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  • Walter Alfaiate: “O samba sempre foi marginalizado”

    Agenda Bafafá em 22 de Maio de 2016    Informar erro
    Um alfaiate que compôs quase cem sambas. Assim é o carioca de Botafogo Walter Nunes de Abreu, mais conhecido como Walter Alfaiate. O artista é comparado aos integrantes da banda cubana “Buena Vista Social Club”, que só despontaram para o sucesso com idade avançada. Até hoje, Walter trabalha diariamente numa pequena alfaiataria num centro comercial popular de Copacabana. 

    Desde cedo, descobriu a vocação pelo samba, tocando tamborim e surdo. Não demorou a começar a compor para blocos, entre eles o Foliões de Botafogo. Participou também de rodas de samba no Teatro Opinião nos 60 e integrou vários grupos como “Os autênticos”, com Mauro Duarte e Noca da Portela. Apesar de mais de 50 anos de carreira, gravou apenas três CDs: Olha Aí, Esquina Carioca e Samba na Medida. Walter Alfaiate só foi descoberto quando Paulinho da Viola gravou músicas suas, entre elas Coração Oprimido e A.M.O.R.Amor. Só a partir de 1982, passou a integrar os quadros da Portela, onde é reverenciado. 

    Nesta entrevista ao Bafafá, Alfaiate fala sobre sua vida, samba, política e muito mais. Quando questionado sobre o que mais admira nas pessoas, não titubeia: a sinceridade. 

    Fale sobre sua infância e juventude

    A minha juventude foi como a de qualquer garoto, em Botafogo, correndo na rua, soltando pipa, rodando pião, jogando bola. Mas o que eu gostava também era trabalhar, para ganhar um troco. Engraxei sapato, fui carregador de feira, entreguei pão. Eu estava sempre pronto para ganhar 200, 300 reis. Com 13 anos, comecei a profissão de alfaiate e até hoje estou trabalhando, graças a Deus. 

    Como chegou ao mundo do samba?

    Desde garoto que eu gosto de samba. Fui diretor de harmonia de blocos de carnaval do bairro, batia surdo, tamborim, até diretor de bateria e ensaiar passo de mestre-sala eu já fiz. 

    O que é mais prazeroso? Cortar um terno ou compor um samba?

    Eu gosto das duas coisas, as duas coisas me dão prazer. Tanto faz cortar uma roupa como estar num palco cantando. Não tenho preferência, entendeu? 

    Como está vendo o samba?

    O samba está em alta, é uma música que o estrangeiro adora e nós brasileiros temos que caprichar para ele subir mais ainda. O samba é um estilo universal, japonês já está batendo tamborim, pandeiro, tem escola de samba na China. 

    O que acha do pagode?

    O pagode é um samba, não é ritmo. É para se juntar e cantar samba, tomar uma cerveja. Dizer que canta pagode não existe, canta é samba, pô! 

    Você acha que do samba ainda pode nascer outra vertente musical?

    Podem vir outros ritmos, inclusive com estilos de fora, já que o brasileiro sempre foi um grande imitador. Agora, o samba é que é difícil de imitar. 

    E o funk?

    Eu adoro funk. Outro dia fui no aniversário da Regina Casé e dancei funk para caramba. Eu não gosto é das letras. O balanço que é gostoso. Se tivesse idade ia dançar para valer. 

    Música baiana?

    Existe o samba baiano sim. Dorival Caymmi, Nelson Rufino, Edir Pacheco. Já aquele negócio que eles tocam que parece uma marcha corrida (axé), que nem eles mesmos sabem como intitulam, não dá pra entender. 

    Você acha que sua ascensão pode ser comparada aos músicos do filme “Buena Vista Social Club?”

    É por aí, Jamelão, Roberto Silva, Nelson Sargento, Billy Blanco, Guilherme Brito, Paulo Marquês, fazemos parte também desse time do “Buena Vista”, (risos). Os cubanos são ótimos músicos, no metal então nem se fala. 

    Porquê o reconhecimento custou a aparecer?

    Tem dois períodos. Um é que o samba sempre foi marginalizado, ninguém gostava, achava que era coisa de vagabundo, malandro. Para sair dessa mancha que teve custou. Mas depois foi chegando, chegando. O outro é que formou-se uma panelinha de meia dúzia de compositores e muitas vezes para você entrar tinha que dar parceria para alguém. Tinha muito “comprousitor”. Hoje está bem mais fácil gravar disco independente. 

    Está gostando do governo Lula?

    Oh, rapaz, eu vou te dizer uma coisa: desde que eu me conheço nenhum governo não fedeu nem cheirou, não sei porque? Até hoje estou trabalhando para ganhar meu troco, às vezes me aperto, às vezes deslancho. Desde que me conheço, estou sempre correndo atrás. Para mim todos eles não têm diferença nenhuma, são todos iguais, mesmo o Lula sendo um ex-operário. Ele não governa sozinho, ele não pode dizer “vou fazer isso”, porque tem as tais forças ocultas que eu sei que existem. 

    O que você mais admira nas pessoas?

    A sinceridade. 

    O que mais abomina?

    A falsidade, que é o oposto da sinceridade. 

    Alguma mensagem de esperança?

    Fazermos um esforço para educar nossos filhos para que nossos bisnetos vivam amanhã num país melhor (apesar dele ainda ser o melhor para se viver). O Brasil é o país do futuro. E olha que eu sou do tempo que quem tinha uma geladeira era bacana, era rico. Hoje no morro você tem antena parabólica, televisão, geladeira. Já melhorou nesse aspecto material. Mas isso não basta. Tem que construir casas no asfalto, gerar empregos. 

    Abril 2004 

    Entrevista concedida a Ricardo Rabelo



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