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  • Paulo Betti: Não desiludi com a política

    Agenda Bafafá em 22 de Maio de 2016    Informar erro
    Apontado com um dos artistas mais engajados do País, Paulo Betti garante, em entrevista ao Bafafá, que não está decepcionado com a política. “Não me desiludi não, apenas vejo com mais clareza e perplexidade sua ambigüidade. Política é briga feia. Ator acaba levando pancada sem saber. Estou mais seletivo nos meus apoios, mas estou abraçado às mesmas causas: MST, Luta contra o Trabalho Escravo”. Com 25 anos de carreira, este paulista de Sorocaba (SP) atua em teatro, cinema e TV. Entre seus longas-metragens estão Lamarca, Mauá – O Imperador e o Rei e Guerra dos Canudos. Irrequieto, estreou como entrevistador comandando o programa “NOVOS NOMES - EM CENA – no Canal Brasil. Paulo Betti fala sobre vários temas: sua infância, TV, teatro, cinema, política. Questionado sem tem alguma utopia, é enfático: “Que um dia o Brasil deixe de ter uma distribuição de renda tão injusta como a que temos! Estamos só melhor do que Serra Leoa! É uma vergonha convivermos com essa injustiça!”.

    Como foi a sua infância em Sorocaba?

    Foi a infância de um garoto pobre, mas uma pobreza que tinha as quantidades necessárias de proteínas e etc, e muito amor. Tínhamos galinhas no quintal, frutas. Eu morava com meus pais e meus avós paternos. Ia na roça de meu avô João, um imigrante italiano da região de Bergamo (Itália), que trabalhava "a meia" para um fazendeiro negro. Eu via a "Casa Grande" e lá habitava um senhor negro, "seu" Aquiles Campolin, ele era o patrão de meu avô. Isso me trouxe uma visão peculiar da negritude. Foi aí que conheci a história que levei para o cinema e que vai estrear o ano que vem: "Cafundó". Meus amigos de infância na maioria eram negros, pois o bairro onde eu fui criado, a Vila Leão, era um reduto dos negros em Sorocaba. 95% da população era de negros. De lá saiam as três escolas de samba da cidade, isso me influenciou muito. Hoje desenvolvi o Instituto Cultural Vila Leão, na casa onde fui criado, que abriga o projeto "Quilombinho", que dá aulas de teatro para crianças pobres e aulas de circo, etc.
    Com qual idade viu que queria ser ator?
    Quando garoto brincava de teatro no quintal de casa, na escola declamava longos poemas, aos poucos isso foi virando uma necessidade vital. Aos 19 fui para a EADUSP, Escola de Arte Dramática da USP, aí não tinha mais volta.
    Por que optou de viver no Rio de Janeiro? Como foi a chegada?
    Vim para o Rio para fazer a novela "Transas e caretas", de Lauro César Muniz, na Globo. A direção era do Wilker (José). Eu havia feito os "Imigrantes" na TV Bandeirantes em São Paulo. Fui muito bem recebido no Rio. Eu tinha uma carreira no teatro, onde havia ganhado muitos prêmios, inclusive dois Molieres como diretor. Então meus colegas e a imprensa me deram o maior apoio, era um ator que vinha do teatro, fui muito bem recebido. E o Rio é um lugar lindo, adoro andar pelas florestas, me sinto na roça do meu avô. E tem o lado metropolitano, é uma cidade que tem tudo!
    Fazer sucesso mudou a sua vida?
    Sim é claro, passei a andar de carro, viajar de avião, antes era só no "busuntão". Pude comprar mais livros, viajar, melhorar as condições dos meus filhos, colocá-los em escolas melhores, dar uma força para minha família. O sucesso é uma maravilha quando se está preparado para ele.
    O que te dá mais prazer: cinema, TV ou teatro?
    As três atividades me agradam. O teatro é o que te bota mais o pé no chão. Onde você rala, se esforça, se aprimora. Na TV é tudo mais rápido, um retorno desproporcional, mas se você está no teatro, você está preparado. O cinema como ator é um sonho, tudo de bom. Como produtor e diretor é ralação igual ao teatro. O ideal é fazer as três atividades e eu gosto muito também de rádio, que é uma coisa maravilhosa, imaginativa!
    Como é estrear um programa de entrevistas?
    Fiz as entrevistas em 7 dias, direto. Um trabalho extenuante, mas rápido. E deu um retorno enorme, mas é o que digo, se não tivesse ralado tanto no teatro não saberia fazer aquilo. Adorei fazer, adorei conhecer aqueles 26 atores, fiquei apaixonado por cada um deles.
    Não estaria havendo uma mediocrização da programação televisiva?
    Não sei. Só assisto na TV coisas que gosto, quando não gosto, desligo e leio um livro. Acho que os livros estão tão baratos nas bancas de revista, tem livros tão bons, só não lê quem não quer. Quem gosta de ver baixaria liga a TV naqueles programas e fica lá. Temos que alertar as pessoas, ler mais e ver menos baixaria na TV.
    E o teatro? Por que tem cada vez menos público?
    A concorrência é cada vez maior, as pessoas podem alugar e copiar filmes geniais e ver em casa. Sair de casa é muito inseguro, mas mesmo assim tem cada vez mais peças em cartaz. Acho que o teatro está forte como sempre.
    Como está vendo este início de século XXI?
    Sei lá, estou mais velho, estou vendo com menos nitidez, enxergo menos (riso).
    Você sempre foi um ator engajado. Desiludiu com a política?
    Não desiludi com a política, apenas vejo com mais clareza e perplexidade sua ambigüidade. Política é briga feia. Ator acaba levando pancada sem saber porque. Estou mais seletivo nos meus apoios, mas estou abraçado às mesmas causas: MST, Luta contra o Trabalho Escravo.
    O que está achando do governo Lula?
    Como disse, a luta é difícil, o Brasil tem uma cultura enorme de corrupção, de coronealismo. Quem achou que o Lula ia acabar com isso de uma hora para outra é ingênuo. Confio no Lula. É um homem que veio do meio do povo. Tenho certeza que ele não vai trair seus ideais. Nesse momento, com todas as denúncias do Roberto Jefferson, etc, muita coisa tem que ser esclarecida, mas continuo confiando no Lula, conheço ele muito bem, e seus principais assessores também.
    O que mais admira no Brasil?
    O Brasil é uma fonte inesgotável de energia!
    O que mais repugna?
    Como tratamos essa fonte, como a conspurcamos.
    Alguma utopia?
    Que um dia o Brasil deixe de ter uma distribuição de renda tão injusta como a que temos! Estamos só melhor do que Serra Leoa! É uma vergonha convivermos com essa injustiça!
    Junho de 2005

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