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  • Roberto Medronho: “A Universidade é um órgão de Estado, não de governantes”

    Da Redação em 07 de Outubro de 2019    Informar erro
    O médico Roberto Medronho joga no time da medicina e do samba. Além de diretor da Faculdade de Medicina da UFRJ, ele é um respeitado compositor que tem sambas premiados assinados em parceria com Noca da Portela em blocos como o Simpatia É Quase Amor e do Barbas. Professor Titular de Epidemiologia escreve também artigos científicos e seu livro Epidemiologia (Editora Atheneu) é o mais vendido no Brasil. Medronho transita pelos dois mundos com a precisão de um bisturi e o gingado de um mestre-sala.
     
    Em entrevista ao Bafafá, Roberto Medronho fala sobre a importância da Faculdade de Medicina da UFRJ no atendimento à população, principalmente de doenças com grau de complexidade maior. Ele destaca ainda a excelência da instituição na pesquisa de uma gama enorme de doenças, desde infecciosas e parasitárias, passando pelas crônico-degenerativas, os cânceres e doenças cardiovasculares. “Os nossos pesquisadores são reconhecidos nacional e internacionalmente nas suas respectivas áreas de pesquisa”, assinala.
     
    Medronho revela que com os contingenciamentos de verbas do Governo Federal a situação financeira da UFRJ pode entrar em colapso. “Não devemos e não nos dobraremos a nenhum governante de ocasião que prejudique a universidade que é um órgão de Estado, não de governantes”.
     
    Como é gerir a Faculdade de Medicina da UFRJ?
    Gerir a faculdade de medicina é uma atividade tão complexa quanto desafiadora. É uma faculdade com 210 anos de vida, criada por Dom João VI fugindo das invasões napoleônicas. Dom João XVI aporta no Brasil, no Rio de Janeiro, e um dos seus primeiros atos foi criar a faculdade de medicina no dia 05 de novembro de 1808. De lá pra cá temos prestados importantíssimos serviços à medicina e a saúde no nosso país.
     
    Ao longo desses anos formamos grandes nomes da medicina como Osvaldo Cruz, Carlos Chagas, Carlos Chagas Filho e tantos outros médicos que brilharam na medicina desse país. Mas, não apenas isso, foi na faculdade que iniciou-se o curso de odontologia, nutrição, hoje constituindo a Faculdade de Odontologia e o Instituto de Nutrição. Foi lá também que começou o curso de terapia ocupacional, fonoaudiologia, fisioterapia, além de vários institutos da área básica da saúde na UFRJ.
     
    Isso inclui também o Instituto de Ciências Biomédicas, Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, o Instituto de Bioquímica, o Instituto Estudos de Saúde Coletiva. Enfim, hoje muitas das unidades que compõem a área de saúde da UFRJ nasceram da Faculdade de Medicina. Para você ter uma ideia, atualmente nós temos 1.200 alunos do curso de medicina, 800 alunos do curso de fonoaudiologia, fisioterapia e terapia ocupacional. Esses três cursos estão subordinados a Faculdade de Medicina, mas, brevemente terão a sua própria faculdade. A Faculdade de Fisioterapia já foi aprovada na congregação da nossa unidade e brevemente será criada pela reitoria da UFRJ. Então são 2.000 alunos de graduação, em torno de 600 alunos de pós-graduação, mestrado e doutorado.
     
    Nós temos ainda várias atividades de extensão, com os nossos docentes atendendo, pesquisando e ensinando nos hospitais da universidade através do Hospital Clementino Fraga Filho, o Instituto de Pediatria Martagão Gesteira, Maternidade Escola e dos Institutos de Ginecologia, de Psiquiatria, de Neurologia e de Cardiologia. Temos docentes também no hospital escola São Francisco de Assis. Enfim, todos os docentes atuam na assistência à saúde, na pesquisa e no ensino.
     
    Nós temos 428 docentes e somos uma das maiores unidades da UFRJ. O curso de medicina possui a maior ponto de corte de todos os cursos, de todas as áreas,  engenharia, humanas, ciências da natureza, do Enem/Sisu. Então esse é mais ou menos o desafio de gerir essa instituição bicentenária e com um traço conservador, mas ao mesmo tempo também bastante inovadora. Para você ter uma ideia, a nossa Academia Imperial de Medicina foi criada também pelos docentes da faculdade de medicina da UFRJ, então a Academia Nacional de Medicina tem 190 anos e também relevantes serviços prestados à medicina e a saúde do nosso país.
     
    E tenho muito orgulho de estar à frente dessa bicentenária e muito importante instituição do nosso país.
     
    Quais pesquisas a faculdade desenvolve?
    A gente pesquisa uma gama enorme de doenças, temos desde a linha de pesquisa relacionada a doenças infecciosas e parasitárias, passando pelas crônico-degenerativas, os cânceres, as doenças cardiovasculares, essas últimas as que mais prevalecem na nossa população. Por exemplo, fazemos pesquisa em dengue, Zika, Aids, tuberculose, hipertensão arterial, infarto agudo do miocárdio e tantas outras pesquisas de ponta que contribuem para o conhecimento científico e tecnológico do nosso país. Os nossos pesquisadores são reconhecidos nacional e internacionalmente nas suas respectivas áreas de pesquisa.
     
    “A importância do Hospital Universitário é fundamental”
     
    Qual é a importância do Hospital Universitário na formação dos professores?
    A importância do Hospital Universitário é fundamental. A instituição que leva o nome de um dos maiores nomes da medicina, Clementino Fraga Filho, é um patrimônio da sociedade porque presta assistência gratuita aos pacientes do SUS, Sistema Único de Saúde. Assistência de altíssima qualidade, mas também tem um outro viés muito importante que é da formação dos futuros médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, farmacêuticos. Por ser um hospital de ensino, ele precisa ter um papel mais destacado por parte do Governo Federal. Isso porque ele não é especificamente apenas um hospital de assistência, mas um hospital também de formação de pessoal altamente qualificado na área da saúde, assim também como de pesquisa de ponta.
     
    Então eu diria que a importância do hospital é absolutamente fundamental para a formação do cidadão que vai atuar na área da saúde, para as pesquisas que vão melhorar a qualidade de vida da nossa população e também para a assistência ao Sistema Único de Saúde porque nosso hospital é de nível terciário e pra lá vão os pacientes com doenças difíceis de serem tratadas, com um grau de complexidade bem maior.
     
    O Sr acha que a UFRJ está ameaçada com o governo Bolsonaro?
    Não só a UFRJ está ameaçada pelo governo Bolsonaro. Infelizmente todas as universidades federais passaram a ser alvo de ações e de discursos altamente depreciativos. Isso é uma lástima porque nós estamos vivendo tempos muito obscuros e a sociedade precisa se mobilizar para retomarmos os ideais iluministas que foram muito importantes para a construção da humanidade. E não se faz o desenvolvimento humano e social sem a ciência e tecnologia e as universidades são fundamentais para isso. Nenhum país do mundo saiu de qualquer crise, retirando verba da educação, ciência e tecnologia, ao contrário. Na UFRJ, maior universidade federal do país, os contingenciamentos feitos pelo governo foram dramáticos, a perspectiva é um orçamento para o ano que vem menor do que o orçamento que temos atualmente, o que significa que teremos muitas dificuldades para sobreviver.
     
    Eu quero dizer que em nenhum país do mundo se faz pesquisa apenas com o dinheiro privado, os Estados Unidos são um exemplo disso, é a meca do capitalismo, mas o governo investe pesadamente no ensino e na pesquisa das universidades americanas. Aqui no nosso país, ainda caminhando para um melhor desenvolvimento, é absolutamente fundamental termos políticas públicas claras em relação à educação, em relação a saúde, assim como segurança pública e tantas áreas críticas para o desenvolvimento da nossa sociedade. Então eu vejo com muita preocupação esse ataque que estamos sofrendo. A sociedade precisa saber o que nós fazemos na universidade. Muitas coisas que usamos no dia-a-dia só foram possíveis por conta das pesquisas que desenvolvemos na nossa universidade e nas outras universidades, não só desse país como do mundo.
     
    Nós precisamos ter um vínculo maior com a sociedade para mostrarmos o quanto ela importante. É também importante que exista a total liberdade de pensamento para qualquer tipo de visão de mundo, qualquer tipo de questionamento. Nós não temos que ter preconceito contra nada que se discute na universidade, então esse ambiente amplo, democrático, crítico, reflexivo é que faz com que a universidade seja uma instituição milenar. E por isso ela tem que ter autonomia, é um preceito constitucional que está no artigo 207 da Constituição.
     
    A universidade começou numa época que o estado e a igreja eram uma coisa só. O que se percebeu é que se ficassem ligados a políticas de governos ou a visões de mundo de uma determinada corrente religiosa isso não faria com que a ciência chegasse ao que é hoje.  A universidade é dependente financeiramente do governo federal, mas na verdade ele só repassa os recursos que são no fundo da população brasileira.  
     
    Então a partir dos nossos impostos é que o governo repassa esse dinheiro para a universidade e nós temos a obrigação de devolver para sociedade sobre a forma de ensino e pesquisa e de atividades de assistência direta à população o que ela investiu em nós. Esse é o compromisso, uma espécie de contrato social que nós temos com a sociedade. Precisamos e devemos melhorar muito, não há a menor dúvida que precisamos cada vez mais e melhor atender as duas missões fundamentais: a primeira delas é formar cidadãos, antes e acima de tudo cidadãos que se preocupam com o bem-estar da nossa população, especialmente os mais necessitados, mais vulneráveis e segundo produzir e difundir o conhecimento para melhoria da qualidade de vida da nossa população. A autonomia universitária é um preceito absolutamente fundamental, nós não podemos, não devemos e não nos dobraremos a nenhum governante de ocasião que prejudique a universidade que como já disse é um órgão de Estado, não de governantes.
     
    “Hoje a faculdade de medicina tem zero reais e zero centavos em conta”
     
    Confere que já faltam insumos básicos para o dia-a-dia?
    Obviamente com o contingenciamento das verbas estão surgindo problemas importantes na gestão do dia-a-dia, principalmente no funcionamento da máquina administrativa. Não é possível que um hospital que funciona 24h tenha falta de insumos básicos e alimentos. Felizmente ainda não chegamos na carência grande de insumos básicos pelo grande esforço dos gestores que estão fazendo das tripas coração para a máquina não parar. No entanto, já estão faltando alguns itens, aqui e ali. O pior é o corte na verba de investimento para a compra de equipamentos novos e para a ampliação de espaços para aumento das áreas de pesquisa e ensino.
     
    Para se ter uma ideia, hoje a faculdade de medicina só recebeu uma parcela das três parcelas devidas no orçamento da universidade por conta do corte de verba do governo federal. Hoje a faculdade de medicina tem zero reais e zero centavos em conta, ou seja, se tivermos uma emergência nós não temos verba até para comprar papel, o que só não acontece porque temos um controle de estoque no almoxarifado. Estamos atuando no limite e fazendo de tudo para que não tenhamos uma emergência porque não teremos dinheiro pra suprir.
     
    Algum projeto importante a curto e médio prazo?
    Bom, em termos de projetos a curto prazo posso dizer que a nossa reforma curricular do curso de medicina vai trazer grandes mudanças na formação de um médico. A medicina está evoluindo de uma forma absolutamente exponencial e o futuro médico que estamos formando tem que estar conectado com essas mudanças como a medicina de precisão, o Big Data, a inteligência artificial como várias outras inovações tecnológicas e até de robótica.
     
    Então, nós estamos implementando uma reforma curricular que visa formar esse médico que vai dar conta dos desafios do futuro. Em médio prazo, nós esperamos que o nosso hospital volte aos tempos áureos em que éramos referência. Ainda somos referência nacional, mas hoje com muita dificuldade porque temos 200 doentes internados quanto nos nossos tempos áureos tínhamos mais de 400.
     
    Como está vendo a proliferação de doenças até então consideradas extintas?
    A febre amarela está rodeando as grandes cidades e teremos graves problemas se nada for feito. Hoje estamos com essa possibilidade de aparecimento dessas doenças, além da tuberculose, uma doença curável, mas em função de uma série de falhas no abandono do tratamento pelos doentes tem aumentado a tuberculose resistente aos medicamentos. Temos ainda a dengue, a Zika, o Chikungunya... É fundamental que consigamos controlar o Aedes aegypti, que é o mosquito transmissor dessas doenças, como também da forma urbana da febre amarela.
     
    No Rio de Janeiro, com tanta gente morando nas favelas em condições insalubres é muito mais fácil a febre amarela se alastrar. Estamos trabalhando com os pesquisadores e professores das universidades para evitar a entrada da febre amarela nos grandes centros urbanos porque se entrar será realmente muito complicada a situação. Daí a necessidade de nós nos vacinarmos contra essa doença. As doenças emergentes têm retornado e levado preocupação.
     
    Ainda acha que pode acontecer uma epidemia de febre amarela nos grandes centros urbanos?
    É uma possibilidade. A febre amarela tem dois ciclos, o silvestre e o urbano. O silvestre é na mata. Com a derrubada de florestas e a entrada do homem nas florestas por trabalho ou lazer, ela pode se alastrar para as cidades. Temos que ter um esforço de vigilância para impedir a proliferação do mosquito transmissor.
     
    “O combustível para compor é o amor e às vezes o desamor”
     
    Carnaval chegando, de onde vem a inspiração para compor?
    Costumo brincar que eu sou um compositor sazonal. Meu parceiro de fé é o Noca da Portela que é o meu professor de vida, de sabedoria, com grande o espírito de solidariedade e de companheirismo. Nós temos décadas de composições juntos, inclusive com um CD gravado (Samba, Saúde & Simpatia). Somos vencedores de vários sambas do Simpatia É Quase Amor, do Barbas e tivemos o prazer e a honra de fazer uma composição para o bloco Bafafá. E também o bloco Rola Preguiçosa para quem temos feito sambas todos os anos.
     
    O Rio de Janeiro nos inspira e atrai. Nós temos muito orgulho de nos considerar fundadores do Simpatia e do Barbas, que junto com o Suvaco, contribuíram para termos o carnaval mais democrático do mundo onde você bota qualquer fantasia ou nenhuma e de graça sai pulando atrás dos blocos mostrando irreverência e alegria.
     
    A inspiração vem do dia-a-dia da nossa cidade, uma cidade do amor, cidade da luz. O Rio de Janeiro não tem igual, a sua beleza natural é absolutamente fantástica, onde você vai você vê uma coisa bonita, um povo alegre e sorridente, mulheres e homens bonitos. Tudo com integração da natureza com o espírito de ser do carioca, aquela boa malandragem.
     
    O combustível para as nossas composições obviamente é o amor e às vezes o desamor.
     
    Tem algum segredo para compor?
    O segredo está aí aos nossos olhos e corações, basta você ter a sensibilidade de captar essas nuances.
     
    Como está vendo a decisão do prefeito Crivella de cortar o repasse de verbas para as escolas de samba?
    Esse corte de verba do Crivella eu atribuo muito mais a visão religiosa que ele tem de mundo. Precisamos realmente discutir o financiamento do carnaval do Rio, mas ele não pode sofrer uma ruptura brusca do investimento público.
     
    Tem alguma utopia?
    A minha a utopia é que tenhamos um país mais justo, mais solidário, mais fraterno, um país que aproveite o potencial espetacular desse povo que é um povo criativo, inovador, solidário.
     
    Entrevista concedida a Ricardo Rabelo, outubro de 2019
     

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      • Comentário do post Jeannine Sester:
        Roberto Medronho traduz os anseios e a plataforma de ações que o Sindicato dos Medicos quer concretizar hoje, no pleito eleitoral, sendo componente da Chapa 2! Roberto Medronho me representa!,


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