Por Rogério Marques
Quem passar por esses dias pela Rua da Glória vai presenciar uma cena ao mesmo tempo rara e digna de comemoração: no alto de uma escada, um homem passa boa parte do tempo mexendo no histórico relógio de quatro faces, um dos símbolos do bairro e da própria cidade.
Indiferente ao trânsito intenso e ao grande movimento de pessoas, o homem retira a proteção de vidro de cada face, mexe na parte interna, recoloca os vidros, sempre com muito cuidado. Ele é o técnico Edgar De Paulis, funcionário de uma empresa especializada contratada pela prefeitura para fazer o velho relógio voltar a funcionar, depois de muito tempo.
O conserto faz parte das obras de revitalização do bairro. Com um sorriso no rosto e ar de vitória, Edgar informa que a velha máquina “está muito dodói”, mas que a face do relógio que dá para a Praça Paris já está funcionando.
Essa não é a primeira vez que o Relógio da Glória enfrenta problemas e fica parado. Além da ação do tempo, o equipamento é alvo de atos de vandalismo, cada vez mais comuns contra monumentos públicos, na cidade.
Bairro histórico do Rio, a Glória tem vários outros monumentos e prédios tombados pelo patrimônio, alguns dos tempos coloniais, como a Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, que deu nome ao bairro, e o chafariz público da Rua da Glória, a poucos metros do relógio. Esse chafariz abastecia a população, com água trazida do Rio Carioca, quando ainda não havia sistema de água encanada.
O Relógio da Glória fica no alto de uma coluna de granito de sete metros e meio. A engrenagem é francesa, mas ele foi instalado por um relojoeiro alemão. Além da função decorativa, o equipamento era de grande importância numa época em que muita gente não tinha relógio, e aqueles que tinham de vez em quando precisavam que acertar as horas... e dar corda.
O Relógio da Glória foi inaugurado no dia 15 de abril de 1905 pelo prefeito Pereira Passos (1836-1913), dentro do projeto de reurbanização e melhoramentos da cidade. Para complementar o projeto, a prefeitura instalou então, ao longo da amurada da Glória, uma balaustrada que vai até o relógio. Esses balaústres de metal foram trazidos da Praça Tiradentes. Eles cercavam a praça.
Antes mesmo das obras de Pereira Passos já existia, no antigo Caminho da Glória, um paredão ou uma amurada de pedras para conter as águas da Baía de Guanabara, na extinta Praia da Glória. Por esse motivo a Rua da Glória fica, até hoje, num plano mais elevado que a Avenida Augusto Severo, bem ao lado.
A Praia da Glória e também a Praia da Lapa deixaram de existir com os sucessivos aterros que deram origem à Avenida Beira Mar, à Praça Paris e ao Parque do Flamengo.
Texto e foto: Rogério Marques