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  • Teresa Cristina: O samba não é mais para o povo que o inventou

    Da Redação em 31 de Maio de 2016    Informar erro
    Teresa Cristina: O samba não é mais para o povo que o inventou

    Teresa Cristina é a mais cultuada cantora de samba da noite carioca. Com voz grave e gestos elegantes, ela vem lotando casas de shows da cidade, encantando o público com um repertório do mais puro samba de raiz. Carioca, nascida em Bonsucesso, Teresa só começou a cantar aos 26 anos. Ela confessa que nunca esperou ser cantora profissional e que tudo aconteceu muito rápido em sua vida. 

    Nesta entrevista exclusiva ao Bafafá, a nova diva do samba fala sobre raízes culturais, carnaval, política e otimismo. Para a artista, o desfile da Sapucaí está esgotado: “Acho que desvirtuou, virou um negócio para quem tem estrutura financeira”.

    Onde começou a cantar?
    Eu não trabalhei para ser cantora e só fazia isso em casa. Tive várias profissões e essa é uma coisa que eu não esperava ser. Eu não tenho formação musical teórica, não estudei canto. Comecei a cantar por gostar de samba aos 26 anos e já está fazendo 10 anos. Eu tenho uma carreira curta em comparação com as outras pessoas no mundo do samba.  

    Como você explica esse surto de samba de raiz na cidade?
    Eu não sei se é um surto. O Brasil tem um tesouro musical onde qualquer musica que você resgate é bem-vinda. As pessoas estão ávidas por coisas boas de cultura. Ultimamente tem acontecido isso com o forró, os jovens redescobriram o estilo. Acho que o samba está pelo mesmo caminho apesar de sempre ter existido assim. O que está acontecendo é que as pessoas mais jovens estão procurando e, como se sabe, o jovem leva a notícia junto e a mídia vai atrás dele. 

    O que achou ter sido escolhida a cantora revelação do ano 2003?
    Adorei, fiquei muito contente (risos). Espero que isso possa trazer coisas boas para a minha vida de cantora, que é uma coisa ainda muito recente na minha vida. É como eu te falei: eu não estudei para isso, não esperava que isso fosse acontecer. Isso me dá um pouco mais de confiança de poder ter uma vida mais longa na carreira, de não trocar de profissão agora (riso).   

    Você acha que o samba é eterno?
    Acho. Toda musica boa é eterna. Por isso existem clássicos, musicas que atravessam séculos e que se continua ouvindo.  

    E os desfiles de carnaval, não estariam esgotados?
    Eu acho que já esgotou, né? O ritmo não é mais o mesmo, é acelerado. O samba não é mais para o povo que o inventou, é mais para turista. Você vai desfilar na sua escola de coração e tem que pagar até 400 reais, você não tem dinheiro suficiente para ver o desfile bem. Quem vê bem é quem tem muito dinheiro. Acho que desvirtuou, virou um negócio para quem tem estrutura financeira. O carnaval ainda não acabou por conta dos blocos. É o que está segurando, essa coisa de povo, da espontaneidade, das pessoas fazerem brincadeiras e trocadilhos com as situações que estão acontecendo. Aquelas fantasias de última hora, que você vê que o cidadão fez em casa, com idéias originais curtidas no carnaval de rua.  

    Está gostando do governo Lula?
    Ainda é cedo para eu dar uma opinião. Fiquei muito tempo esperando Lula no poder, sempre votei no PT. Achei que nunca fosse acontecer e chegou. Entendo a situação, não é um mar de rosas ser presidente do Brasil. A gente elege um gerente que vai ter que lidar com as varias corporações que estão aí há anos. Ainda estou gostando de ter elegido o Lula e estou esperando para ver. 

    Alguma mensagem de otimismo?
    Mensagem de otimismo tem de haver sempre. Eu sou uma pessoa cuja vida mudou muito, nunca esperava que fosse chegar aonde estou. Não é grandes coisas mas é um lugar que conquistei por acaso e estou tentando preservar. Acho que a gente tem que procurar ser verdadeiro, a eleição do Lula é um exemplo. Essa explosão de ONGs ultimamente é um exemplo, as pessoas estão procurando alternativas para tudo. Se tem alternativa para tudo, tem alternativa para a vida, uma vida melhor, apesar dos jornais dizerem o contrário. Eu tenho esperança de uma vida melhor.  

    Fevereiro de 2004. Entrevista concedida ao editor do Bafafá Ricardo Rabelo.
    Foto Washigton Possato/Divulgação



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