O Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro recebe o espetáculo “Las Choronas”, criação que reúne artistas de importantes coletivos teatrais de Belo Horizonte — Pigmalião Escultura que Mexe, Cia 5 Cabeças e Mulher que Bufa.
A montagem chega aos palcos cariocas após uma trajetória de destaque na capital mineira, propondo ao público uma experiência cênica instigante, marcada pelo diálogo entre o teatro do absurdo, o surrealismo e questões urgentes da contemporaneidade.
Com dramaturgia e direção de Byron O’Neill, nome relevante da cena teatral mineira atual, o espetáculo foi concebido de forma colaborativa, a partir de improvisações dirigidas, partituras gestuais, fragmentos poéticos, fábulas e notícias de jornal. O resultado é uma obra que se afasta da narrativa linear tradicional para provocar reflexões sobre amor, identidade, abandono, marginalidade e a busca por sentido diante do cenário político e social atual.
No palco, atores e atrizes manipulam bonecos e também são manipulados por eles, criando um jogo visual potente que tensiona as fronteiras entre humano e objeto, som e gesto, escuta e visão. As referências estéticas transitam por universos como o cinema de David Lynch, especialmente Mulholland Drive, e o teatro do absurdo de Samuel Beckett, em obras como Esperando Godot.
Um dos diferenciais centrais da montagem é a presença do intérprete de Libras e bailarino Uziel Ferreira, cuja atuação vai além da tradução, integrando-se organicamente à cena. A Libras surge como linguagem dramatúrgica essencial, dialogando com o movimento, a música e o teatro de bonecos, ampliando a experiência sensorial e garantindo acessibilidade de forma poética e não acessória.
Segundo Byron O’Neill, a escolha pela Libras foi pensada como expressão cênica em si: o intérprete participa ativamente da dramaturgia, enquanto os demais artistas dançam em diálogo com sua linguagem corporal e linguística, transformando sinais em matéria coreográfica. A proposta amplia a percepção do público, inclusive o ouvinte, que em diversos momentos é convidado a lidar com a incompletude da compreensão verbal como parte da experiência estética.
O espetáculo também se destaca pela mistura de idiomas em cena, reflexo da trajetória internacional dos artistas envolvidos e da presença de intérpretes estrangeiros no elenco. A alternância entre português, Libras, italiano, inglês e espanhol surge de forma orgânica, reforçando a ideia de deslocamento, estranhamento e comunicação fragmentada que atravessa toda a obra.
A montagem tem origem em uma cena premiada do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, transformada agora em espetáculo de cerca de uma hora, mantendo sua força poética, visual e política.
Ficha técnica:
Apresentação: Ministério da Cultura e Banco do Brasil
Direção e dramaturgia: Byron O'Neill
Assistência de direção e direção de manipulação: Igor Godinho
Elenco: Aurora Majnoni, Carol Oliveira, Eduardo Felix, Joyce Malta, Liz Schrickte, Uziel Ferreira e Tom Forato
Intérprete de libras: Uziel Ferreira
Assistente em tradução de libras: Victor Daniel
Trilha sonora: Las Choronas
Edição musical: Rafael Nelvam
Trilha cuíca: Daniel Guedes
Criação de luz: Marina Arthuzzi e Wellington Santos
Cenografia e figurinos: Eduardo Felix
Cabelo e maquiagem: Camila Polatscheck e Iara Drumond
Bonecos: Aurora Majnoni, Eduardo Felix, Mauro Carvalho e Tom Forato
Coreografia: Uziel Ferreira, Guilherme Morais e Liz Schrickte
Realização: Governo do Brasil e Centro Cultural Banco do Brasil
AGRADECIMENTOS: Galpão Cine Horto, Márcio Miranda, Matheus Carvalho, Paula Ribas, Marlene Imaculada Cota, O’Neill Byron, Clarissa Amorim Hortélio, Gustavo Djalva, Márcio Gouvea, Carô Rennó, João Corgozinho, Iara, Lira e Lucca.