O Circo de Tradição Familiar foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil após decisão unânime do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, em reunião realizada no Palácio Gustavo Capanema, no Centro do Rio de Janeiro.
Com a deliberação, a manifestação cultural passa a integrar o Livro de Registro das Formas de Expressão, instrumento oficial de proteção do patrimônio imaterial brasileiro.
A decisão reconhece a importância histórica e cultural do circo itinerante organizado em torno de famílias que transmitem saberes, técnicas e modos de vida de geração em geração. Presente em diferentes regiões do país, esse modelo de organização circense se caracteriza pela itinerância, pela estrutura familiar e pela transmissão oral dos conhecimentos ligados à arte e ao trabalho sob a lona.
A reunião contou com representantes da Fundação Nacional de Artes, entre eles a presidenta Maria Marighella, além de gestores e profissionais ligados ao campo circense. Também participaram integrantes da Escola Nacional de Circo Luiz Olimecha, professores, estudantes e artistas envolvidos na mobilização que levou ao reconhecimento.
O processo de registro foi conduzido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, autarquia vinculada ao Ministério da Cultura, responsável pela política de preservação do patrimônio cultural no país. O parecer técnico apresentado ao conselho destacou que o circo familiar representa um sistema cultural complexo, no qual trabalho, convivência, formação artística e vida cotidiana se entrelaçam.
Em muitos casos, famílias dedicadas à atividade circense acumulam gerações sucessivas ligadas à arte, chegando à oitava geração de artistas. Nessas estruturas, o circo funciona simultaneamente como espaço de espetáculo, escola, residência e fonte de sustento.
A trajetória até o reconhecimento teve início em 2005, quando foi protocolado o pedido de registro por iniciativa do Circo Zanchettini, tradicional companhia circense do Paraná. O movimento mobilizou artistas, pesquisadores e instituições públicas ao longo de duas décadas, culminando na elaboração de estudos técnicos e do dossiê que embasou a decisão do conselho.
A pesquisa que fundamentou o registro foi desenvolvida por meio do Inventário Nacional de Referências Culturais, metodologia utilizada pelo Iphan para identificar e documentar práticas culturais relevantes para a memória e a identidade do país.
Além do valor artístico, o circo itinerante também desempenha papel social importante ao levar espetáculos e atividades culturais a cidades e regiões que muitas vezes não possuem equipamentos culturais permanentes.
Com o reconhecimento oficial, inicia-se agora a etapa de salvaguarda do bem cultural. O dossiê recomenda que o Iphan desenvolva, em parceria com a Funarte e outras instituições, ações voltadas à preservação e à continuidade dessa tradição. Entre as medidas sugeridas estão o fortalecimento de políticas de fomento, melhorias nas condições de trabalho dos artistas e iniciativas de valorização e difusão da cultura circense.
O registro consolida o circo de tradição familiar como parte fundamental do patrimônio cultural brasileiro e reconhece a contribuição histórica dessas comunidades artísticas para a formação cultural do país.