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  • Hércules Corrêa: O comunismo foi varrido pela história

    Agenda Bafafá em 22 de Maio de 2016    Informar erro
    Hércules Corrêa: O comunismo foi varrido pela história

    Ex-líder tecelão, ex-secretário geral da CGT durante o governo Jango, deputado Constituinte da Guanabara em 1960, Hércules Corrêa foi do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro durante quase trinta anos. Capixaba de Cachoeira de Itapemirim, veio para o Rio de Janeiro em 1942, onde participou ativamente dos acontecimentos políticos até o Golpe de 64. Cassado, viveu 10 anos na clandestinidade e cinco no exterior (Moscou, Bruxelas e Paris), de onde retornou com a anistia em 1979. Nesta entrevista ao Bafafá, Hércules Correa, que recentemente teve uma perna amputada em função de complicações decorrentes de diabetes, aciona metralhadora giratória e faz declarações surpreendentes: garante que o comunismo foi varrido pela história e que Leonel Brizola não se engajou de imediato na resistência ao Golpe de 64, pois acreditava que o regime militar fosse marcar eleições no ano seguinte. O ex-dirigente comunista faz também um balanço do quadro político nacional e internacional.

    Por quê o comunismo desmoronou de forma tão avassaladora, tão humilhante? Porque a realidade política e na minha opinião técnico-material da proposta de socialismo real se definhou, acabou. Você não se mantém quando a realidade não tem correspondência com seu projeto. A derrocada aconteceu em decorrência do processo de globalização econômica do mundo. Até eu que era considerado no PCB um eurocomunista, fiquei surpreso. Não foi só comigo que isso aconteceu. O Kissinger também ficou. Ele escreveu um artigo dizendo que jamais esperava que naquele momento, daquela forma, fosse desaparecer o regime soviético. Eu acho que a queda se deu porque o socialismo real, o sistema socialista que se dizia então, não primou por ingressar na modernização tecnológica. Para você ter uma idéia (eu morei três anos em Moscou), eles tinham o melhor aço para efeito de construir armas e ao mesmo tempo tinham a pior gilete do mundo, você para fazer a barba se arranhava todo. Outro dado: não era possível ter um mimeógrafo em casa, era crime na lei de segurança deles. Quando eu vi aquilo, eu disse: estamos mal! Como é que é isso? Eles desenvolveram tecnologia moderna para a defesa do Estado proletário, mas não aplicavam e nem desenvolveram tecnologia para o sistema produtivo. E o que o Estado alegava para não se modernizar? Que ia gerar desemprego e um poder operário não podia desempregar um operário. Isso acabou perdendo terreno na disputa contra o capitalismo. Acho que a situação do Brasil é a mesma. Aqui não se quer nada com a modernização! O país entrou na categoria de país em desenvolvimento durante o governo Getúlio Vargas, o estadista da industrialização, e ficou assim até hoje. Ano que vem vai fazer 50 anos que Getúlio atirou uma bala contra o peito. O Brasil não saiu da condição de país em desenvolvimento. A sua elite que ir para o grupo dos ricos em Paris mas não passa pois não se moderniza. Aqui quem faz modernização é o dinheiro do Estado, o capitalista privado não quer saber disso, ele quer que o Estado resolva tudo para ele, que a população pague tudo para ele. Este país, nem com Fernando Henrique Cardoso nem com o Lula, nem com um Fidel Castro, vai sair disso se não atentar para este problema.

    Existe algum país genuinamente comunista no mundo? O comunismo foi varrido pela história e pelo processo de evolução do mundo. Ele não tem base material. Eu sou um cidadão preocupado com isso, pois fiz política durante 45 anos. Eu me considero responsável. Quando houve a queda do Muro de Berlim, eu parei e perguntei: onde foi que eu errei? Fiquei de 90 a 95 relendo todas as obras que eu tinha estudado e trabalhado na política. Reli duas vezes O Capital. Fui descobrindo algumas coisas que eu não vou abordar aqui pois precisaria de outra entrevista (riso). Para onde caminhará Cuba sem Fidel? Veja o exemplo de Cuba que tem a preocupação com o social, a medicina, o ensino. Mas se o cara mijou fora do penico, fuzila! Isso é uma loucura! E na União Soviética não foi diferente. O que levou o Stalin a matar mais de dois terços do Comitê Central do Partido Comunista da época? A divergência sobre como conduzir a economia. No caso de Cuba, acho que vai depender muito mais do que acontecer na América Latina do que lá. Se deixar por conta deles, vão ter ainda alguns fuzilamentos. Aquilo ali virou um problema. Tanto que quem tá na lista para substituir o Fidel é o irmão dele. Como é que é? (riso) Isso não é possível! Ainda assim há em Cuba um despontar da economia privada (eles tiveram que privatizar os portos e outras estatais) com uma economia estatal. Vai chegar um momento que isso vai desandar. Acho que pode ser por um regime menos truculento na questão da liberdade e da democracia.

    A China fará a hegemonia mundial com os EUA? Acho bem difícil. A China está indo numa direção de saber explorar com toda a truculência interna, nas negociações mundiais, o seu potencial no mercado interno. Veja um exemplo: o mercado interno brasileiro é pujante mas quem domina e produz para abastecê-lo, quem faz a manutenção são empresas de capital estrangeiro. Vamos ter que continuar pedindo dinheiro emprestado porque não modernizamos a indústria do país. Na China, não aconteceu isso. O capital estrangeiro que está lá dentro entrou de forma negociada. Aqui não, estamos escravizados. O mercado interno está à disposição dessas empresas de capital estrangeiro e não se moderniza para disputar lá fora. Veja a questão da Alca: quem que precisa mais, os americanos ou os brasileiros? Quem precisa mais é o Brasil. O que o Brasil faz: apresenta uma proposta dele e da Argentina. Os Estados Unidos então fazem o contrário, estão negociando, retaliando com cada país da América Latina. Assim quando chega na Organização Mundial de Comércio, garante votação favorável. O Brasil não entende que os Estados Unidos têm esse poder. Eles não são obrigados a negociar o mercado deles conosco, podem negociar com os outros 40 países da América Latina. Na minha opinião, a diplomacia brasileira, que tem pessoas competentes, perdeu o rumo por causa da chamada cabeça nacionalista.

    Dizem que você ajudou a esconder Che Guevara de passagem pelo Brasil pouco antes de ser morto na Bolívia? Confere? Eu participei de algumas ações que eram para transitá-lo de São Paulo para a Bolívia. Eu tive com pessoas da equipe dele que não podia se exibir na época. Nós tomamos medidas para circular com ele sem que acontecesse algum desastre com o aparelho de repressão. Che tinha pessoal próprio para transportá-lo e o principal apoio não era do PCB, até porque nós divergíamos muito. Mas quem estava com ele sabia que para fazer aquele trânsito tinha que se entender conosco, nós tínhamos mais experiência, mais conhecimento.

    Qual foi o verdadeiro papel de Brizola na resistência ao golpe de 64? Brizola quanto mais vive e eu vivo, fica difícil interpretá-lo. Ele é uma figura fenomenal, muito boa mas é um dos políticos brasileiros que do ponto de vista do pensamento, em termos de nacionalismo, Estado, ficou na década de 50. Na ocasião do golpe, o comando do III Exército, novamente se reuniu com o Brizola em Porto Alegre e quis fazer um outro levante. O Brizola não quis. Isso porque daí a um ano achava que iam ser convocadas eleições e ele poderia disputar e ganhar pois não seria mais parente de Jango. A partir disso, não houve nenhuma resistência, apesar de nós aqui no Rio termos mandado um navio da Petrobras (foi o único navio que circulou no golpe) carregado de petróleo para a resistência no sul. O navio chegou a encostar e foi preso. Isso para mim. Acho que foi um equívoco, Brizola calculou errado. Esse é o grande problema dele. O Brizola tinha equívocos na questão da resistência ao Golpe de 64, como tinham o Prestes e o Carlos Lacerda. Os três, por volta de julho de 64, diziam que o golpe não duraria um ano, que o Castelo Branco ia convocar eleições. Já eu tinha a convicção de que não seria uma situação passageira. Prestes dizia que o golpe era uma chantagem da burguesia nacionalista no poder. Não era! Você tinha um problema na economia do país que até o Juscelino não havia conseguido resolver. Depois vieram os militares e não resolveram. Acho que até o Lula não vai resolver pois não é super-homem, não depende só dele.

    Cuba mandou dinheiro para a luta armada? Mandou. O grupo do Brizola recebeu dinheiro, o do Marighela. A nossa divergência com Cuba era essa. Os dois únicos partidos comunistas na América do Sul que não romperam relação com o PCB foram o chileno e o argentino, pois todos os demais eram favoráveis à luta armada, nós não. Para nós estava claro que aquilo era um tipo de poder formatado que só poderia retroagir com muita ação política, de aliança de massa. Já a luta armada era a justificativa usada para uma repressão violenta. Veja o milagre brasileiro que acontecia enquanto comia a pancadaria.

    Porque Luís Carlos Prestes foi expulso do PCB? Prestes nunca foi expulso do PCB, ele largou a legenda. Isso porque não foi reeleito secretário geral, único cargo que ele achava que poderia ocupar no partido. Ele não foi reconduzido ao cargo pois estava em franca divergência com a direção.

    O que achou da ascensão de Lula e o PT ao poder? Isso é uma das boas coisas que aconteceram na história do Brasil. Eu torço e faço tudo ao meu alcance para que seu governo dê certo. Não existiu, com a exceção da Polônia, um operário chefiando um governo. Eu entendo que o Brasil possível é esse. O PT levou 22 anos criticando Deus e o mundo mas ao chegar ao governo viu que não era possível aquilo que estava dizendo. A tragédia do PT é essa, prometer o que não podia fazer. Uma parte das lideranças do partido, o próprio Lula já entendeu isso, mas a massa de militantes e alguns dirigentes importantes não. Este país tem suas leis próprias de desenvolvimento, você tem que ter armas políticas, projetos e alianças para mudar. Não dá para mudar o que está aí com o discurso bravata. O PT não pode ser arrogante, praticar a arrogância do saber do Fernando Henrique Cardoso, precisa ter modéstia. O governo brasileiro não se dá conta de que tem coisas que só vão ser resolvidas em parceria mundiais. Exemplo: o espetáculo do crescimento econômico. Ele nunca vai acontecer se não for em parceria. A mesma coisa para o desemprego.

    Está animado com o destino do país? Eu acho que tem solução, eu acredito num projeto nacional-patriótico. Só estou preocupado porque os que dirigem o país dão a impressão de que não entenderam isso. O Brasil tem 20% dos recursos de biodiversidade e é por aí que vai conseguir entrar na globalização econômica. O mundo precisa de comida e remédios, nós temos isso.

    Dezembro 2003, entrevista concedida a Ricardo Rabelo, editor do Jornal Bafafá.



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      • Comentário do post Ricardo Imbassahy:
        Tive o desprazer de conviver profissionalmente com Hércules Correa Foi presidente da CTC-RJ, indicado por Moreira Franco - então governador do estado. Ao assumir promoveu uma caçada nos quadros da CTC de quem era ligado a Brizola ou ainda do governo Chagas Freitas, independente da qualificação e contribuição no aspecto técnico a sua atividade na empresa. Em substituição indicava gente do partido. Se fossem pelo menos técnicos não teria problema, mas não, tudo indicação política de pessoa sem formação para as funções a serem ocupadas, o que ocasionou o início do desmonte da empresa. Ou seja, a CTC-RJ passou a ser cabide de emprego politico da esquerda. Fechou um elevador para seu único e exclusivo uso, exigia que fosse chamado de "doutor" Hércules... Esse era Hércules Corrêa, pelo menos o que conheci quanto a frente da CTC-RJ.


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