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  • Marc Ferrez, pioneiro da fotografia no Rio de Janeiro, deixou um acervo incrível

    Da Redação em 04 de Novembro de 2021    Informar erro
    Filho de franceses, Marc Ferrez nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 7 de dezembro de 1843. Como fotógrafo da Marinha Imperial, retratou as comemorações do fim da guerra do Paraguai, Revolta da Armada, entre outros eventos.
     
    Mas, ficou conhecido mesmo por retratar as mudanças urbanísticas no Rio de Janeiro, paisagens e tipos urbanos e por ser pioneiro da fotografia em cores no Brasil.
     
    Sua obra é considerada um dos principais documentos visuais do Brasil, sobretudo da cidade do Rio, do século XIX e do início do século XX.
     
    Retratou, também, eventos históricos, a sociedade escravista da época e grandes obras de engenharia, como ferrovias e reformas urbanísticas, tal qual a da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), no Rio.
    Ferrez acompanhou e experimentou as transformações tecnológicas da fotografia.
     
    Pioneiro da fotografia em cores no Brasil, dedicou-se ao cinema e produziu diversos filmes, entre eles, a primeira comédia cinematográfica brasileira.  
     
    “Marc Ferrez foi muito mais do que um grande fotógrafo. Pertenceu a diversos contextos sociais, econômicos e intelectuais. Foi importante difusor do cinema país afora, testemunhou processos fundamentais da vida do país e foi interlocutor de poderosos agentes que lideravam as transformações técnicas e científicas na época”, destacou Ileana Pradilla Ceron, responsável pelo Núcleo de Pesquisa em Fotografia do Instituto Moreira Salles (IMS), em entrevista à Revista de Fotografia Zum (2019), publicação do instituto, que adquiriu o acervo de Ferrez em 1998.
     
    Os pais de Marc Ferrez, os franceses Zépherin (Zeferino) Ferrez e Alexandrine Caroline Chevalier, morreram quando ele tinha apenas 7 anos, sob suspeita de envenenamento.
     
    Existem poucas informações sobre o que aconteceu com Marc após a morte dos pais. Não há documentação que comprove datas ou ateste sua formação, mas sabe-se que ele morou em Paris com a família de Joseph Eugène Dubois, escultor e gravador de medalhas, como seu pai.  
     
    Pesquisadores acreditam que ele tenha retornado ao Brasil no início dos anos 1860, estabelecendo-se como fotógrafo.
     
    O início na fotografia
    No Rio de Janeiro, Marc Ferrez trabalhou na Casa Leuzinger, estabelecimento que funcionava como papelaria, tipografia, ateliê de fotografia e ponto de revenda de material fotográfico.
     
    O negócio era comandado pelo fotógrafo George Leuzinger. Lá, Ferrez teria aprendido técnicas e tido um contato maior com o universo da fotografia e com pintores, fotógrafos e cientistas.
     
    Em 1867, abriu a firma Marc Ferrez & Cia., no centro da cidade, na Rua São José.
     
    Nessa época, foi contratado como fotógrafo da Marinha Imperial. Usou esse título ao longo de toda sua trajetória – substituindo por Marinha Nacional quando foi instaurada a República.
     
    Casou-se com Marie Lefebvre, filha de uma modista e comerciante francesa, em 1873. No mesmo ano, um incêndio destruiu seu estabelecimento, onde ele também morava. Por essa razão, em 1874, viajou com a esposa a Paris para comprar novos equipamentos.
     
    O casal teve dois filhos, Julio Marc Ferrez, em 1881, e Luciano José André Ferrez, em 1884.
     
    Comerciante e empresário
    Ferrez atuou como representante comercial dos principais fabricantes mundiais de equipamentos fotográficos.
     
    Em 1891, entrou no setor editorial. Abriu uma sociedade com o livreiro e tipógrafo Henri G. Lombaerts.
    A empresa editou, por exemplo, o jornal A Estação, cujo suplemento literário publicou, em capítulos, a obra Quincas Borba, de Machado de Assis.
     
    Em 1900, Marc Ferrez dedicou-se, ainda, à produção de séries de cartões postais.
     
    Estima-se que ele tenha produzido, ao todo, aproximadamente 350 postais, que levaram à popularização de suas imagens.
     
    Marc Ferrez: escravos, obras de engenharia e outros temas retratados
     
    A obra de Marc Ferrez inclui fotografias de vistas urbanas, de fazendas, de costumes locais, de grupos indígenas, de obras públicas, entre outros. Veja alguns temas retratados por ele.
     
    - Estradas de ferro
    Ferrez documentou muitas das estradas de ferro das regiões Sul e Sudeste do país, como a ferrovia Paranaguá-Curitiba (PR), considerada uma das obras mais complexas da época.
     
    Em 1880, fotografou o porto de Santos, fez vistas panorâmicas do município e imagens da São Paulo Railway Company.
     
    Durante uma expedição na Bahia, em 1875 e 1876, como fotógrafo da Comissão Geológica e Geográfica do Império, o fotógrafo fez retratos de indígenas da etnia botocudo, nunca antes fotografados.
     
    Nos anos 1880, também registrou indígenas em Goiás e em Mato Grosso (os bororo).
    Ferrez apresentou uma série de imagens relacionadas à vida indígena, na Exposição Antropológica Brasileira, realizada no Museu Nacional, em 1882.
     
    - Abastecimento de água no Rio de Janeiro
    Ferrez foi responsável pela documentação visual das obras destinadas a melhorar o abastecimento de água no Rio, de 1877 até o final da década de 1880.
     
    - Escravizados e fazendas de café
    Nos anos 1880, registrou imagens panorâmicas de fazendas de café do Vale do Paraíba, onde também fez retratos de indivíduos escravizados.
     
    “Em suas fotos [...] o escravismo aparece retratado de maneira ordeira, organizada e com uma hierarquia que de tão estabelecida mais parece obra da própria natureza”, destaca Lilia Moritz Schwarcz, antropóloga e historiadora, em texto publicado no Blog do IMS.
     
    Segundo ela, quando ampliadas, no entanto, as imagens podem ganhar um sentido inesperado. “Não poucas vezes com suas expressões faciais e gestos corporais eles roubam a cena, introduzindo um outro mundo: os vários mundos da escravidão”, acrescenta.
     
    Para a historiadora Ynaê Santos Lopes, Ferrez faz um registro das fazendas a partir da perspectiva de um mundo branco senhorial. “Um mundo que está em ruínas e que faz uma última aposta na escravidão”, comenta, em vídeo produzido pelo IMS.
     
    De acordo com a especialista, as fotografias de Ferrez podem ser vistas como esforço pragmático para evidenciar que o Brasil estava, de fato, na marcha civilizatória, e que a escravidão não era um impeditivo.
     
    “Essas mesmas fotos, olhadas com mais cuidado ou nos seus detalhes, permite entender uma série de resistências, por parte dos escravizados, para sobreviver e, muitas vezes, subverter a ordem. Em algumas, não há escravos encarando a câmera, como provavelmente foi pedido, o que também é uma pequena subversão”, analisa Ynaê Santos Lopes.
     
    - Avenida Central (atual Avenida Rio Branco)
    Marc Ferrez foi contratado pela Comissão Construtora da Avenida Central para registrar a remodelação da principal via da então capital federal.
     
    Marc Ferrez fotografou os edifícios da recém-inaugurada Avenida Central, no centro do Rio (Foto: Marc Ferrez/ Acervo do Instituto Moreira Salles)
     
    A documentação fotográfica de todos os prédios construídos na avenida (inaugurada em 1905), é considerada o projeto editorial mais ambicioso de sua trajetória. Nele, o fotógrafo contrapôs reproduções das plantas às fotografias das fachadas de cada edifício.
     
    O álbum original foi lançado em 1907.
    Em 1913, Ferrez perdeu parte desses registros, devido a uma violenta ressaca que atingiu o bairro do Flamengo, onde ele morava com a esposa.

    A relação de Marc Ferrez com o cinema
    No início dos anos 1900, o fotógrafo criou a empresa Marc Ferrez & Filhos para tratar, exclusivamente, de negócios relacionados a cinema.
     
    No final de 1905, a firma passou a ser a fornecedora exclusiva do cinematógrafo ao ar livre que funcionou por aproximadamente um ano (até novembro de 1906) no Passeio Público.
     
    O local, primeiro parque ajardinado do Brasil, foi reduto dos primeiros fãs de cinema do Rio.
     
    Em setembro de 1907, Marc Ferrez inaugurou o Cinematographo Pathé, terceira sala de cinema da cidade. O Cine Pathé, como ficou conhecido, funcionou na novíssima Avenida Central.
     
    O empreendimento foi fruto de uma sociedade com o dono do quiosque Chopp Berrante no Passeio Público e, também, do incentivo dos filhos de Marc.
     
    Nhô Anastácio chegou de viagem (1908), de Julio Ferrez, considerada a primeira comédia do cinema brasileiro, foi um dos títulos que o fotógrafo ajudou a produzir.
    Marc Ferrez (Fonte: Fundo Documental Correio da Manhã/ Acervo Arquivo Nacional)
     
    Ferrez foi distribuidor exclusivo no Brasil dos produtos dos irmãos Auguste e Louis Lumière – pioneiros do cinema –, de quem se tornou amigo.
     
    Iniciou suas experiências com fotografia colorida em 1912. Utilizou as placas autocromos Lumière, primeiro processo industrializado para esse fim, que havia sido lançado em 1907.
     
    Marc Ferrez foi o responsável por introduzir as chapas fotográficas coloridas no Brasil.
     
    Fotógrafo do Brasil
    Ferrez se destacou por registrar paisagens e imagens panorâmicas. Representou o Brasil em exposições internacionais e recebeu prêmios diversos.
     
    Sempre esteve ligado a atividades culturais e científicas e atento aos principais desenvolvimentos tecnológicos de sua época.
     
    Em 1915, um ano após a morte de sua esposa, Marie Ferrez, viajou para a França e deixou os negócios sob controle dos filhos.
     
    Passou alguns anos em Paris e retornou ao Rio de vez no início dos anos 1920.
     
    Marc Ferrez faleceu em 12 de janeiro de 1923, em Santa Teresa, onde residia com o filho Luciano. Foi enterrado dois dias depois, no Cemitério São João Batista.
     
    No Alto da Boa Vista, uma escola da Rede Pública Municipal de Ensino (2ª CRE) leva seu nome. 
     
    Fonte: Fernanda Fernandes/Multirio
    Fotos: Acervo MIS
     
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