Dois médicos que fazem parte do comitê científico da Prefeitura do Rio para enfrentamento da pandemia de Covid-19 questionaram pontos do plano de relaxamento da quarentena na cidade.
O comitê se reúne de tempos em tempos, mas não há uma frequência definida para esses encontros. Eles podem ocorrer uma vez por semana, ou cada 15 dias.
No último, foi decidido que os shoppings poderiam reabrir, mas dois especialistas que não são da prefeitura não puderam participar.
O infectologista Celso Ramos – que não estava na reunião – disse que ficou surpreso com algumas decisões tomadas .
"Eu desconheço a razão técnica pela qual estamos abrindo shoppings em comemoração ao Dia dos Namorados", afirmou Ramos. "Camelô aberto, neste momento, eu sou totalmente contra", concluiu.
O virologista Amilcar Tanuri, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que também faz parte do comitê, disse que a frequente lotação no transporte público é o que mais preocupa. O especialista também contou que não havia sido aconselhado ao município a abertura de shoppings.
"A pergunta é como o pessoal vai chegar no shopping. Outra coisa impressionante que vimos ontem foi a lotação nos BRTs, nos metrôs, enfim. A atividade humana, a economia, agita muito a cidade. As aglomerações. (...) A gente não tinha aconselhado a abertura do shopping. Estávamos pensando que o shopping fosse ser a fase mais adiantada. Pra frente da metade deste mês, lá pro dia 21", afirmou.
O médico considerou que essa transição é um risco que a sociedade tem que assumir e convocou a todos cooperarem. Tanuri defendeu, ainda, um monitoramento constante da circulação no Rio.
"O problema é se todos vão cooperar e o nosso sistema de saúde estará mais liberado. Mas isso pode mudar, né? Da noite para o dia, por isso tem que ser monitorado também", alertou.
O médico Jorge Darze, subsecretário na Secretaria Municipal de Saúde, disse que serão feitas avaliações contínuas sobre os efeitos do relaxamento e as consequências para o sistema de saúde. Não está descartado, segundo ele, um recuo na flexibilização se a doença avançar de novo.
"É preciso que a gente tenha capacidade de agir antes de uma situação mais grave ocorrer. Esses indicadores podem acender a luz amarela, depois a luz vermelha para que as medidas sejam tomadas a tempo, evitando complicações no controle da pandemia", explicou.
O comitê da prefeitura é formado por dez médicos e pesquisadores. Quatro deles não têm ligação com a administração pública. Os principais indicadores usados para tomar a decisão sobre a flexibilização da quarentena – segundo o comitê – são o número de atendimentos nos hospitais, nas unidades básicas de saúde, o número de mortes e a fila pra internação.
Fonte: G1