Jair Ventura Filho, o Jairzinho, filho único de uma empregada doméstica, encontrou no futebol consagração e respeito. Ele é apontado como um dos 100 maiores jogadores de todos os tempos. Pela seleção brasileira, como atacante, jogou 107 partidas e marcou 44 gols, tendo disputado as Copas do Mundo de 66 na Inglaterra e a de 70 no México. Até hoje é o único jogador do mundo a marcar gols em todos os jogos de uma Copa (70).
Em entrevista ao Bafafá, Jairzinho fala sobre o início de carreira, times que jogou e seu excepcional desempenho ao lado de craques como Pelé, Tostão, Gerson e Rivelino. Ele revela que em 66, atuando pelo Botafogo, sofreu uma fratura no pé que quase o tirou do futebol. “Fui o primeiro jogador do mundo a fazer enxerto ósseo e levei quase dois anos para voltar a jogar”. Questionando se tem algum sonho não titubeia: “O meu sonho já foi realizado”.
Como foram a sua infância e juventude?
Minha infância foi vivida no bairro de Botafogo na Rua General Severiano. Sou filho único, perdi meu pai com dois anos de idade e minha mãe Dolores teve a função de ser pai, mãe e irmão. Tinha uma vida como qualquer criança de classe pobre, mamãe era empregada e trabalhava numa loja. Mas, dava para se alimentar. Estudei até o segundo grau, mas rapidamente descobri a vocação de jogador de futebol, esporte que eu praticava sempre, principalmente nas férias escolares.
Quando descobriu a vocação pela bola?
Veio a partir dos nove anos nas peladas de rua. Escolhíamos no par ou ímpar a posição de jogo. Aos 12 anos era convidado para jogar ao lado do campo do Botafogo onde é a Universidade Federal, atrás do antigo Canecão. As pessoas elogiavam meu desempenho.
Confere que começou como gandula do Botafogo?
Isso é mentira (riso). O Botafogo nunca teve gandula. Como morava ao lado do campo do Botafogo ia sempre assistir os treinos lá. O Gilson e o Oswaldo, os dois goleiros, gostavam de ficar chutando a bola pra gente. Se fui gandula, foi um gandula perfeito para chegar onde cheguei, né?
No juvenil foi campeão três vezes?
Comecei a jogar no juvenil do Botafogo em 61 onde fui campeão no mesmo ano e em 62 e 63. Depois disputei o Pan-americano em São Paulo pela seleção juvenil do Brasil com 17 anos. Nós ganhamos e eu fui muito bem. Ao retornar era chamado para jogar no time principal do Botafogo ao lado de Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagallo. Acabei substituindo o Quaretinha como titular.
Foi um passo para chegar à seleção?
Em 64 disputei a Taça das Nações pela seleção quando a Argentina foi campeã e nós ficamos em segundo. Só joguei a terceira partida, no lugar do Garrincha, fiz um gol e ainda dei o passe para o segundo. Fui titular nos anos seguintes até 66 quando disputei a Copa do Mundo na Inglaterra jogando as três partidas, até sermos eliminados. No mesmo ano vivi um pesadelo quando fraturei o pé no quarto e o quinto metatarsiano. Como não consolidava fui o primeiro jogador do mundo a fazer enxerto ósseo e levei quase dois anos para voltar a jogar. Acabei voltando em 67 fazendo sucesso como atacante jogando na ponta de lança. O interessante é que voltei igual ou melhor, quando muitos acreditavam que eu não iria voltar.
E a convocação para a seleção de 70?
Em 68, excursionamos na América do Sul, Europa e África e em 69 disputei as eliminatórias para a Copa de 70. Joguei todas as partidas e fui um dos artilheiros junto com o Tostão e o Pelé. Acabamos nos classificando e veio a minha coroação.
E o apelido “Furacão da Copa”?
Em 70, eu recebi o título de Furacão da Copa pelo grande desempenho na competição e até hoje sou o único jogador do mundo que fez gol em todos os jogos de uma Copa do Mundo. Foram seis jogos e eu fiz sete gols com a camisa número 7. Foi uma consagração, ganhamos definitivamente a taça Jules Rimet ao vencer três vezes a Copa do Mundo.
O que mais te marcou na Copa de 70?
Foi a minha grande forma. Fiz gols maravilhosos desde os dois primeiros contra a Tchecoslováquia até o último contra a Itália. Um importante detalhe é que fiz gols que deram desânimo aos adversários. Contra a Tchecoslováquia estava 2 X 1 para o Brasil e fiz o terceiro e o quarto gol. Contra a Inglaterra estava empatado e fiz 1 X 0, contra a Romênia fiz 3 X 1, contra o Peru fiz 3 X 1 também, contra o Uruguai fiz 2 X 1 e finalmente na decisão contra a Itália fiz 3 X 1 que deu desânimo ao adversário. Aí eles já não tinham chance de recuperação ainda mais que fizemos 4 X 1. Outro fato que destaco é que o Zagallo é até hoje o único treinador do mundo a escalar quatro camisas 10 para jogar junto uma Copa do Mundo. O Pelé do Santos, Rivelino do Corinthians, Jairzinho do Botafogo e Gerson do São Paulo. Nessa época para jogar com a camisa 10 em seu clube o cara tinha que ser a referência do time. Zagallo teve essa visão e ousadia fabulosa que acabou sendo o sucesso da Copa de 70.
Na época deu para ganhar um dinheiro ou não?
Isso é uma particularidade da pessoa. Em todo segmento profissional tem gente que ganha e gente que não ganha. O mais importante é que estou vivendo com saúde. Isto é mais importante que ter dinheiro.
Onde jogou depois da Copa?
Fiquei no Botafogo até 1974. Depois joguei um ano e meio no Olimpique de Marselha onde fui vice-campeão francês. Ainda em 75 fui para o Cruzeiro sendo tri-campeão mineiro e pela primeira vez campeão da Taça Libertadores. Depois fui para a Venezuela, depois Bolívia e finalmente retornei ao Botafogo em 81. Encerrei minha carreira no Equador no ano seguinte no Nove de Outubro de Guayaquil.
Qual é o balanço que faz da carreira?
Fui um jogador bem sucedido que conquistou muitos títulos sempre sendo titular nas equipes que atuei. Nunca fiquei na reserva e nem sei o que é isso. Tenho alegria de ser reconhecido como um dos maiores jogadores do mundo e estou incluído ente os 100 maiores jogadores de todos os tempos.
Quais são suas atividades no momento?
Sou treinador profissional e tenho a “Fabrica de Talentos Furacão”, localizada em Manguinhos. São 350 jovens de 10 a 19 anos. Treinamos duas vezes por semana. Já temos cinco deles bem encaminhados para grandes clubes.
Confere que tentou a política?
Atendi ao pedido do ministro dos esportes Orlando Silva. Mas, tive problema no registro da candidatura a vereador que acabou impugnada.
O que está achando do governo Dilma?
Ainda é cedo para analisar. Todo governo no início está em ajustes, cada governante tem um jeito de governar. O Lula pouco a pouco foi se ajeitando e adquirindo estabilidade. Temos de dar crédito à Dilma até o fim do ano para avaliarmos. Vamos respeitar e procurar dar a ela condições de governo para que o Brasil continue sendo essa força mundial.
Qual conselho daria para quem está começando no futebol?
Primeiro ter disciplina e uma boa alimentação. O jovem tem de procurar qual é a sua melhor posição em campo e o que ela requer.
O que pode ser feito para manter os jovens jogadores no Brasil?
Eu sou contra a saída dos jovens jogadores. Faço um apelo à CBF para que não permita a transferência de jogadores que vão disputar a Copa do Mundo no Brasil. Para uma seleção ser forte os jogadores precisam se conhecer. Em 70, ninguém jogava fora do País. Por isso é que houve entrosamento total.
Tem algum sonho?
O meu sonho já foi realizado. O que mais poderia ter? Sou consagrado mundialmente.
Julho 2011