preocupadas com a melhora do país. Conhecem a terra como ninguém, fazem milagres com ela. O João Pedro Stédile é muito sério, o José Rainha, o Mineirinho. Acho que este último tinha que ser ministro da Agricultura. Acabei de receber um prêmio lindo deles, talvez o mais importante da minha vida: o Prêmio A Luta pela Terra.
     
     
    O que mais admira no Brasil?
     
    Somos beneficiados pela beleza natural, não conheço nada igual no mundo. O que mais admiro é o povo, que é sofrido, massacrado. Ao mesmo tempo é criativo, tem capacidade de dar a volta por cima. As pessoas acham que alegria é alienação. Não acho isso. Alegria é resistência que esse povo tem. Isso é a nossa grande arma. Por isso que o samba tem isso, essa alegria que ele passa, apesar de algumas letras serem tristíssimas.
     
     
    O que mais desgosta?
     
    Muita coisa (risos). Esse sentimento de ser “terra de ninguém”. Nós não temos uma liderança, políticos que cuidem deste país como deveriam cuidar. Somos ricos, bilionários, não podíamos ter miséria, fome. Temos que deixar de ser dominados pelos chamados povos de primeiro mundo, nós já pagamos a dívida externa milhões de vezes, não temos que pagar mais coisa nenhuma. Temos que ter um presidente que diga não ao FMI, que diga que já pagamos tudo com sangue, suor e lágrimas.
     
     
    Agosto 2004
     
    Entrevista concedida a Ricardo Rabelo
    Foto: Divulgação

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