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  • Batalha de Uruçumirim dizimou tribos Tamoios do Rio em 1567, expulsou franceses e garantiu ocupação portuguesa

    Da Redação em 25 de Fevereiro de 2021    Informar erro
    Não são poucos os relatos de viajantes de navios e de turistas de cruzeiros marítimos que afirmam que a chegada ao Rio de Janeiro, pela exuberância da paisagem espremida entre o mar e a montanha, é uma das mais belas e impactantes do Brasil e do mundo.
     
    Mas, nos tempos em que a natureza era mais farta em todo o planeta, será que a geografia carioca provocava o mesmo impacto nos navegantes? A julgar pelo relato de viagem do grande navegador italiano Américo Vespúcio, a resposta é “sim”, pois foi como “paradisíaca” que ele descreveu, extasiado, a nossa paisagem, ao chegar aqui no primeiro dia do ano de 1502.
     
    Américo Vespúcio – o mesmo que descobriu que Cristóvão Colombo não havia chegado às Índias, e sim a um novo continente – era piloto de uma das naus da primeira expedição de reconhecimento do litoral brasileiro, feita após a chegada de Pedro Álvares Cabral à costa baiana.
     
    Foi ele quem, pensando se tratar da desembocadura de um curso fluvial, batizou a Baía de Guanabara de "Rio de Janeiro". Segundo registros históricos, trata-se do primeiro contato de um europeu com a paisagem carioca.
     
    Nessas terras paradisíacas moravam milhares de índios tamoios, espalhados em centenas de aldeias formadas por cerca de 500 a 3.000 indígenas cada uma. Eles conheciam as propriedades das ervas da mata da região, cultivavam mandioca, abóbora, amendoim, tabaco, árvores frutíferas e outras plantas, como o algodão, a partir do qual teciam suas redes.
     
    Mal sabiam eles que, décadas depois da passagem da caravela de Américo Vespúcio, suas terras se transformariam em uma cidade que, para ser fundada e consolidada, custaria a dizimação de suas aldeias, num gigantesco e mortífero confronto: a Batalha de Uruçumirim, ocorrida em 20 de janeiro de 1567.
     
    A batalha
    A cidade do Rio de Janeiro, talvez, sequer existisse – ao menos teria outras características bastante distintas – se os fatos históricos não tivessem anteposto portugueses a tamoios. Afinal, a fundação da cidade por Estácio de Sá, em 1º de março de 1565, foi motivada pela premência de Portugal em expulsar os franceses, que haviam se estabelecido na Baía de Guanabara e conquistado a aliança e simpatia dos indígenas.
     
    Para mudar o rumo da história e consolidar a fundação da cidade, foi preciso que o rei de Portugal enviasse reforços bélicos para a colônia. As duas forças se enfrentaram em uma batalha ocorrida em Uruçumirim, como os índios chamavam a atual região das praias do Flamengo e da Glória.
     
    De um lado estavam os tamoios – comandados pelo cacique Aimberê e seu genro francês, Ernesto – e, de outro, os portugueses – chefiados pelo governador-geral da colônia, Mém de Sá, e auxiliados por  Arariboia, o líder dos índios temiminós, que trouxe consigo, do Espírito Santo, centenas de guerreiros de sua tribo para combater o antigo inimigo.
     
    No início do século XVI, os índios do Gato (depois chamados de temiminós) viviam na Ilha de Paranapuã (atual Ilha do Governador) em situação de derrota iminente, cercados de tamoios por todos os lados. Diante disso, o líder Maracajaguaçu (Gato Grande) pediu ajuda aos portugueses para serem levados para o sul do Espírito Santo. Estabeleceu-se, assim, uma estreita e duradoura aliança entre eles e os lusos, e uma eterna inimizade entre eles e os tamoios.
     
    No dia 20 de janeiro de 1567 – em meio a dezenas de incêndios (cerca de 160 aldeias indígenas foram queimadas), a milhares de flechas e tiros de canhão e outras armas de fogo –, o céu enfumaçado se tingiu de cinza e as águas da Guanabara, de vermelho sangue.
     
    O terror se estendeu para a Ilha de Paranapuã (atual Ilha do Governador) e durou 48 horas, arrasando o reduto dos tamoios em terras cariocas. Além de Aimberê e de Ernesto, também morreram vários outros chefes indígenas, como Igaraçu e Pindobuçu. Eles tiveram suas cabeças espetadas em estacas e os poucos índios sobreviventes fugiram, buscando abrigo nas serras.
     
    A morte do fundador
    Embora a batalha tenha se iniciado no dia do padroeiro da cidade, 20 de janeiro, e mesmo com muitas orações professadas pelos jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, que invocaram sua proteção, dezenas de vítimas fatais também foram feitas do lado dos portugueses e temiminós.
     
    Entre elas, Estácio de Sá, o capitão-mor que havia fundado a cidade cerca de dois anos antes e se fixado, junto com outros povoadores, numa pequena faixa de terra entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar. Foi ele quem, em homenagem ao rei de Portugal, escolheu o nome São Sebastião do Rio de Janeiro, fazendo do santo o padroeiro da vila recém-criada. Mas nem tal “currículo” junto ao mártir católico nem todas as rezas dos padres bastaram para lhe poupar a vida.
     
    Faleceu poucos dias após uma flechada na face, recebida em combate, e não pôde testemunhar o processo que se desenrolou após a vitória lusitana.
     
    Além da dizimação dos tamoios, a Batalha de Uruçumirim sepultou o projeto francês de criar um refúgio calvinista no Novo Mundo – a França Antártica –, idealizado pelo vice-almirante Nicolas Durand de Villegagnon e endossado pelo conde de Coligny, chefe do partido Huguenote.
     
    A conquista do território carioca garantiu, sobretudo, a integridade da América Portuguesa. Ocupando a faixa de litoral que ia de Cabo Frio (RJ) a Ubatuba (SP), os tamoios, organizados em uma confederação e aliados aos franceses, tinham o objetivo de expulsar os lusos de toda a região.
     
    O intento produziu vários ataques e assaltos à capitania de São Vicente, que, sentindo-se ameaçada, contribuiu de forma decisiva (com homens e mantimentos) para a empreitada de Estácio de Sá, incumbido por El Rey de fundar o Rio de Janeiro e fincar a bandeira de Portugal no seio da Guanabara.
     
    A consolidação da cidade
    Com uma pequena armada e cerca de 200 homens, Estácio de Sá partiu de São Vicente em meados de janeiro de 1565 e desembarcou no sopé do Pão de Açúcar em 1º de março.
     
    A escolha do lugar se deveu, provavelmente, a razões de defesa, já que não tinha ligação com o continente (só na segunda década do século XX foi finalizado o aterro que ligou o atual bairro da Urca a Botafogo).
     
    Durante quase dois anos, entre tiros e flechas, o capitão-mor criou as bases da administração pública, construindo uma pequena fortificação, instalando a Câmara Municipal e nomeando juiz e escrivão. Apesar disso, a força bélica e a quantidade de homens eram insuficientes para derrotar os tamoios e os franceses.
     
    A situação só seria revertida quando Mém de Sá chegou com o reforço dos navios enviados pelo rei português, dom Sebastião I, além das dezenas de canoas lotadas de temiminós.
     
    Finda a sangrenta Batalha de Uruçumirim e morto Estácio de Sá, o governador-geral do Brasil transferiu, cerca de um ano depois, a sede da cidade para o Morro do Castelo, onde foi construído um forte e se iniciou, em definitivo, a povoação do Rio de Janeiro.
     
    A demolição do morro se deu no início da República, ansiosa por construir uma imagem conectada com a ordem e o progresso do primeiro mundo e sepultar a memória dos tempos coloniais.
     
    O Castelo, com suas ruelas estreitas e seus cortiços, não cabia no plano urbanístico do então prefeito Pereira Passos, que, inspirado nas reformas da capital francesa – o maior símbolo da modernidade naquela época –, fez emergir uma nova cidade.
     
    Talvez por ironia do destino, para vingar os derrotados em Uruçumirim, foi esse Rio afrancesado que o jornalista Coelho Neto – em uma crônica escrita no jornal A Notícia, em 1908 – chamou de “Cidade Maravilhosa”.
     
    Texto: Márcia Pimentel/Multirio

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      • Comentário do post Claudia Lessa:
        Excelente matéria e de importante divulgação!

      • Comentário do post Aurelio Mello Garmendia:
        Essa é a história que deveria ser contado nas escolas.

      • Comentário do post Marcelo Sant' Ana Lemos:
        Fico intrigado de que fonte tiraram a informação do incêndio de 160 aldeias!!! Na verdade depois da batalha de Uruçu mirim as tropas portuguesas/ temiminos atacaram as aldeias da Ilha do Governador que foram subjulgadas e os indígenas pediram pazes! Os tamoios então foram ou escravizados ou fugiram. Algumas aldeias ficaram submissas as ordens dos conquistadores. Agora isso somente na parte da Baía voltada para a futura cidade do Rio, pois o restante do entorno da Baía de Guanabara seria conquistada na década de 1570.


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