MAIS COISAS >> Entrevistas

  • Julio Bressane: “O cinema é um instrumento de transformação”

    Agenda Bafafá em 03 de Maio de 2016    Informar erro
    Julio Eduardo Bressane de Azevedo é um dos cineastas com uma das produções mais constantes no Brasil. Desde que começou na sétima arte em 1967, já dirigiu 25 longas-metragens. Sempre com orçamentos apertados e roteiros complexos, que fogem completamente do padrão “dejá vu” do cinema. Carioca, pai de duas filhas e com um neto, Bressane é cultuado no Brasil e no exterior onde é apontado como referência de um cinema profundamente ligado com o conteúdo. Entender a obra Bressaniana é um exercício que desafia o intelecto.

    Em seu mais recente trabalho Filme de Amor, em cartaz nos cinemas, Julio Bressane passeia pela mitologia de Vênus, a Deusa do Amor. Premiado como melhor filme, melhor fotografia e melhor trilha sonora no Festival de Brasília do ano passado, o filme aborda as manifestações do desejo, da Idade Média à Modernidade com base em estudos do historiador de arte alemão Aby Waburg (1866-1929).

    Em entrevista exclusiva ao Bafafá, Julio Bressane revela sua visão pessoal do cinema, suas aflições, seus méritos e suas certezas. “Não é uma força que você domina, é uma força que domina você”, garante.

    Como começou no cinema? Eu sou uma pessoa constituída e criada pelo mito do cinema. Quando garoto, aos 11 anos, tive um acaso, quando minha mãe me levou numa viagem aos Estados Unidos e me deu uma câmera de filmar 16 MM e um projetor. Comecei a filmar, usando aquilo como um brinquedo, um jogo de criança que aos poucos se transformou nesta coisa que é o cinema. Era um estranho jogo, pois eu de alguma maneira não me via. A idéia do cinema veio muito mais tarde, as coisas comigo demoraram muito. Procurei saber como se faziam filmes, fui ser assistente de direção de diretores importantes como Walter Lima Jr. e o Fernando Campos. Aprendi fazendo filmes. Nunca fiz curso. Aprendi cinema vendo os outros fazerem e também vendo muitos filmes. Demorei  para descobrir o cinema. Precisei fazer 20 longas-metragens para aprender, para descobrir o que era, coisa que até hoje eu não sei. Vou fazendo, procurando satisfazer um prazer, um desejo que tenho que é a atração, que a exigência do cinema exerce sobre mim. Eu vejo o cinema como o organismo intelectual que considero demasiadamente sensível e que nesse impulso de sensibilidade, o seu movimento é atravessar todas as disciplinas, todas as artes, por dentro de sua vida. O cinema é um instrumento radical de transformação, uma exigência muito grande de uma coisa que não existe mais: tempo para isso. Hoje é o triunfo da civilização, da civilização do trabalho, onde sobra pouco tempo para sua necessidade, para o preenchimento de sua curiosidade destas disciplinas, da sua existência. O tempo é insuficiente, mesmo quando usado. O cinema junta tecnologia do futuro mas exige um homem medieval. E é uma maneira radical de sair de si, de transformar, de se autotransformar. Eu sempre me confrontei com o cinema no sentido dele ser um radical instrumento de visão de mundo, de autotransformação. Faço filmes para descobrir o que é aquilo. Se soubesse o que é eu não fazia, porque perdi o desejo, o prazer de fazer e de descobrir o que é. Você tem uma necessidade de um impulso que você não sabe o que é. Não é uma força que você domina, é uma força que domina você. Eu faço cinema de improviso, é isso aí.

    Qual é sua escola de cinema? Minha escola de cinema é a paixão e uma leitura incessante dos filmes, obsessiva pelo desdobramento da imagem. Uma escola do desejo, da observação. Sou influenciado por tudo. Meu cuidado é fazer essa seleção, pois tenho um espírito que é sensível a tudo. Tenho ligação com centenas de milhares de imagens produzidas por mais diversos tipos de diretores.

    Sua passagem por Londres, em 1970, coincidiu com o exílio do Caetano e do Gil. Vocês tiveram convivência lá? Tivemos uma convivência muito intensa e muito íntima. Foi um momento de bastante descoberta. Gostaria de ter ficado mais, ao invés de três anos, trinta anos.

    Como interpreta o cinema praticado pelo neo-realismo italiano? O neo-realismo italiano, independente da temática, foi um movimento que, tendo à frente Rosselini, renovou uma escala de produção, de concepção do filme, sobretudo na maneira de produzir um filme. Foi um movimento renovador que trouxe com ele uma coisa muito importante que foi o signo do arcaico, a sobrevivência de alguns signos arcaicos. Esse é o lado forte do neo-realismo para mim, o formalismo com esse elemento do arcaico.

    Você acha que Ditadura ceifou uma geração de cineastas? Uma Ditadura sempre ceifa alguma coisa. No Brasil, ela deu a muitos cineastas muitas oportunidades que nenhuma outra ditadura no mundo deu a ninguém: uma mordomia e uma ascensão econômica e social invejável. Foi criado um centro de produção e distribuição de filmes chamado Embrafilme e isso promoveu muita coisa no cinema brasileiro.

    O cinema nacional está em ascensão? Sempre e não podia ser de outra maneira, num país com um movimento de renovação como o Brasil. Eu estou procurando entender alguns filmes, o sentido deles. Estou interessado em compreender, gostar e sentir algum sentido nessa produção que está sendo feita.

    Você não acha que o Cinema Nacional peca por explorar demais dramas sociais em detrimento da diversão? Não creio, acho que não. Não são duas coisas separadas, nem drama social é um gênero. O cinema é uma coisa que está acima dos dramas e tem como princípio ser feito para divertir. É preciso entender a extensão do que quer dizer isso, se divertir. Isso é uma discussão pueril, não quer dizer nada, não é uma dicotomia nem esse é o problema.

    Verdade que você fez vários filmes na sua própria casa? Fiz vários, uns três ou quatro. Não tinha dinheiro, não tinha produção, mas tinha uma casa e uma câmera (risos).

    Confere que você filmou Matou a família e foi ao Cinema em 12 dias? Não me lembro. Na ocasião eram dois filmes numa produção só: Matou a família e foi ao cinema e O Anjo Nasceu.

    O filme Dias de Nietzsche em Turim reconstitui os meses vividos pelo filósofo Friedrich Nietzsche na cidade italiana (entre abril de 1888 a janeiro de 1889). Qual foi sua inspiração para filmar parte da vida de um pensador estrangeiro? Sobretudo a paixão que minha mulher Rosa Dias tem pelo Nietzsche, como estudiosa, já tendo inclusive publicado livros sobre ele. Para ela essa passagem dele por Turim era um momento de interesse. Fomos a Turim umas 10 vezes para preparar o filme. Ela me orientou e fiz uma leitura mais especializada, coisa que demorou uns sete anos. Ela fez então o roteiro, eu refiz algumas partes e procurei fazer alguma coisa que agradasse a ela, pelo amor que ela tem pelo Nietzsche. Ela gostou, mas o mais importante foi que eu me empenhei para que ela gostasse. O meu desejo era mostrar o esforço de ficar sobre si. Há coisas que estão em si e há outras sobre si. Essas outras são admiráveis, as que estão sobre você. Em arte o que conta é isso, o que está fora de si. Isso é um momento extraordinário num homem extraordinário como o Nietzsche.

    E sobre Filme de Amor,  o que você preparou para o público? Filme de Amor é a sobrevivência de uma fábula antiga, o mito das três graças, a trindade projetada pela Vênus, a Deusa do Amor. Uma mulher sai das espumas do mar na ponta dos pés e se junta a um homem e uma mulher para se embriagar e amar. Esse filme foi um jogo de ensaio desse projeto que estou começando a preparar agora que é a minha versão do mito de Cleópatra. Filme de Amor foi uma espécie de experimento.

    O que está achando do governo Lula? Eu precisava estar dentro do governo para responder. Não tenho condições, nem elementos para julgar o governo Lula, só sei o que sai nos jornais. Não estou debruçado sobre isso e não posso fazer uma avaliação irresponsável, irracional.

    Junho de 2004

    Entrevista concedida a Ricardo Rabelo



    • MAIS COISAS QUE PODEM TE INTERESSAR

      Sady Bianchin, secretário de cultura de Maricá: “A cultura é uma economia infinita”
      Saiba Mais
      Exclusivo: Pesquisadora Clarisa Palatnik defendo uso de uma única vacina contra a Covid-19
      Saiba Mais
      Roberto Medronho: “A Universidade é um órgão de Estado, não de governantes”
      Saiba Mais


    • COMENTE AQUI

      código captcha

      O QUE ANDAM FALANDO DISSO:


      • Seja o primeiro a comentar este post

DIVULGAÇÃO