Com o envelhecimento da população, o Alzheimer e outras doenças cerebrais reduzem a qualidade de vida das pessoas apesar do aumento da longevidade.
Atualmente, o diagnóstico acontece quando já há danos significativos e em estágios avançados da doença, na maior parte das vezes, restringindo a tratamentos que só atenuam, mas não trazem a cura.
Em todo o mundo, cientistas tentam investigar quais substâncias presentes no organismo são capazes de indicar ainda em estágios iniciais o desenvolvimento da doença.
Entre eles, está o cientista Mychael Lourenço, professor do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis (IBqM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que em março foi contemplado com o ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research, pelo trabalho que realiza nesse campo.
O Prêmio ALBA-Roche de Excelência em Pesquisa em Neurociência homenageia neurocientistas em meio de carreira que demonstraram conquistas excepcionais em neurociência, considerando as oportunidades que tiveram.
Ele está na terceira edição e o vencedor recebe o prêmio em cerimônia que ocorrerá no verão europeu, no dia 10 de julho, na cidade de Barcelona, na Espanha. O júri que apontou o vencedor era formado por cientistas da Alemanha, Suíça, Suécia, África do Sul, Portugal, Brasil, China, Estados Unidos da América, Índia e Reino Unido.
Para Lourenço, que estuda a doença de Alzheimer desde a graduação, a premiação representa o reconhecimento de todo o trabalho da equipe do laboratório aqui do IBqM, que reúne muitos alunos, pesquisadores e outros professores colaboradores. “Eu fiquei muito feliz, pois nas edições anteriores dois europeus tinham sido agraciados.
Desta vez, o prêmio, que é recente, veio para o Brasil. E o importante é que ele evidencia a originalidade, a independência e a pesquisa em neurociência de profissionais no início ou no meio da carreira, mas que já apontam potencial para aprimorar a compreensão dos mecanismos causais das doenças cerebrais. E, sem dúvida, houve o reconhecimento de um trabalho realizado em condições que não são ideais, com falta de financiamento e cortes de verbas das universidades”, informou o professor.
De acordo com o cientista, foram três estudos em andamento que levaram o júri a escolher o seu nome. “Eles avaliam a nossa trajetória, o conjunto da obra.
Assim, receberam destaque: o trabalho que fazemos para verificar como o peptídeo beta-amilóide afeta a inibição da produção de proteínas para o cérebro, em um mecanismo que chamamos de disfunção de proteostase; os estudos que fizemos para mostrar como a atividade física produz um hormônio, a miocina FNDC/irisina, que aumenta a resiliência sináptica; e, por fim, nossa pesquisa sobre marcadores metabólicos circulantes no sangue das pessoas, como a carnitina plasmática”, explicou o professor.
Hoje, em torno de 40 milhões de pessoas apresentam diagnóstico de doença de Alzheimer no Planeta. No Brasil, o número é estimado em 2 milhões, mas essa conta pode estar errada, pois há subnotificações devido a problemas de acesso à saúde. Dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2025, o SUS (Sistema Único de Saúde) registrou 56,2 milhões de atendimentos ambulatoriais relacionados ao Alzheimer.
Os dados correspondem a registros de atendimentos e internações, e não ao total de pessoas com a doença, já que um mesmo paciente pode utilizar o serviço mais de uma vez. Cerca de 30 mil óbitos são associados à doença no país.
Há várias lacunas que a ciência ainda tem na prevenção e tratamento de doenças cerebrais. Segundo Lourenço, ainda não há cura, mas já surgem medicamentos que trazem benefício ao paciente e retardam o avanço do Alzheimer.
No Lourenço Lab, nome do laboratório do IBqM que ele criou, mas não tem CNPJ independente da UFRJ, há duas frentes de pesquisa que estão sendo abertas: uma para descoberta antecipada da doença e outra de medicamentos capazes de trazer a cura. “Eu faço uma analogia com o câncer. Quando ele está em estágio avançado é mais difícil de ser tratado, mas quando ele é descoberto antes, as chances do paciente são maiores. A gente trabalha para detectar a doença antes mesmo dos primeiros sintomas”, disse Lourenço.
Do ponto de vista do pesquisador, no Brasil, precisamos descobrir biomarcadores (substâncias identificadas no organismo humano) que podem antecipar a instalação da doença. O professor Mychael Lourenço destacou os avanços na área por parte da Universidade, como o trabalho da professora Fernanda De Felice, também do IBqM, que liderou estudos inovadores sobre as ações dos hormônios na doença de Alzheimer. “Ela fez análises em um estudo recente que apontam o bom desempenho da proteína p-tau 217 como o principal biomarcador para distinguir, por meio de exame, indivíduos saudáveis de pessoas com a doença. O estudo da Fernanda indica que pTau217 deve funcionar bem como biomarcador na população brasileira”, esclareceu.
A prevenção do Alzheimer não se restringe a encontrar medicamentos, mas também avaliar vários aspectos culturais e sócio-econômicos, que vão desde a análise da mistura genética dos brasileiros, à exposição ao sol, à realização ou não de atividade física ou consumo de alimentos. “O Lourenço Lab atua na prevenção, no desenvolvimento de produtos que podem futuramente se transformar em fármacos e ainda em campanhas para proteção do organismo das doenças cerebrais. Quem são os brasileiros que desenvolvem Alzheimer? É algo ainda em desenvolvimento e precisamos avançar. E esse também é um dos nossos desafios.”, concluiu Mychael Lourenço.
Fonte: Conexão UFRJ