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  • Elza Soares: Nunca projetei nada. Não estudo arquitetura

    Agenda Bafafá em 22 de Maio de 2016    Informar erro
    Elza Soares: Nunca projetei nada. Não estudo arquitetura

    Como dizia Ary Barroso, Elza Soares nasceu para ser uma estrela. Só que até despontar para o sucesso trabalhou duro como lavadeira e operária numa fabrica de sabão. Carioca, nascida em 23 de Junho de 1937, foi criada na favela de Água Santa, no Engenho de Dentro. Sua voz rouca não demorou a chamar a atenção. Aos 12 anos participou do Programa de Calouros de Ari Barroso na Rádio Tupi quando obteve o primeiro lugar. Ainda assim, demoraria a virar cantora, pois já era mãe. Aos 20 anos fez seu primeiro teste, na academia do professor Joaquim Negli, sendo contratada para cantar na Orquestra de Bailes no Teatro João Caetano. Em 1958, se apresentou na Argentina com Mercedes Batista numa temporada de oito meses, cantando na peça Jou-jou frou. Em seu primeiro disco, gravado em 1960, logo alcançou grande sucesso cantando Se acaso você chegasse (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins). Nesta entrevista exclusiva ao Bafafá, Elza Soares, apontada pela BBC de Londres como a cantora brasileira do milênio, fala de sua carreira e relembra um antológico encontro que teve com o jazzista Louis Armstrong durante a Copa do Mundo do Chile em 1962. O artista a chamava de "my daughter " (minha filha) e ela pensava que era de doutora. 

    Como foi o início de carreira? Conturbado como todo mundo que inicia uma carreira artística na vida. Tudo começou com o Ary Barroso em seu programa de calouros. Eu tinha 12 para 13 anos. Cheguei muito mal vestidinha - como todo mundo sabe nunca escondi minha origem – e ao me ver ele tomou um susto, aquela coisa magra que chegava e me perguntou de que Planeta eu tinha vindo. Eu respondi que do mesmo Planeta dele, o Planeta fome. Ele então calou a boca e foi tudo bem. Eu já era mãe, precisava de dinheiro e achei que a única maneira de ganhá-lo era ali. Acabei tirando nota cinco e deitei a cabeça no peito do Ary Barroso. Ele então disse para mim: "Neste exato momento nasce uma estrela". Eu fiquei procurando uma estrela, para você ver como eu era inocente, burra. Fiquei olhando e disse: "Como é que nasce uma estrela? Mas era eu, não sabia que o ser humano podia virar estrela assim de repente. A partir dali, me senti convencida e fiquei prosa, ganhar nota cinco no Ari Barroso não era fácil não. Ainda assim ainda dei duro em casa de patrão. Depois que gravei meu primeiro disco passei uma temporada em São Paulo, trabalhei em programas na TV Record. Foi um início de carreira muito bom.

    O fato de ganhar dinheiro não te afetou? Muito pelo contrário. Quando você ganha dinheiro - para quem vem de uma origem como a minha - você só fica com os pés mais no chão, põe a cabeça no céu, aí vê que somos todos iguais, que temos que ajudar para ser ajudado. Não mexeu com a minha cabeça. A única coisa que mexeu foi com meu estômago, pude comer um pouco melhor e dar uma vida melhor aos meus filhos (riso).

    Verdade que naquela época era cantar considerado coisa de prostituta? O meio artístico era considerado prostituição. Dizer que era cantora, a família não aceitava muito não. Eu rompi estas atitudes com barreiras, com raça.

    Você teve um encontro com o Louis Armstrong em 1962, na Copa do Mundo do Chile. Verdade que ele te chamava de filha (my daughter) e você achava que era de doutora? Lógico (riso). Ele falava " my daughter " e eu entendia doutora pois não sabia falar, né? Ele dizia: "Vem my daughter ". Aquilo para mim era uma coisa horrorosa, como é que não falaram para o homem que meu nome é Elza Soares? O cara me chamando de doutora o tempo todo. Aí me disseram: "Vai lá e chama ele de "my father". Eu disse: "Tu é besta como é que vou chamar o cara de "me foder"? Este encontro aconteceu quando eu fui madrinha da Seleção Brasileira e Louis Armstrong representava os Estados Unidos. Foi excepcional, ele queria me levar para o Mississipi. Depois me convidou para ir ao México onde cantei a música "Edmund" acompanhada dele ao piano. Eu fico agradecida a Deus. Nem todo mundo tem assim esse privilégio. Me considero um ser humano normal, procuro não fazer mal a ninguém. Recompensas acho que existem, bônus de Deus. E esta é uma.

    Você foi amiga dos presidentes JK e Jango e chegou a receber a Grande Medalha Cruzeiro do Sul? Graças a Deus tenho boas amizades com políticos, só que não tenho a pretensão de ocupá-los. Só se for uma coisa muita séria, vou aí a eles.

    Como consegue manter essa extensão de voz? Sou relaxada. Não faço nada, absolutamente nada. Até esqueço, já que em casa eu não canto. Fui considerada pela BBC de Londres a cantora do milênio como uma das melhores vozes do Brasil. A voz eu uso da maneira que quero, tanto o grave como o agudo.

    Quando você optou pelo estilo "rock"? Eu comecei cantando samba num estilo diferente, botando champanhe na feijoada, misturando samba com um coisinha e outra. Não dá para fazer a mesma coisa todo o tempo. Acho que tem que mesclar, enriquecer, ousar, criar. Quanto ao rock, tudo começou quando trabalhei na Madame Satã em São Paulo. Foi uma época que eu fiquei muito desesperada, quando perdi meu filho num acidente. Eu na verdade não tenho estilo, eu canto o que vier. Acho que estilo é uma coisa muito chata. O bom é o que vem, rock, bossa nova, samba, blues. Depende muito do momento, tem dia que estou para rock, tem dia que estou para seresta.

    Você ainda estuda saxofone alto? Parei de estudar depois de uma queda no Metropolitan, quando fraturei duas vértebras e rompi o tendão do braço. Fique impossibilitada de continuar, pois tenho que usar um apoio (colete) para que eu não vire as costas, curve-me. Adoro meu sax, ele está guardadinho.  

    Como está vendo o Brasil? Acho que o Brasil hoje está com cara de Brasil, o brasileiro está se sentindo mais orgulhoso de seu País. Todos os presidentes assumem que "comem uma costela dura". Aqui passam muitos "inhos" e "aõs". Temos que confiar no presidente Lula, ainda é muito cedo para cobrar. Ele entrou com apetite de transformar esse país, só que ele não tinha uma dimensão da coisa. Eu acredito no Lula, mas acho que nós temos que fazer a nossa parte.  

    O que mais admira no Brasil? Ele ser chamado de Brasil. 

    O que mais abomina? A palavra abominar.

    Qual é sua mensagem para fãs? Acreditem em mim, acreditem em Deus. E não me abandonem, por favor.

    Quais são teus projetos? Nunca projetei nada. Não estudo arquitetura nem engenharia. Deixo que as coisas aconteçam, vivo muito o agora, o amanhã só Deus é que sabe.

    Julho de 2003 Entrevista concedida ao editor do Bafafá, Ricardo Rabelo.



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