A reportagem do jornal The Washington Post destaca um momento de forte crescimento do turismo no Rio de Janeiro, abordando como a cidade busca receber um número cada vez maior de visitantes sem perder características que a tornam única.
Assinada pela jornalista Carla Vianna, a matéria parte de uma mudança aparentemente simples: cardápios de barracas de praia em Ipanema passaram a incluir traduções em inglês para facilitar a vida dos turistas estrangeiros. O exemplo é usado para ilustrar uma transformação mais ampla pela qual o Rio vem passando.
Segundo a reportagem, o Rio vive um boom turístico impulsionado por fatores como suas praias, a gastronomia, a vida cultural e a ampla divulgação da cidade nas redes sociais. Vídeos produzidos por influenciadores e imagens de drone sobre comunidades e pontos turísticos ajudaram a ampliar a visibilidade internacional da cidade.
O texto também discute um desafio recorrente em destinos turísticos de grande apelo: como modernizar serviços e atender visitantes de diferentes países sem descaracterizar a cultura local. A preocupação é evitar que o Rio siga o caminho de outras cidades que, ao se adaptarem excessivamente ao turismo, acabaram perdendo parte de sua identidade.
A matéria sugere que o Rio tenta encontrar um equilíbrio entre dois objetivos: aproveitar os benefícios econômicos do aumento do turismo e preservar elementos que fazem parte do cotidiano carioca, como as barracas tradicionais de praia, a informalidade das relações sociais, a cultura de rua e os hábitos locais.
O fato de um dos principais jornais dos Estados Unidos dedicar uma reportagem ao tema também reforça a projeção internacional do Rio neste momento. A abordagem não é centrada apenas em cartões-postais, mas na discussão sobre o futuro da cidade diante de um fluxo crescente de visitantes estrangeiros.
Para o setor turístico carioca, a publicação funciona como um reconhecimento de que o Rio voltou a ocupar espaço relevante no imaginário internacional, ao mesmo tempo em que chama atenção para a necessidade de planejar esse crescimento de forma sustentável e compatível com a identidade da cidade.
Confira o artigo da jornalista Carla Vianna traduzido para o português (Fonte Washinton Post)
Antigamente, pedir comida de um dos vendedores ambulantes das praias do Rio de Janeiro exigia uma mistura de fé e Google Tradutor. Agora, na Barraca do Antônio, na Praia de Ipanema, um dos centenas de quiosques tradicionais na areia, um cardápio recém-plastificado oferece uma pequena, porém reveladora, atualização: abaixo das palavras " aipim frito " está a tradução para o inglês, "fried cassava" (mandioca frita).
Manoel Gomes Alves, o gerente do quiosque, segura orgulhosamente o cardápio enquanto eu noto uma tradução um pouco malfeita mais abaixo na página: O corte típico brasileiro de carne bovina conhecido como " contrafilé " é traduzido aqui, literalmente, como "contra (contra) filé (filé) com fritas".
Atrás dele, jovens preparam caipirinhas e exibem seu portunhol , uma mistura de espanhol com influência portuguesa, comum em locais turísticos. "Eles aprenderam na praia", diz Alves. Alves, que trabalha no mesmo local há 14 anos, afirma que este verão tem sido o melhor até agora.
A cena ilustra a adaptação, muitas vezes improvisada, do Rio de Janeiro a um público internacional cada vez maior. Durante décadas, o Brasil existiu um tanto à margem do turismo convencional, com suas famosas praias frequentemente ofuscadas por preocupações com segurança e instabilidade política. Mas essa percepção está mudando rapidamente.
No ano passado, a cidade recebeu um número recorde de 2,1 milhões de turistas internacionais – 45% a mais do que no ano anterior – principalmente visitantes da Argentina, Chile e Estados Unidos. E mais de 1 milhão já chegaram este ano, segundo dados oficiais do setor turístico.
Cardápios em inglês e funcionários multilíngues podem parecer detalhes pequenos, mas revelam algo maior: uma cidade aprendendo a acolher o mundo sem sacrificar as pessoas e os costumes que a tornam o que ela é.
Já estamos vendo essa tensão se manifestar nas areias.
A economia das praias do Rio, por exemplo, sempre foi informal, com preços variáveis e abertos à negociação. Recentemente, a cidade começou a reprimir os vendedores que cobram dos turistas mais caros do que dos moradores locais por comida, bebida e lembrancinhas, uma prática conhecida como "preço gringo". As autoridades chegaram a lançar um estudo para explorar maneiras de padronizar os preços em geral, uma medida incomum em uma cidade cuja cultura praiana é frequentemente guiada por relações pessoais.
Recentemente, em Copacabana, uma promotora que falava espanhol me entregou um flyer de uma festa de reggaeton. Ela nem sequer se esforçou para falar português. "Latin Funk", dizia o papel neon, seguido da frase " Bem Brasil ". No entanto, nada nessa interação me pareceu muito brasileiro, principalmente porque o reggaeton não é um gênero popular por aqui.
Para além da praia, o cenário gastronômico da cidade também está passando por uma transformação. A culinária carioca sempre foi definida por caipirinhas em copos de plástico e refeições descomplicadas pós-praia, geralmente consumidas no mesmo barzinho descolado. A comida nunca foi o foco principal, mas, cada vez mais, vem se tornando.
Quando me mudei de Nova York para o Rio há seis anos, o brunch nem sequer existia. Em vez disso, o que eu comia era torrada com manteiga e um expresso rápido na padaria do bairro. Hoje, esse ritual longo e demorado impulsiona restaurantes inteiros.
Um desses restaurantes é o SO_Lo Cafe, um local para brunch saudável servido o dia todo, com unidades nos bairros turísticos do Leblon, Ipanema e Copacabana, no Rio de Janeiro. Desde o início, o proprietário Fernando Kaplan conta que o café ofereceu horários flexíveis e um cardápio leve para se adequar à rotina carioca, tão focada nas praias.
"O SO_Lo foi criado para realmente atender o público carioca ", diz Kaplan, referindo-se às pessoas nascidas e criadas no Rio. "Tanto que temos clientes que vêm duas ou três vezes por dia - para um café, depois um sanduíche e talvez mais tarde um iogurte."
E os cariocas gostaram. Em menos de três anos, o café expandiu para quatro locais.
O modelo de priorizar os locais ainda se mantém, mas o público está mudando visivelmente. Na unidade de Copacabana, em particular, os estrangeiros representam uma parcela crescente da clientela de Kaplan. Ele agora está contratando funcionários que falam inglês ou espanhol e desenvolvendo um programa interno de inglês, onde os funcionários aprenderão a linguagem específica do setor de hotelaria.
"Consideramos isso extremamente importante", diz Kaplan, "porque faz com que os estrangeiros se sintam muito mais acolhidos."
Outros restaurantes que pareceriam deslocados há poucos anos também estão prosperando e se espalhando pelas calçadas, incluindo o Teva, um local vegano inspirado em uma delicatessen de Nova York; o Fatchia, um bar com atmosfera de discoteca que serve pizza; e o Virtuoso, um bar de vinhos naturais onde os pratos pequenos com foco em vegetais custam mais do que um almoço brasileiro tradicional de arroz e feijão.
Alguns desses novos conceitos de restaurantes e bares estão surgindo em bairros mais residenciais, aqueles que raramente aparecem nos roteiros turísticos. Em Laranjeiras, por exemplo, o Mercado São José, um prédio histórico que permaneceu fechado por sete anos, foi recentemente transformado em um mercado gastronômico inspirado em locais como o Chelsea Market, em Nova York, e o Time Out Market, em Lisboa.
"Notei um fluxo maior de turistas em Laranjeiras, algo que costumava ser muito raro", diz Lara Stahlberg, moradora do bairro. De vez em quando, ela até ouve um sotaque estrangeiro na academia local.
As novas atrações também estão atraindo visitantes para além dos pontos turísticos típicos de Ipanema e Copacabana, incluindo as favelas do Rio.
Recentemente, a caminho de uma aula de ioga no Vidigal, uma comunidade na encosta de um morro acima dos bairros mais ricos do Rio, vi duas mulheres descerem de mototáxis em uma curva da estrada que revela uma vista deslumbrante das praias lá embaixo. Vestindo camisetas iguais com temas brasileiros, elas pararam para uma foto antes de continuarem subindo a ladeira.
Há uma década, essa cena seria bem menos comum. As favelas do Rio, bairros tradicionalmente de baixa renda, são há muito tempo associadas ao crime e ao tráfico de drogas, sendo consideradas, em grande parte, inseguras para visitantes. Foi somente com a preparação para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, quando a cidade lançou uma iniciativa de segurança e turismo para "pacificar" as favelas mais visíveis, que o número de turistas aumentou.
Hoje em dia, lugares como Vidigal e Rocinha se tornaram atrações turísticas por si só, com suas vistas panorâmicas e bares em terraços, mas as multidões mais recentes foram atraídas por vídeos virais nas redes sociais.
Na Porta do Céu, em Rocinha, turistas fazem fila para participar da última moda: serem filmados por um drone atravessando uma porta desgastada em um terraço e caminhando em direção à borda enquanto o drone se afasta. À sua frente, um mar de casas de tijolos se estende pela encosta até o oceano, e a imponente Pedra da Gávea se ergue ao longe.
No dia da minha visita, encontrei um casal do norte do Brasil e um do Canadá. Era a segunda vez que o casal brasileiro visitava a favela. Quando o homem abriu a porta para a companheira, o drone passou zunindo por cima, capturando o casal enquanto caminhavam em direção à beira do precipício, sentavam-se juntos em uma cadeira e se beijavam para a câmera.
Os vídeos começaram a viralizar este ano, impulsionados principalmente pelo meu guia, Carlos Alberto Soares da Silva, que começou a postar vídeos com drones da favela em 2018. "Eu costumava carregar o drone na minha mochila e oferecer: 'Quer gravar um vídeo?' Eu cobrava 50 reais na época. Os vídeos eram péssimos naquela época", diz ele.
Este agora é um dos pontos mais procurados nas favelas; pode haver filas de até três horas para acessar o terraço da Porta do Céu durante a alta temporada. No terraço, há pelo menos meia dúzia de pilotos de drones, cada um com seu próprio equipamento e grupos de turistas.
"Muitas crianças por aqui estavam perdidas, envolvidas com o crime", diz Soares da Silva. "Hoje vejo muitas delas trabalhando no turismo. É muito legal. Elas criam um Instagram, começam a fazer seus próprios vídeos – crianças que estavam seguindo o caminho errado encontraram um novo propósito."
Mais tarde, conheci uma família que abriu seu próprio terraço para uma experiência semelhante, porém mais intimista. Eles pintaram um mural na beirada e administram um pequeno bar na cozinha, vendendo limonada, refrigerantes e caipirinhas. O proprietário, Marcelo Campos, conta que sua esposa adora ensinar passos de dança brasileira aos visitantes, tornando a visita mais interativa. Atualmente, a maior parte da família trabalha no negócio.
"Fico muito feliz em ver a Rocinha sendo vista de forma diferente", diz Laryssa Silva, professora de ioga que mora no bairro. Por muito tempo, segundo ela, a comunidade foi vista como um "lugar proibido".
Mas, embora essa percepção esteja mudando e trazendo dinheiro para novos projetos para crianças e obras básicas de saneamento, nem todos estão convencidos de que os benefícios estejam sendo distribuídos de forma equitativa. E a composição do bairro está se transformando, com muitos moradores antigos saindo, alugando ou vendendo suas casas por preços exorbitantes, tudo porque pessoas de fora estão dispostas a pagar.
"Hoje em dia, você mal reconhece alguém", diz Silva. "A Rocinha sempre foi lotada e caótica, mas agora, em uma hora, você vê mais de cinco grupos de 15 turistas cada sendo guiados pela comunidade."
Adam Newman, um americano que se mudou para a favela do Vidigal em 2014, teme que grande parte do turismo atual seja planejado para que os visitantes atravessem as favelas o mais rápido possível, com poucos benefícios duradouros para os negócios locais.
Foi isso que o motivou a fundar a Favela Inc. A organização sem fins lucrativos inclui a Brota, uma incubadora para projetos liderados pela comunidade, e a Favela Experience, uma empresa de turismo que muda o foco de "ver" a favela para "conhecer" as pessoas que vivem lá.
Os passeios de Newman levam os visitantes a conhecer projetos sociais locais, como o AmeViva, que oferece aulas gratuitas de ioga e jiu-jitsu para crianças e adultos em comunidades carentes. Os visitantes podem participar de diferentes atividades em cada projeto — como uma aula de autodefesa no AmeViva — e têm a oportunidade de fazer doações.
Na Brota, os moradores podem acessar Wi-Fi gratuito, laptops, um estúdio de gravação e equipamentos para podcast. O objetivo, segundo Newman, é impulsionar oportunidades dentro da comunidade e dar aos moradores os recursos necessários para criarem seus próprios negócios.
"Se você caminhar pela comunidade de um ano para o outro, a maioria dos comércios terá mudado de nome ou desaparecido", diz ele. "Minha maior preocupação é que, daqui a 10 anos, a maioria das pessoas que moram aqui não seja de Vidigal."
Semanas depois, de volta à praia de Ipanema, as traduções no cardápio da Barraca do Uruguai continuam imperfeitas. Contrafilé com fritas ainda aparece como "contra filé com fritas", o que, de certa forma, parece apropriado para uma cidade que está aprendendo a se comunicar com o mundo em seus próprios termos.
Mas um coco fresco está custando 15 reais, seja você morador local ou não. Quando cheguei, há seis anos, custava 6 reais. A questão que o Rio enfrenta agora não é se os turistas virão. É como a cidade se adaptará sem perder as pessoas e os lugares que fizeram os visitantes se apaixonarem por ela em primeiro lugar.