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  • Nelson Pereira dos Santos fala do Cinema Novo

    Agenda Bafafá em 02 de Maio de 2016    Informar erro
    Nascido em São Paulo, no bairro do Brás em 22 de outubro de 1928 e criado no Bixiga, Nelson Pereira dos Santos só conheceu o Rio de Janeiro aos 20 anos. Filho do alfaiate Antonio Pereira dos Santos e da dona de casa Angelina Pereira dos Santos - filha de italianos - seu destino parecia estar traçado para a advocacia. Para isso estudou e se formou na Faculdade de Direito da USP, onde exerceu intensa atividade política. Paralelamente, trabalhou como revisor no Diário da Noite em São Paulo, função que exerceria anos depois no Diário Carioca e no Jornal do Brasil, onde ficou dez anos.

    Autodidata em cinema - nunca chegou a estudar o ofício - começou a atividade em 1950 com o curta Juventude e no ano seguinte estreava como assistente de direção no filme O Saci, de Rodolfo Nanni. Em 1955, aos 27 anos, lançava seu primeiro longa Rio 40 graus, sucesso de público e crítica. Ao longo de 52 anos de carreira, Nelson Pereira dos Santos dirigiu 17 longas, entre eles Vidas Secas, Azyllo Muito Louco, Tenda dos Milagres, Memórias do Cárcere, Jubiabá, assim como 16 curtas e inúmeros programas de televisão. No mais recente levantamento realizado pela Cinemateca Brasileira entre críticos e estudiosos do cinema nacional, Vidas Secas ocupa o segundo lugar entre os filmes mais significativos da história do cinema brasileiro, Memórias do Cárcere, o sexto lugar e Rio 40 graus, o nono lugar.

    Torcedor do Flamengo, pai de quatro filhos e avô de 5 netos, Nelson foi ainda professor fundador do curso de cinema da UNB (o primeiro do Brasil) e da UFF. Lecionou ainda na UCLA - Universidade Califórnia Los Angeles e na Universidade de Colúmbia em Nova Iorque e é também membro do Conselho Superior da Escola de Cinema de Havana.

    Numa descontraída entrevista ao Bafafá, Nelson estava acompanhado da cantora Miúcha que se deleitou com as histórias do amigo, entre elas que parou de ler jornais e ver televisão.

    Para quem estudou direito, virar cineasta deve ter sido uma virada, não? A Faculdade de Direito de São Paulo tradicionalmente é o berço dos literatos, juristas, onde passaram Álvaro de Azevedo, Castro Alves, Fagundes Varela. Eu fiquei o tempo todo na escola fazendo política, assistia poucas aulas. Me formei a duras penas! O professor de Direito Processual Civil, a matéria mais complexa do curso, que me aprovou por último, me deu a média que eu precisava com a condição de eu prometer a ele que eu não iria advogar, fazer concurso para juiz de direito (risos), promotor público e nem para delegado (risos). Eu jurei a ele que não ia fazer nada disso!

    Como veio parar no Rio? Me encantei com o Rio em 1948, quando vim pela primeira vez participar do Congresso da UNE (eu era do diretório acadêmico da Faculdade de Direito da USP). Me encantei tanto que o Congresso que é bom, nada ! (risos). Em 1952, vim morar na casa do roteirista de cinema Alinor Azevedo, no Grajaú. Quem me trouxe para cá foi o Rui Santos e o Alex Vianna, que fizeram parte da equipe do filme O Saci. Vim terminar filme Agulha no Palheiro, como assistente do diretor Alex Vianna. Foi quando escrevi o roteiro do Rio 40 graus.

    Você é chamado por alguns como o pai do Cinema Novo, como você vê essa paternidade? Sempre rejeitei essa paternidade. Não sou pai do Cinema Novo. Essa história é porque os mais novos queriam me tirar da competição com as gatas (risos). Então diziam “ele é o pai e elas saiam fora”. Isso foi uma brincadeira que fizeram comigo, alguém levou a sério e saiu em revistas e jornais. O Glauber é que inventou isso. Ele era um “polemista”. O que é afinal o Cinema Novo? É a presença do Glauber no Rio de Janeiro. Quando ele estava aqui, o Cinema Novo acontecia porque ou ele tinha um filme ou um artigo no Jornal do Brasil que balançava a cabeça de todo mundo. A questão é que eu aconteci antes do Cinema Novo. Quando ele surgiu eu estava no meu 5º filme. Na verdade, eu fui cooptado pelo Cinema Novo, eu já tinha meu estilo, meu caminho.

    Seu início de carreira foi influenciado pelo neo-realismo do cinema italiano que tinha temática social? Durante o Estado Novo, até o final da 2ª Guerra Mundial, minha dieta cultural era o cinema americano. Tudo era proibido, até os cineclubes. Em 1945, começa a aparecer o cinema europeu, alguns filmes franceses e muitos italianos já que a colônia italiana era fortíssima. O cinema italiano, durante o fascismo, era tão hollywoodiano como Hollywood. Foi quando surgiu o neo-realismo. Se você for examinar estes filmes você vai ver que abordam a conseqüência da guerra e a destruição da família, do rompimento dos códigos morais. O que há de mais importante nele é que não foi uma lição apenas do plano da linguagem mas também para o Brasil, a Índia, o México e os cinemas que estavam começando a se firmar. Foi uma lição de produção. Filmar na rua, eliminar o estúdio, eliminar as grandes estrelas, filmar o próprio povo, longe das grandes finanças das produções de Hollywood, que a Vera Cruz tentou reproduzir em São Paulo. Não é a toa que foi à falência rapidinho.

    Como foi filmar Rio 40 graus e fazer tanto sucesso logo no primeiro filme? Quando escrevi o roteiro do filme não havia nenhum produtor que tivesse vontade de fazê-lo. Consegui montar um esquema de produção, através de uma cooperativa e que consistia em vender ações, primeiro para a família (risos), para os amigos e depois para alguns capitalistas. O roteiro foi inspirado no que vi quando fui assistente do filme Balança mas não cai¸ com o Paulo Gracindo. O estúdio era localizado junto à favela do Jacarezinho, a maior da época. Durante um tempo eu fiquei morando lá e alguns eletricistas e maquinistas moravam na favela. Então me convidavam para almoçar na casa deles, aos sábados, uma feijoada ou um cabrito. Aí eu conheci a favela. Era um ambiente rural, romântico. Eu escrevi o roteiro e finalmente quando o filme ficou pronto a Columbia Pictures comprou a distribuição, o que foi a grande glória. Tivemos uma excelente bilheteria apesar do exibidor que não gostava do filme, tirava-o de cartaz.

    Ele chegou a ser proibido? O filme e eu só ficamos famosos por causa do chefe de polícia, o então coronel Geraldo de Menezes Cortes, que proibiu sua exibição durante quatro meses, nos colocando na primeira página dos jornais. Ele foi um grande divulgador (risos). O jornalista Pompeu de Souza, diretor do Diário Carioca, comandou então uma campanha pela liberação do filme. Pompeu organizava sessões especiais e convidava intelectuais e políticos para depois publicar suas opiniões na primeira página do jornal. Ele chegou a ir numa coletiva do chefe de polícia e discutiu com ele. O coronel argumentou que o filme era mentiroso desde o título já que de acordo com o anuário meteorológico do Brasil, no Rio de Janeiro nunca tinha feito 40 graus à sombra. Segundo ele “a média das máximas era 39,6 graus”, (risos). Além disso, o chefe de polícia exibiu minha ficha policial (eu era fichado desde os tempos da faculdade) dizendo que eu era comunista.

    O filme foi considerado por alguns como uma provocação aos estilos de vida da época? Seu eu fosse carioca, eu acho que não teria gostado do filme. O Rio de Janeiro dos anos 50 era tão bonito e glamouroso e eu filmei favelas, mostrando que tinha gente pobre. Além disso, a classe média que aparece no filme é decadente, ligada à corrupção política.

    Qual é a comparação que você faz de Rio 40 graus com Vidas Secas? O Vida Secas já não era mais neo-realismo, ele foi mais subordinado ao pensamento do Graciliano Ramos ligado a uma espécie de realismo crítico, numa visão mais profunda da realidade e que incluía também uma penetração psicológica, de entrar na cabeça daquele homem, daquela mulher e até da cachorra Baleia (risos). Ele tinha um condimento psicológico da maior importância. Coisa que no Rio 40 graus não tem. Vidas Secas foi a partir de um conto de Graciliano que ele escreveu na cadeia em 1931, intitulado Baleia que eu misturei com outros que ele fez depois. Eu juntei tudo, fiz uma história só.

    No Rio Zona Norte você homenageou o compositor Zé Ketti. No ano passado você fez um curta sobre ele, eram amigos? O Rio Zona Norte é a história do Zé Ketti. Eu freqüentava as escolas de samba com ele e cheguei a morar na sua casa. No filme quem interpreta é o Grande Otelo. Meu último trabalho foi um curta sobre ele intitulado Meu Compadre Zé Ketti, filmado em 2001.

    E o cinema nacional? Há muitos jovens que estão aparecendo que são de alto nível, como esse filme do Beto Brant que ganhou um prêmio no Sundance festival. No plano da linguagem, da criação, eu acho que o cinema brasileiro vai muito bem. Mas continua existindo o mesmo problema de antes, um problema histórico: a distribuição e a exibição. É o mesmo problema que matou a Vera Cruz, a Atlântida, a Embrafilme. No ano passado houve um congresso do cinema brasileiro que se conseguiu fazer com que o governo criasse um grupo de estudo de cinema e agora uma agência de cinema ligada diretamente à Casa Civil da Presidência. E o Brasil, para onde caminha? Escapamos por um triz da crise argentina. A democracia formal existe, o que acontece é que ela é mitificada de forma a esconder os problemas mais graves. Existe uma censura sem censura. O retrocesso está acontecendo. Só isso de matar o prefeito de Santo André é coisa do tempo do Lampião, acontece na maior cara de pau e aí dizem que foi um assalto.

    E a crise mundial? Houve uma guerra de um dia, que foi o 11 de setembro. Depois o que aconteceu foi uma revanche.

    Fevereiro de 2002

    Entrevista concedida a Ricardo Rabelo, editor do Bafafá On Line


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