Moradores de Laranjeiras estão em pé de guerra com a construtora Bait que solicitou à prefeitura o licenciamento de um condomínio de cinco prédios atrás do palacete Leal, na Rua das Laranjeiras.
Eles querem que os processos de licenciamento sejam sustados e que toda a área do imóvel, principalmente a área de floresta, seja desapropriada e transformada no Parque Laranjeiras com livre acesso ao público.
O Palacete, construído em 1905, já é um bem cultural tombado e preservado como Bem Cultural de Laranjeiras e Área de Entorno das Casas Casadas, pertencente à APAC (Área de Proteção Ambiental Cultural) de Laranjeiras.
O coordenador do Coletivo AmarAlice, Bertrand Rigot Muller conta que o ideal sera a criação de um Parque Ambiental comprometido com a preservação e a manutenção da Mata Atlântica.
"Além dos impedimentos legais, a Rua das Laranjeiras não comporta mais construções de grande porte. Os engarrafamentos são constantes, as redes de águas e esgotos chegaram a saturação e a bacia hidrográfica do Rio Carioca, que deve ser protegida, não suporta a construção de um estacionamento subterrâneo para 205 carros", conta o líder comunitário.
Leia a Carta Aberta ao prefeito Eduardo Paes
Exmo. Sr. Prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes,
Está em licenciamento ambiental (processo EIS-PRO-2021/02006) e urbanístico (23/440.109/2021) o projeto de construção de 5 edifícios na Chácara Modesto Leal, atrás e ao lado do Palacete, com entrada pela Rua das Laranjeiras 304. O Palacete é um bem cultural tombado e preservado como Bem Cultural de Laranjeiras e Área de Entorno das Casas Casadas, pertencente à APAC de Laranjeiras.
Os moradores do bairro desejam que os processos de licenciamento sejam sustados e que toda a área do imóvel torne-se passível de visitação pública.
SITUAÇÃO Inicialmente pleiteia-se que o licenciamento seja indeferido pelos seguintes motivos:
(i) Inconveniência de um projeto de construção de 127 apartamentos em rua sempre engarrafada, com impermeabilização do solo em área de alagamento, hoje ainda ajardinada, com aumento da pressão sobre a infraestrutura hídrica já saturada pela geografia da Bacia do Rio Carioca e adensamentos passados, com aumentos dos desconfortos térmico e acústico e da poluição atmosférica e visual, com queda da qualidade de vida no bairro, dentre outros fatores ambientais e urbanísticos;
(ii) A inexequibilidade de uma provável construção de garagens subterrâneas para 205 carros na frente do Palacete, numa área próxima ao leito do Rio Carioca, que é parte integrante do ecossistema da bacia hidrográfica do rio e que deve ser preservada.
(iii) Perda da oportunidade de tornar público o acesso ao parque de 50.000 m², uma das últimas áreas remanescentes da Mata Atlântica do Vale do Rio Carioca, situada dentro da própria APA São José e configurando o circuito cultural e turístico que desde 1991 as legislações que criaram as APACs do Bairro das Laranjeiras e do Cosme Velho previram;
(iv) Perda da oportunidade de abrir à visitação pública os ambientes internos originais ainda preservados, os jardins, a capela, o orquidário e outras áreas de convivência;
(v) Não menos importante, desconsiderar que Laranjeiras e Cosme Velho são bairros caracterizados por diversos exemplares arquitetônicos que podem ser visitados a pé, revelando modos de viver desde o Sec. XVIII e ainda cercados de encostas verdes avistáveis da rua arterial que, pela singular geografia do Vale do Rio Carioca, une a ambiência dos dois bairros desta Cidade Maravilhosa.
A AMAL e a AMARALICE desejam levar à Prefeitura um projeto para que a totalidade da Chácara Modesto Leal seja preservada e oferecida à população do Rio de Janeiro.
PROJETO Considerando a singularidade do Palacete e sua situação dentro de uma área preservada de Mata Atlântica, propomos que a partir do conjunto formado pela Chácara e o Palacete seja criado o PARQUE LARANJEIRAS.
A Chácara Modesto Leal é a última das grandes chácaras que beiravam o curso do Rio Carioca no século XIX. Uma grande parte da área é constituída por uma cobertura vegetal preservada de Mata Atlântica que se alastra morro acima, onde pode se avistar uma bela paisagem da Cidade, do Pão de Açúcar e da baía de Guanabara.
Sugerimos que o Palacete, sede do Parque, possa se tornar um Centro Educacional e de Pesquisa, focado na manutenção e preservação da Mata Atlântica. As duas maiores florestas urbanas do Mundo, o Parque Nacional da Tijuca e o Parque Estadual da Pedra Branca, se encontram na nossa cidade e nela não existe nenhuma instituição de grande porte destinada a conscientizar a população da importância desse patrimônio natural.
O futuro PARQUE LARANJEIRAS, além de ser um magnífico espaço de lazer à disposição da população carioca, poderá ser um Centro Educacional destinado a suprir essa lacuna. Não pretendemos que o Palacete Modesto Leal seja ocupado por mais um centro cultural municipal ou estadual. Sabemos que os poderes públicos de nossa cidade não têm atualmente a capacidade administrativa e financeira de gerir mais instituições culturais.
Sugerimos que o futuro PARQUE LARANJEIRAS seja uma instituição financiada pela iniciativa privada graças aos incentivos previstos na legislação. Colocamo-nos à disposição dos gestores públicos da Cidade para encontrar soluções que possibilitem a montagem do projeto.
Acreditamos que a instalação e a gestão do Parque poderiam ser confiadas a uma instituição de grande porte, fundação ou empresa com forte aporte financeiro, comprometida com a temática do projeto: a preservação e a manutenção da Mata Atlântica.
O Rio de Janeiro conta com várias instituições culturais bem sucedidas de iniciativa privada, que são modelos inspiradores para o projeto: a Casa Firjan em Botafogo, o IMS na Gávea ou a Fundação Roberto Marinho no Cosme Velho.
Assim sendo, a AMAL e a AMARALICE confiam na perseverança deste município para a efetivação dos compromissos de preservação dos bens culturais de Laranjeiras.
Rio de Janeiro, 19/10/2022