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  • João Ubaldo Ribeiro:

    Agenda Bafafá em 22 de Maio de 2016    Informar erro
    João Ubaldo Ribeiro nasceu na Ilha de Itaparica, Bahia, em 23 de janeiro de 1941, e aos dois meses de idade muda-se para Aracajú, Sergipe, onde passou a infância. Em 1948, ingressa no Instituto Ipiranga, onde já desperta para as letras, devorando livros infantis, sobretudo os de Monteiro Lobato. Pouco tempo depois vai morar em Salvador. Em 1956 estuda na mesma escola que Glauber Rocha por quem nutriu uma grande amizade. Sua estréia no jornalismo acontece em 1957, quando vai trabalhar como repórter do Jornal da Bahia e posteriormente na Tribuna da Bahia, aonde chegaria a exercer o posto de editor-chefe. Em 1958 decide optar pelo direito na Universidade Federal da Bahia, chegando a se formar quatro anos depois. Apesar de nunca ter exercido a profissão de advogado, foi bom aluno e admirador de clássicos de Rabelais, Shakespeare, Joyce, Faulkner, Swift, Lewis Carroll, Cervantes, Homero, e, entre os brasileiros, Graciliano Ramos e Jorge de Lima.  Em 1963 escreve seu primeiro romance, "Setembro não faz sentido" e dois anos depois vai lecionar Ciências Políticas na Universidade Federal da Bahia. A carreira jornalística acaba falando mais alto e decide se dedicar a ela. Nos intervalos escreve mais livros (de um total de 22 obras) entre elas o romance "Sargento Getúlio", ganhador do Prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, em 1972. Em 1982 inicia o romance "Viva o povo brasileiro", que se passa na Ilha de Itaparica e percorre quatro séculos da história do País. A obra vira tema da Escola de Samba Império da Tijuca no carnaval de 1987. Pai de quatro filhos, de dois casamentos, Emília, Manuela, Bento e Francisca, só vem para o Rio em 1991, onde fixa residência. Desde então escreve para o jornal O Globo onde está até hoje. Em 1993, é eleito para a cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras, na vaga aberta com a morte do jornalista Carlos Castello Branco. Nesta entrevista exclusiva ao Bafafá, João Ubaldo Ribeiro fala sobre literatura, ABL, utopias e muito mais.  Como é conviver com a formalidade da Academia Brasileira de Letras? Não há realmente tanta formalidade na Academia. Ela se restringe às ocasiões mais ou menos solenes, incluindo as sessões das quintas-feiras. Embora frequentemente se crie clima para brincadeiras, piadas. Os acadêmicos não são pessoas formais, caturras. Pelo contrário, até mesmo os desafetos na Academia parecem que esquecem. Reina até uma harmonia. Eu sou muito pouco assíduo, não porque seja desagradável, pelo contrário. Eu tenho as razões mais prosaicas para não ir. A primeira é que eu moro no Leblon e considero Ipanema interurbano, acho longe (riso). Segundo: é costume, embora não seja uma regra, comparecer de paletó e gravata. Terceiro: é que os encontros acontecem depois do almoço, quando eu tenho costume de dormir. Eu acordo quatro horas da manhã, trabalho até uma hora da tarde, almoço e vou dormir. Depois retomo meu trabalho. O chá das cinco da ABL não é às cinco, é mais ou menos às três horas da tarde. Como sou nordestino não tomo chá, que para mim é remédio (riso). Outra coisa que eu gostaria de dizer é que eu sou uma pessoa simples, que gosta de sandália e bermuda.  O Arnaldo Jabor chamou os fãs de chatos. O que acha dos fãs? De modo geral não. O que é chato é a taxa de bêbados que abordam a gente na rua. Um sujeito, a depender do grau de bebedeira e de seu temperamento, pode ficar extraordinariamente chato. Eu sou vítima constante disso. Apesar de ter deixado de beber há alguns anos, continuo a frequentar botecos. É quando saio da minha clausura e encontro os amigos, fico atualizado com as piadas, os problemas, com o mundo. Quando saio não é infrequente me deparar com bêbados. Aqui no Leblon, eu sou perseguido por dois ou três que eu procuro evitar, pois só tenho a perder. Para começar porque não gosto de briga. Depois porque se me envolver numa briga (embora possa apanhar porque não sei brigar) ainda podem dizer que João Ubaldo é agressor, etc. Eu já sentei aqui no Diagonal uma vez para comer e uma senhora me abordou com uma voz levemente embriagada dizendo “eu tenho horror de baiano. Para mim, baiano e merda é a mesma coisa. Não suporto nem ouvir a voz deles”. Eu fiquei pasmo, com meu garfo no ar. E completou: “mas eu gosto de você, não consigo entender. Você não podia ser baiano”. E respondi: “tá, muito obrigado”, (riso). Ela ficou falando isso a noite inteira, até eu ir embora. Certamente tive uma leve indigestão essa noite. De um modo geral, as pessoas são carinhosas, querem se comunicar, embora idealizem a gente e esperam de nós que estejamos num momento idealizado. Ora, eu posso estar com dor de dente, ter acabado de brigar com a minha mulher ou estar com um pepino para resolver. Nem sempre eu estou disponível, de bom humor ou como sou idealizado. Já houve gente que emburrou comigo porque discordou da minha cara (riso). E reage de uma forma como se eu não fosse gente. É esquisito, difícil definir. Eu não tenho obrigação de dar exemplo a ninguém, nem me comportar como uma pessoa que tem responsabilidade perante o público. A única responsabilidade que tenho é sobre o texto que escrevo e com meus leitores.  O que é melhor: um chope no Jobi ou o chá das cinco da ABL? Bom, eu nunca fui chopista e não sou jobinista (riso). Não tenho o hábito de frequentar o Jobi, tive lá umas duas ou três vezes. Eu embora não beba mais, era whiskista.  Como está vendo a literatura contemporânea? Eu tenho tanta coisa para fazer que não me sobra muito tempo. Você não sabe como eu me martirizo por não ter lido toda a dramaturgia grega. Eu não li a obra de ShakespeareSe tivesse que ler agora não escrevia. Eu leio muito pouco literatura contemporânea. Sigo o conselho do meu pai que dizia “não fale de oficial do mesmo ofício”. Eu não sei se ele tinha razão ou não, mas eu sigo. Se você me pergunta sobre um escritor novo, às vezes eu só dei uma cheiradinha no livro dele na livraria. Dos autores nacionais, eu não falo dos vivos porque posso esquecer um grande amigo que jamais irá me perdoar. Eu gosto de uma porção de escritores brasileiros e podia ficar aqui recitando nomes de escritores que tiveram alguma importância na minha formação literária.  Porque não escreve sobre o Rio de Janeiro? Eu não sou carioca, embora seja cidadão da cidade do Rio de Janeiro. Vivo aqui há 17 anos, pago meus impostos, voto aqui. Mas não vivi a história do Rio, não tenho história escolar na cidade, não tenho amigos de infância. Por isso mesmo é bem possível que nunca escreva uma obra de ficção carioca. Eu vou escrever carioquês? Nunca. Eu posso me iludir querendo isso. O que eu posso fazer é uma crônica, para esse gasto dá. Para segurar uma obra literária carioca, que esteja de acordo com meus padrões, acho que não faço. Conheço pessimamente o Rio de Janeiro, o meu território é o Leblon.   O governo Lula é neoliberal? Eu diria que o governo Lula não é nada, é inclassificável. Ele próprio diz isso, que não sabe se é de esquerda. Acho que ele não tem noção do que é direita ou esquerda. O governo dele para mim é desastroso.  Você assiste televisão? Muito pouco. Eu insisto até em responder a esta pergunta porque nas vezes que eu disse que não assisto TV, muita gente se ofendeu com isso interpretando de forma pejorativa. Eu não assisto porque saiu da minha rotina. Ainda assim, de vez em quando assisto alguma coisa, mas desligo porque tem muito lixo. Mas também não sei das coisas boas, entendeu?  Como está vendo a evolução tecnológica? Nós vivemos numa época de vertiginosa velocidade de transformação em torno de nós, que deixa a maioria das pessoas numa tensão permanente. Tem gente que busca o isolamento. Eu conheço várias pessoas da minha idade para cima ou até mais moços que não querem nem saber que se fale em computador. Quando entrei em jornal, aos 17 anos, cheguei a conhecer jornalistas mais velhos que tiveram poucas mudanças tecnológicas ao longo de sua profissão. O máximo que acontecia era a mudança de máquina de escrever. E ainda assim tinha altas queixas: “eu queria minha Remington de volta, minha Olivetti não vale nada”, diziam. O sujeito passava a carreira inteira tendo apenas que se acostumar a uma máquina nova duas vezes na carreira. Hoje ele tem que aprender um programa de computador por semestre praticamente (riso). É uma coisa de maluco. Quando você tira da caixa seu computador último modelo, vem o seu vizinho e diz: “você comprou esta coisa antiga”, (riso). Ainda assim, eu sou um usuário de computador relativamente sofisticado. Apesar de eles terem um comportamento, tenta a pessoa a pensar que existe uma personalidade por trás daquilo, alguma coisa de diabólico dentro daquela máquina. Ao contrário do que se pensa, eu sou um dos primeiros escritores brasileiros a usar computador. Foi na Copa de 86 no México, trabalhando para O Globo. Eles me disponibilizaram um pequeno computador que só dava oito linhas de texto, era altamente primitivo. Quando voltei da Copa, comprei um Apple, um clone de computador americano que tinha 148 megas. O programa consumia 120 e me sobrava vinte e poucos para trabalhar (riso).  O que está preparando para seus leitores? Eu estou tentando escrever um romance há cerca de três anos, mas não consigo. Estou chegando à conclusão que tenho que me esconder para isso. Chega gente de fora o tempo todo e eu tenho que atender. São pessoas queridas e não quero ofendê-las ou magoá-las. Tenho solicitações de todo tipo e nem sempre consigo atender a todos. Você não pode imaginar o que recebo de convites, pedidos de entrevistas. O próprio Bafafá eu protelei, mesmo sabendo que o pessoal está fazendo um trabalho interessante (riso). Sobre o livro eu não posso dizer nada. Eu resolvi seguir o conselho do Rubens Fonseca de não falar nada. Eu era o contrário, mostrava tudo. Sendo mais velho que eu, Rubens me aconselhou a ficar calado durante a fase de criação. Cheguei à conclusão que ele tem razão.  Qual é a sua obra que mais gosta? Nenhuma em especial, gosto de todas. É como um filho. Às vezes gosto mais de um, depois mais de outro. Cada livro que você escreve, é uma pessoa diferente. Para cada um, levo um a dois anos.  Qual a sua utopia? Eu queria um mundo de paz, onde problemas grotescos, ridículos não tenham vez. A minha utopia é podermos dividir as benesses que a terra pode oferecer a todos nós de uma forma menos primitiva. Nós ainda somos primitivos, uma espécie arrogante que acha que é proprietária do planeta. Eu tenho a convicção que a espécie humana não sobreviverá pelo menos da forma que a gente conhece. Abril 2006 Entrevista concedida a Ricardo Rabelo, editor do Bafafá On Line
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