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  • Dr. Paulo Falcão: "A cirurgia bariátrica é um tratamento eficaz contra a obesidade"

    Da Redação em 20 de Outubro de 2021    Informar erro
    Dr. Paulo Falcão:

    A cirurgia bariátrica tem se destacado como tratamento eficaz para a obesidade crônica em todo o mundo nos últimos anos. Com o avanço de novas tecnologias aliado ao melhor entendimento sobre a obesidade como doença e a pandemia do novo coronavírus, a tendência é que se torne cada vez mais popular.

    Para falar sobre esse tema, conversamos com um cirurgião especialista na área, Dr. Paulo Falcão. Ele atua no Rio de Janeiro há mais de 30 anos e já realizou cirurgia bariátrica em mais de 4000 pacientes. Além de conhecer bem o assunto, é um dos médicos mais reverenciados e queridos por seus pacientes, basta uma rápida olhada no Google.

    Dr. Paulo Falcão é professor do Departamento de Cirurgia Geral da UERJ do Hospital Universitário Pedro Ernesto há 25 anos, onde é responsável pela habilitação do serviço de cirurgia oncológica e pelo serviço de cirurgia da obesidade. É também professor do Instituto de Pós-graduação médica da Fundação Carlos Chagas, além de dirigir duas clínicas no Rio, uma em Campo Grande e outra em Vila Isabel. Atende portadores de doenças com variados graus de complexidade com o que há de mais moderno em cirurgias, como as laparoscópicas em 3D e cirurgias robóticas.

    Por ser segura e eficaz, a cirurgia bariátrica tem sido bastante indicada no tratamento da obesidade. Qual é o perfil das pessoas que têm a recomendação para fazê-las?
    Para responder essa pergunta, inicialmente temos que pensar na obesidade como uma doença crônica, derivada de uma alteração metabólica que, em conjunto com outras várias doenças com a mesma causa, compõem a Síndrome Metabólica. Do ponto de vista médico, a obesidade pode ser classificada através de uma escala do IMC – Índice de Massa Corporal.
     
    Esse índice divide a obesidade em três graus:

    Grau 1: de 30 até 35, Grau 2: de 35 a 40 e Grau 3 para indivíduos que apresentam IMC acima de 40, também chamada de obesidade mórbida.

    As pessoas que apresentam indicação do tratamento cirúrgico, são as que apresentam obesidade severas, tanto do grau 3 quanto a do grau 2 quando associadas a duas doenças também relacionadas com alterações metabólicas e que compõem o grupo das comorbidades.
     
    Quais são as vantagens da cirurgia bariátrica em relação a outros tratamentos?
    A questão central de se pensar em vantagem ou desvantagem em determinado tipo de tratamento se relaciona diretamente com o controle da doença de determinada pessoa. Se a pessoa consegue controlar a obesidade sem a cirurgia, sempre será preferível. A questão é que é muito difícil controlar a obesidade mais severa sem a utilização da cirurgia. Todos os estudos clínicos que comparam grupos de pessoas obesas que tenham realizado a cirurgia com aqueles que não realizaram, mostram claramente um resultado muito mais favorável para as pessoas que realizaram a cirurgia bariátrica para o controle de peso e controle das comorbidades associadas.
     
    Por que é necessário fazer um pré-operatório com diversos especialistas, inclusive psicólogos?
    A cirurgia bariátrica corresponde a um momento de mudança de vida muito grande. É sabido que as causas da obesidade, embora diretamente relacionadas com fatores metabólicos e genéticos, apresentam cofatores comportamentais, ambientais, psicológicos e nutricionais muito grandes.
     
    A pessoa que escolhe se submeter a um tratamento cirúrgico terá uma possibilidade de controle do seu peso muito mais efetivo a longo prazo se também compreender os mecanismos das escolhas alimentares e do comportamento psicológico que levam, por exemplo, a uma compulsão alimentar.

    Dessa forma, a indicação da cirurgia bariátrica é feita não só por um cirurgião, mas também por um endocrinologista clínico com apoio do nutricionista, do psicólogo e, eventualmente, do psiquiatra que irão compor uma equipe multidisciplinar.

    Quais são os cuidados que o paciente deve ter após a cirurgia?
    Após a cirurgia, os pacientes devem manter as orientações da equipe multidisciplinar. É fundamental que a pessoa faça um acompanhamento pós-operatório, principalmente durante o período inicial, no primeiro ano onde existe um emagrecimento rápido e com isso pode haver outras alterações no organismo que exijam um acompanhamento médico mais próximo. E posteriormente esse controle deve ser mantido com consultas esporádicas para que se faça um check-up anual como em qualquer pessoa operada ou não operada.

    A pandemia do novo coronavírus aumentou a procura por esse tipo de procedimento?
    No momento em que a população percebeu a gravidade da pandemia do novo coronavírus, principalmente com o chamado grupo de risco, onde a obesidade, a hipertensão arterial, diabetes e outras doenças crônicas estão inseridas, houve sim um aumento, não só pela procura da cirurgia bariátrica, mas também pela procura da manutenção e o controle das doenças que causariam um pior prognóstico no caso da infecção pelo vírus. Dessa forma é saudável que todos pensem em melhorar a sua saúde como uma forma de conseguir lidar melhor com qualquer tipo de infecção, inclusive com o coronavírus.
     
    Mas, é seguro operar durante a pandemia?
    Uma das situações que mais preocupam o médico é o atraso no diagnóstico e no tratamento de diversas doenças em consequência da pandemia do coronavírus. Em Junho de 2020, após o período inicial do lockdown de 3 meses, quando todos os procedimentos eletivos foram suspensos, reiniciamos nossas cirurgias e, em um ano conseguimos ajudar pouco mais de 1000 pessoas em diversos procedimentos.

    Incluindo todos os hospitais em que trabalhamos, cumprindo o protocolo do “novo normal”, que são diferentes entre os hospitais, felizmente não tivemos nenhum caso de contaminação por COVID nos 15 dias após a operação. Isto não significa que é garantido não pegar COVID após uma cirurgia, mas indica que respeitando todas as medidas sanitárias, a cirurgia pode ser considerada um procedimento seguro.

    Qual a diferença entre cirurgia minimamente invasiva, cirurgia laparoscópica em plataforma 3D e cirurgia robótica?
    Ao final do século XX, mais precisamente em 1990, que por coincidência, foi o ano da minha formatura como médico, houve uma revolução no modo como os cirurgiões faziam as cirurgias abdominais. Anteriormente, eram feitas deixando grandes cicatrizes e passaram a ser realizadas através da laparoscopia ou dos “furinhos”, praticamente sem cicatrizes. Essa plataforma permitiu, e com o desenvolvimento da tecnologia permite até hoje, que se façam avanços em termos de segurança, de precisão e de conforto no pós-operatório de cirurgias abdominais de pequeno, médio ou grande porte. As plataformas de laparoscopia 3D e as cirurgias robóticas são formas diferentes de tecnologia que aumentam ainda mais a precisão da laparoscopia avançada.

    Em que consiste a cirurgia metabólica? Ela pode ser usada para tratar pacientes diabéticos não obesos?
    A cirurgia metabólica por definição é a intervenção cirúrgica em um órgão que não está doente, esperando-se um efeito em outros sistemas orgânicos. Essa definição ocorreu pela observação de que em pessoas obesas submetidas a cirurgias ditas somente como bariátricas, existia uma série de melhoras em todos os processos metabólicos que essas pessoas apresentavam.

    Ela, eventualmente, pode ser utilizada em pacientes diabéticos não obesos, principalmente em protocolos experimentais, porque os resultados dessas cirurgias nestes pacientes precisam ser melhor entendidos. No Brasil, as cirurgias em pacientes não obesos, não são reguladas pelo Conselho Federal de Medicina. Apenas pacientes com obesidade podem ser submetidos a cirurgias metabólicas.

    Que hospitais do Rio de Janeiro estão capacitados para realizar a cirurgia robótica? Planos de saúde cobrem essas cirurgias?
    Na cidade do Rio de Janeiro nós temos uma rede hospitalar bastante atuante em relação à cirurgia robótica, tanto em hospitais públicos quanto privados. Os planos de saúde, fora algumas exceções, não cobrem cirurgias robóticas.

    Além da bariátrica, que outras cirurgias o senhor realiza?
    Eu realizo cirurgias dentro das minhas especialidades: cirurgia geral, cirurgia oncológica e cirurgia bariátrica.
     
    Como professor do Depto de Cirurgia Geral da UERJ do Hospital Universitário Pedro Ernesto, qual legado o senhor quer deixar?
    Tenho um profundo carinho pelo Hospital Universitário Pedro Ernesto e pela UERJ, instituição onde me formei e comecei a carreira como cirurgião. Trabalho no Departamento de Cirurgia Geral, ajudei a implementar e fui responsável pelo serviço de cirurgia oncológica do hospital universitário Pedro Ernesto, onde atualmente tenho brilhantes colegas atuando nesse serviço.

    A minha meta é repetir isso para a cirurgia bariátrica. Estamos com um projeto dentro de uma equipe multidisciplinar muito interessante para atuar com pesquisa e assistência em obesidade.
     


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