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  • Nelson Sargento: Quero pintar quadros

    Agenda Bafafá em 02 de Maio de 2016    Informar erro
    Nelson Sargento: Quero pintar quadros

    Nelson Mattos, mais conhecido como Nelson Sargento, nasceu em 25 de julho de 1924 e passou a infância na Tijuca morando com uma família de comerciantes portugueses, onde trabalhava sua mãe, Dona Rosa. Aos 10 anos, tem o primeiro contato com o samba tocando tamborim pelo Salgueiro. Já adolescente vai morar no Morro da Mangueira na casa do padrasto "seu Alfredo Português", pintor de paredes e sambista. Através dele, Nelson ganha um violão que aprende a tocar com mestres como Cartola e Nelson Cavaquinho. O nome artístico vem de uma passagem pelo exército, onde chegou a patente de sargento.

    Seguindo os passos do padrasto, torna-se pintor de paredes. O artista acaba despontando como compositor, autor de sambas consagrados, entre eles "Agoniza mas não morre" e "As quatro estações do ano", este último considerado pela crítica como o mais bonito samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira de todos os tempos. Através de Carlos Cachaça passa a integrar a ala de compositores da Mangueira. Apesar do sucesso, só grava seu primeiro LP em 1978 e o primeiro CD em 1992. O reconhecimento ultrapassa fronteiras e Nelson é convidado para gravar no Japão, onde possui um público fiel.

    Em entrevista ao Bafafá, Nelson Sargento fala sobre sua entrada no mundo do samba, seu processo de criação, política e muito mais. Questionado se tem um sonho, não titubeia; "Quero pintar quadros e fazer sambas".

    Como foi sua infância?

    Tive uma infância boa, fui criado numa casa de família que me tratava muito bem. Me deu até carrinho de pedal. Soltava pipa, jogava bola de gude, ia ao cinema, mas nunca corri atrás de balão com medo de levar pedradas (riso). Graças a Deus, minha infância correu sem sobressaltos.

    Apesar de mangueirense, você começou a carreira musical aos 10 anos tocando tamborim pelo Salgueiro?

    Na época não tinha nada proibido para menores e não precisava autorização de juiz para desfilar numa escola de samba. Eu ia com a garotada bater um tamborim no Salgueiro e era selecionado pelo diretor de bateria para tocar. Eu aderi à verde-rosa quando fui morar no Morro da Mangueira e talvez se isso não tivesse acontecido, eu seria Salgueiro. Quando criança você se adapta à realidade em que vive. Foi na Mangueira que eu me interei realmente sobre o mundo do samba.

    Aprendeu a tocar violão com o Cartola e o Nelson Cavaquinho?

    Eles frequentavam a casa de Alfredo Português e fui crescendo no meio deles. Para aprender tocar violão foi um pulo. Quando ganhei um violão do Alfredo, eu disse: "Vou ter que aprender com alguém". E assim foi. Foram eles que me passaram as primeiras noções.

    Quando compôs o primeiro samba?

    Eu musiquei meu primeiro samba com letra do Alfredo em 1948, sobre o Vale de São Francisco.

    Qual o samba que gosta mais?

    Essa é uma pergunta difícil de responder pois acho que o artista tem que gostar de todos os sambas que faz. Talvez o cara possa gostar mais de um que tenha a ver com sua vida particular. Eu gosto de todos os sambas que faço. Se eu não gostar, eu não mostro para você. Tem gente que diz: você pode não gostar, mas o fulano gosta. Não interessa: quem tem que achar primeiro que o samba é bom sou eu. Agora, se eu achar que é bom e mostrar a você e disser que não gosta, não tem problema nenhum, eu continuo gostando (riso). É aquele negócio de acreditar no que faz.

    Tem algum processo de criação?

    Eu não tenho um processo específico para compor. Eu não chego e falo: vou fazer um samba. Às vezes me passa na cabeça um trecho de letra que eu escrevo e deixo de lado. Depois eu vejo se termino ou não, às vezes fica guardado. Normalmente, todo os dias eu componho alguma coisa, mesmo que não escreva, mesmo que eu não guarde (riso). Tem gente que pergunta: como é que se faz samba? Não se faz samba, não se ensina. O que eu posso é ensinar uma fórmula: arrumar uma frase e ver o que ela está pedindo para continuar. Por exemplo: eu bati com a cabeça na pedra. Porque que você bateu a cabeça na pedra? Bati a cabeça na pedra porque escorreguei. Já é uma sequência. É assim que eu faço samba.

    Como foi sua passagem pelo exército? Trocou a farda pelo samba?

    Não foi bem assim. Quando fui para o exército já estava lidando com o samba. Saí dele em conseqüência da movimentação dos quadros. O ministro da Guerra na época achava que o exército tinha um efetivo muito grande, licenciou muita gente por conclusão de tempo e eu saí nessa porque não me deram reengajamento. Eu tinha 22 anos de idade e não liguei. Houve um decreto que mandava reintegrar esse pessoal e eu não soube. Se soubesse, teria recorrido.

    O que acha de ser tocado no Japão?

    É interessante ver a música de seu país penetrando no exterior. Isso consolida o nome do artista e é uma referência importante para qualquer autor. Fui quatro vezes ao Japão. È uma cultura diferente, tem aspectos bons, aspectos negativos. O que mais me impressionou foi a educação na rua, onde ninguém é atropelado.

    O Brasil valoriza sua história musical?

    Valoriza da seguinte maneira: através de livros e fotografias. Só que esse material não é entregue ao público. Se você chegar numa universidade, não vai encontrar ele.

    O que está achando da música tocada nas rádios?

    Eu vou repetir uma frase do Vinícius. Só há dois tipos de música: a boa e a ruim. A ruim é a que você não gosta. Qual é a boa? A que você gosta. Mais uma do Vinícius: é melhor você ouvir música do que não ouvir nada. Cheguei a conclusão que novidade é a música que se fazia nos anos 30, 40, 50. Não é o que se faz hoje como novidade, que chamam de releitura. Novidade era aquilo. Vou te dar um exemplo: quando um artista regrava uma música gravada dez anos antes, ela pode ficar pior que a primeira. Acho que aí não devia regravar. Se for, então regrava melhor. Isso dificilmente acontece. Pra mim, essas releituras são meio capengas.

    Quando gravou o primeiro CD?

    Meu primeiro disco, em vinil, foi gravado em 1978. Meu primeiro CD foi gravado no Japão em 1992.

    Você também é um pintor de mão cheia! Como foi sua descoberta com os pincéis?

    Foi por acaso (riso). Eu espalhei massa num pedaço de madeira e colori. Aí gostei e me interessei. O Sérgio Cabral me incentivou muito, sua casa foi a minha primeira galeria.

    Gostou de ter desenhado a camiseta do Simpatia È Quase Amor?

    Eu gostei do convite porque confesso o seguinte: eu gostei deles terem gostado. Desenhei uma baiana e duas passistas e ouvi comentários que há anos o Simpatia não fazia uma camisa tão bonita. Eu espero que esta camisa resulte em algum benefício na minha carreira de artista plástico, já que ela vai ser vista por muitas pessoas.

    Como está vendo o nosso país?

    Não sou político. Não melhora, nem piora. Todo presidente é bom, o problema que a gente só olha as coisas mal feitas. De dez coisas que um presidente faz, duas são boas e o resto não presta. Ninguém nunca valoriza as duas que prestam. Querem que um presidente conserte em quatro anos o que outro esculhambou em oito. Mas pobre vai ser sempre pobre, você não tenha dúvida.

    Tem algum sonho?

    Quero pintar quadros e fazer sambas. Até agora acho que a consolidação deste trabalho é parcial. Isso não é um sonho, é uma meta. È como subir uma escada de dez degraus: estou no sexto, só faltam quatro (risos).

    Qual é sua mensagem para este carnaval?

    Que todo mundo se divirta com ordem, que seja feliz e que a escola de seu coração ganhe. Mas que fique depois da Mangueira (risos).

    Janeiro de 2004

    Entrevista concedida a Ricardo Rabelo




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