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  • Ziraldo: “Acho que nasci desenhando”

    Agenda Bafafá em 26 de Março de 2021    Informar erro
    O cartunista Ziraldo é o mais carioca dos mineiros. Natural de Caratinga, radicado na Cidade Maravilhosa há mais de 50 anos, ele protagonizou seus melhores momentos no Jornal o Pasquim, um dos mais conceituados jornais alternativos do país durante a ditadura militar.
     
    Formado em Direito, nem seguiu a profissão, optando pelo desenho, vocação que aflorou desde criança. Hoje Ziraldo é uma referência na literatura infantil, principalmente com o conto “O menino maluquinho”, sucesso de venda que acabou nas telas dos cinemas. 

    Recentemente, o cartunista publicou a Revista Bundas e relançou o Pasquim (21) que durou dois anos e meio mas que acabou sucumbindo ao mercado editorial por falta de anunciantes. “Infelizmente, eles não entenderam que a revista e o jornal falavam para as pessoas mais inteligentes deste país, para os formadores de opinião, para as pessoas que não querem comprar-feito, mas querem criar, decidir, escolher, repensar, refletir”, assegura.        
     
    Em entrevista exclusiva ao Bafafá, Ziraldo fala sobre sua carreira, política, jornalismo e muito mais. 
     
    Qual é a sua formação?
    Ainda sou da geração de bacharéis: me formei em Direito. Sempre fui um observador do mundo. Primeiro da minha cidade, Caratinga, depois do meu país, finalmente do mundo. Devo ser um cara inteligente, pois acho que curiosidade é inteligência. Eu sempre fui muito curioso. 
     
    Como foi sua infância em Caratinga? Alguma semelhança com o “Menino Maluquinho?”
    Desde que nasci, ou melhor, desde que tenho consciência da minha existência, desenhava em todos os lugares, na calçada, nas paredes, na sala de aula. Algumas das minhas professoras primárias não entendiam.
     
    Uma delas rasgou um desenho meu na frente dos colegas. Sofri! Por sorte outras professoras me incentivaram. Tive uma infância segura. Me sentia tão seguro, quando menino, que não percebia os sinais de miséria do mundo.
     
    Meu pai era guarda-livros e minha mãe costureira. Ela costurava a noite inteira. Até hoje, em noites de insônia, ouço o barulhinho da máquina de costura tic-tic-tic-tic. Somos sete filhos: Ziraldo, Ziralzi, Zélio, Maria Elisa, Maria Helena, Maria Elizabete e Geraldo. E também Dinair, irmã de criação, que ajudou mamãe a acabar de criar os mais novos.
     
    Nós a consideramos como uma irmã. Minha infância foi boa: rodei pião, joguei bola de gude, joguei futebol. Fui sempre o pior de todos. É claro que tem a ver com o Menino Maluquinho, principalmente se considerarmos que ele foi uma criança que se sentia amada. Rolou comigo. 
     
    De que forma descobriu a vocação pelo desenho?
    A mais antiga lembrança de minha infância sou eu desenhando. Antes de entender as palavras, minha cabeça já transava imagens. Acho que nasci desenhando. Não sei se naquele tempo já imaginava ser o que sou hoje. Acho que o que eu queria da vida era isso mesmo.
     
    Tinha ainda os livrinhos que minha mãe fazia para mim. Acho que foram os primeiros livros que ilustrei na minha vida. Minha mãe dobrava, costurava e fazia para mim uns livrinhos de papel manilha para eu ilustrar minhas historinhas. 
     
    Quando resolveu deixar a terra natal?
    Cheguei ao Rio de Janeiro, no fim dos anos quarenta, para ser desenhista de histórias em quadrinhos. Não era uma profissão (ainda não é) no Brasil. As histórias vinham todas dos Estados Unidos. Virei desenhista de agência de propaganda. Mas eu queria mesmo era desenhar pra revistas, pra jornais... Virei cartunista. Depois chargista político. Aí, veio o Pasquim.
     
    Em 1969 fiz meu primeiro livro infantil, Flicts. A barra estava pesada, caí no Pasquim. Só em 1980, quando os milicos estavam voltando para os quartéis e o Pasquim havia perdido sua importância para todos nós, foi que me aconteceu o Menino Maluquinho. O sucesso do livro mudou minha vida. Virei autor de literatura infantil. 
     
    A cidade grande te impressionou?
    Cara, meu sonho caratinguense, como o de todo o pessoal do Vale do Rio Doce, era ir pra Nova York. Mas Caratinga era, para mim, uma gigantesca cidade. Cada pessoa vê a cidade onde nasceu com seus próprios olhos, não é? 
     
    Encontrou dificuldades no início da carreira?
    Como disse antes, vim para o Rio de Janeiro para ser desenhista de histórias em quadrinhos. Acabei virando desenhista de propaganda. As coisas que aconteceram na minha vida acho, não foram premeditadas. Apenas foram acontecendo. 
     
    Como foi a chegada ao Rio de Janeiro?
    Vim de trem e saltei na Leopoldina, de noite, a estação cheia de luzes. Foi como chegar na Central Station, em Nova York... Fui morar com minha tia Inês. Uma segunda mãe. Aliás, tive – e tenho – um exército de tias... 
     
    Ficou gamado pela cidade grande?
    Fiquei. 
     
    O Pasquim foi seu maior empreendimento?
    Fazer O Pasquim, para mim, não foi um empreendimento meu, pelo amor de Deus. Foi de um bando de gente, começando pelo Jaguar e pelo Tarso de Castro. Não posso imaginar de que maneira eu poderia ter atravessado os anos de ditadura sem poder manifestar minha indignação. E de maneira tão efetiva.
     
    Foi uma sorte ter vivido nas páginas do Pasquim os anos de chumbo da ditadura militar brasileira. É bom saber disso, é bom contar para os meus netos que eu não fiquei assistindo de braços cruzados o triste espetáculo do desastre que foi este tempo para o Brasil e para o nosso futuro como nação. Epa! Tou fazendo um discurso. Menos, Ziraldo, menos... 
     
    Como foi peitar a ditadura?
    O Pasquim nasceu no berço do Jaguar. Mas eu antes tinha feito o Cartum JS, suplemento dominical criado para o Jornal dos Sports, responsável pelo lançamento de uma nova geração de cartunistas, entre eles Miguel Paiva, Al, Juarez Machado, Henfil, Vagn.
     
    Como foi o Manequinho, suplemento de humor que o Fortuna fez para o Correio da Manhã. Como o Pif-Paf, do Millôr. Eram jornais de humor, e você sabe que se passar duas gargalhadas em volta de um tirano, você pode começar a derrubá-lo, como já diziam em Roma.
     
    O Pasquim foi um jornal que reuniu todo o pensamento não-conformista, indignado, reflexivo e sério da época. Um jornal que usava todo o pensamento vivo brasileiro que existia naquele tempo – e pleno de Humor. 
     
    Chegou a ser preso?
    Algumas vezes, mas já passou. Acho que nem vai virar história. 
     
    Como faziam para burlar a censura?
    Atrito com a censura, que era um braço do regime militar, dos golpistas, tinha toda hora. Nós usávamos da imaginação para enganar os milicos. No livro do Bernardo Kucinski, “Jornalistas e Revolucionários”, há mais explicação sobre isso, mas de qualquer modo, para ilustrar melhor a resposta, vou complementar para vocês: foi a mais rude censura jamais imposta à Imprensa Brasileira.
     
    Uma censura que riscava a rasgava nossos originais. Uma censura que era exercida por policiais no interior das redações, em misteriosos departamentos, ou seja, lá o que for, onde não podíamos ter acesso aos censores, na Polícia Federal, no Rio, ou no Ministério da Justiça, em Brasília. Era para lá que ia, de avião, nossos originais, que nos voltavam destruídos. Coisas do gênero... 
     
    O Pasquim deu lucro?
    Deve ter dado. Mas nós, incompetentes, não chegamos a ver esse lucro. Só para dar um exemplo, houve uma época que entre os dez livros mais vendidos, na lista da Veja, sete eram da Editora Codecri, a mesma que editava O Pasquim. 
     
    De que forma ele contribuiu para a derrocada da ditadura?
    Foi apenas um símbolo da resistência. 
     
    Você é um sucesso editorial, o que mais destaca nas suas obras de literatura infantil?
    Acredito que não faço proselitismo com meus livros para crianças, não quero fazer a cabeça de ninguém naquela faixa de idade. Acho legal inquietar os adultos acomodados e despertar as crianças para a alegria que é ler com desenvoltura. Ler é mais importante do que estudar. 
     
    Você foi uma dos fundadores da Banda de Ipanema. O que acha dela ter virado reduto de travestis e homossexuais?
    Não fui um dos fundadores da Banda de Ipanema. Quem fundou a Banda foi o Jaguar mais o Ferdy Carneiro e o Albino Pinheiro. Ela mudou porque o mundo e Ipanema mudaram. Tudo muda. 
     
    Por que projetos como Bundas e O Pasquim 21 não foram adiante?
    Infelizmente, os anunciantes não entenderam que a revista e o jornal falavam para as pessoas mais inteligentes deste país, para os formadores de opinião, para as pessoas que não querem comprar-feito, mas querem criar, decidir, escolher, repensar, refletir. 
     
    O que mais admira no Brasil?
    Rapaz, eu amo esta bosta de país. Adoro a nossa irresponsável alegria, o que poderá nos conduzir, um dia, à justiça social. Ou seja, à felicidade coletiva. 
     
    O que mais abomina?
    A corrupção e seu inerente cinismo. 
     
    Fevereiro de 2005
    Entrevista concedida a Ricardo Rabelo, editor do Bafafá
    Foto: Divulgação


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