Primeira exposição da Meta Gallery em seu novo endereço, ao lado da Praça XV, “Objetos Sonho: Máquinas Para Ver Dançando” transpõe para a atualidade a tecnologia e o universo da dançarina Loïe Fuller (1862-1928), através de cinco dispositivos projetados e montados pela cineasta e artista visual Isabella Raposo.
O inédito “Espiraloscópio” forma, com “Loiescópio”, “Giroscópio”, “Kellyscópio” e “Feminoscópio (Joe)”, um conjunto de máquinas interativas sensíveis que operam entre brinquedo óptico, escultura cinética, dispositivo cinematográfico e coreografia latente. Mais do que representar a dança de Loïe Fuller, eles a reencenam como princípio, gesto técnico e força giratória que antecede e excede o cinema.
Nascida nos Illinois (EUA) e radicada em Paris, Loïe Fuller foi uma das fundadoras da arte do movimento sem narrativa. Sua dança dissolvia o corpo em tecido, cor e luz, com refletores coloridos e vestidos expansivos, produzindo imagens em rotação contínua Antes de a linguagem cinematográfica se consolidar, já operava um cinema do corpo, abstrato e sensorial.
Isabella Raposo atualiza essa genealogia do giro, entre dança, máquina e imagem. Seus dispositivos trazem Fuller para o espaço expositivo não como referência histórica, mas como potência ativa, convocando o público a completar o circuito da obra. Na Meta Gallery, ver é girar; e girar é produzir imagem.
“Vejo nas experiências de Loïe Fuller uma espécie de cinema sensorial, em que luz, cor, corpo e movimento se articulam para produzir imagens. Nos ‘Objetos Sonho’, me interessa retomar esse gesto de invenção, recombinando elementos materiais e imateriais do cinema em máquinas que propõem outras formas de ver e experimentar as imagens em movimento, a partir da presença, da interação e do encontro”, ressalta Isabella, vencedora da Mostra do Filme Livre pelo longa-metragem “Sinfonia do Fim do Mundo” de 2022, escrito e dirigido por ela, em parceria com Thiago Brito.
Sob curadoria de André Parente, os “Objetos Sonho” ficam de 5 de novembro a 12 de dezembro, das 10h às 17h, na Meta Gallery (Rua do Mercado, 11). A entrada é franca.
Obras em sequência e movimento
(Por André Parente – curador)
Obra inédita dos “Objetos Sonho”, “Espiralscópio” foi concluída para a exposição na Meta Gallery. “Ele tem um formato cilíndrico, e tem frames do filme ‘Loïe Fuller’, de 1905, que se movimentam em espiral. O usuário manipula a velocidade de cada camada do cilindro, assim como as cores e a intensidade da luz”, resume a artista.
Abrindo “Objetos: Sonho”, o “Loiescópio” traz uma caixa de madeira sobre um tripé antigo, com espelhos, tecido branco, motor, LEDs coloridos e sensores. Ao toque do espectador, o interior se acende: o véu dança sem corpo, reflete-se e multiplica-se. A luz não ilumina um objeto - gira com ele. Fuller aparece em um micro teatro óptico.
No “Giroscópio”, imagens da série “Woman Dancing”, de Muybridge, são coladas em um carretel de 35mm. O espectador gira o dispositivo manualmente, ativando LEDs e lentes que fazem a figura dançar. Produzido por um buzzer piezelétrico, o som surge sincronizado. A imagem depende da mão, do ritmo do corpo e do tempo do giro. O cinema retorna à sua condição de brinquedo rítmico, onde ver é modular a duração.
“Kellyscópio” transforma uma lata de filme 35mm em coreógrafo manual. Uma manivela faz girar uma cena de Gene Kelly em “That’s Entertainment!”, iluminada por LEDs coloridos. A dança varia conforme o giro e a intensidade da luz.
Por fim, “Feminoscópio (Joe)” introduz um manequim translúcido, que remete à Maria de “Metropolis”, de Fritz Lang. Ele projeta imagens de Loïe Fuller a partir de sua cabeça de vidro. Entre o humano e o mecânico, projeta o desejo de ser corpo, imagem e movimento, tudo ao mesmo tempo – um médium óptico onde o cinema se manifesta como delírio técnico.
Sobre a artista
Isabella Raposo (RJ) é cineasta e artista visual. Formada em roteiro pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro e em Direção Teatral pela UFRJ, é mestre em Artes Visuais e doutoranda em Artes da Cena, pela mesma universidade. É diretora do Espaço Cultural Cine Centímetro e sócia-fundadora da Cia das Novidades Excêntricas.
Atualmente, desenvolve a série “Objetos Sonho”, máquinas interativas de imagem em movimento inspiradas nos aparatos pré-cinematográficos e brinquedos ópticos, apresentada em exposição individual no Centro Cultural Banco do Brasil e em coletivas no Museu de Arte Moderna, no Paço Imperial e na Fábrica Bhering.
Em parceria com Thiago Brito, escreveu e dirigiu os longas-metragens “Sinfonia do Fim do Mundo” (2022), vencedor da Mostra do Filme Livre, e “A Vida é Assim”, com estreia prevista para 2026. Integra também a direção coletiva do longa-metragem Era uma Vez na Cinemateca, com estreia prevista para 2026.
Entre seus curtas-metragens, destacam-se “Bem no Meio do Céu”, com estreia mundial no IFFR - International Film Festival de Rotterdam, na Holanda; “Mar de Monstro”, vencedor do prêmio do público de melhor curta-metragem no Morce-GO Vermelho Festival; e “O Mirante do Azul”, vencedor do Prêmio Curta Rio.
www.isabellaraposo.com